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Empresas adotam migração modulada

O processo de transição do padrão contábil das empresas brasileiras para se adequar à lei 11.638 e, consequentemente, ao IFRS, está apenas no começo

O processo de transição do padrão contábil das empresas brasileiras para se adequar à lei 11.638 e, consequentemente, ao IFRS, está apenas no começo e a maioria das companhias ainda não conseguiu definir um planejamento estratégico - que inclua orçamento - para a migração. A explicação está justamente na metodologia adotada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), com publicações técnicas que detalham individualmente aspectos como demonstração de fluxo de caixa e definição dos ativos intangíveis.

A forma da publicação de pronunciamentos técnicos visa facilitar a adoção - e compreensão - paulatina das normas pelas companhias, até sua integralidade em 2010. Mas acaba criando mais um obstáculo para as empresas terem o panorama completo das alterações necessárias, segundo executivos que participaram ontem do evento O Impacto do IFRS na Governança Corporativa, promovido em São Paulo pela Gazeta Mercantil.

"Não temos a visão do fim do filme. Consideramos as regras internacionais, mas não sabemos se haverá alguma normativa com adaptação local", diz Camilo Nagano, diretor da área de tecnologia da informação do Santander.

O banco montou uma equipe multidisciplinar, que inclui área de TI, controladoria e finanças, para estudar e dar andamento à "digestão" contábil. Além do IFRS, precisa adotar as alterações definidas pelo Banco Central das regras de Basileia, o que também demanda atualização de sistema. "A formação de uma equipe multidisciplinar busca dar uma resposta ágil à publicação das normas, mas não temos alternativa senão modular", explica, especialmente no que diz respeito à atualização de softwares.

A estratégia da SAP para entrar nesse mercado é oferecer soluções específicas para o padrão contábil internacional já utilizadas em outros mercados. "A SAP trabalha com esses produtos na Europa, onde o IFRS é obrigatório desde 2005. Trazer modelos testados abrevia o tempo de transição para as empresas", acredita Guilherme Bujes, diretor de vendas na área de serviços financeiros da SAP.

Nagano destaca que, para o Santander, a vantagem é que o grupo tem uma estrutura robusta de hardware, então os investimentos não precisam atingir esta profundidade. Mas a desvantagem é não conseguir fazer um planejamento orçamentário. Uma estimativa da Securities and Exchange Commission (SEC), o órgão regulador do mercado de capitais norte-americano, aponta que cada empresa do país deve arcar com cerca de US$ 32 milhões em todo o processo de migração do US Gaap para IFRS, incluindo treinamento e TI.

"Não há uma estimativa brasileira, mas a implementação acaba acumulando iniciativas organizacionais que vão além da adaptação ao IFRS", diz Carlos Gatti, sócio da área de risco e consultoria da KPMG. "Mas os desafios de tecnologia da informação incluem os custos de compliance e a pressão sobre orçamento."

O executivo pondera, entretanto, que aplicar a tecnologia é a parte menos complexa e que as companhias não devem focar soluções intermediárias. "O que é possível comprar, é fácil. Mas o que é preciso criar, que é uma nova cultura corporativa, não é imediato."

A Embraer também não trabalha com um orçamento fechado, mas tem investido nesta fase principalmente em treinamento e capacitação da equipe, com suporte em controladoria. "Já fazíamos acompanhamento comparativo dos demonstrativos BR e US Gaap e o processo de educação compartilhada sobre IFRS tem sido proveitoso porque temos três conselheiros fiscais especializados no tema", diz Luiz Carlos Siqueira, vice-presidente financeiro da companhia.

(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 5)(Maria Luíza Filgueiras)