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Nova alta de alimentos gera preocupação

Após um ano preocupada com o cofrinho, a economia mundial volta sua atenção para a despensa.

Javier Blas, Financial Times, de Londres

Após um ano preocupada com o cofrinho, a economia mundial volta sua atenção para a despensa. Sem alarde, os preços das commodities agrícolas voltaram a subir e já retornaram a níveis observados pela última vez em 2007 e 2008, motivando preocupações sobre uma nova alta nos alimentos.

O aumento nos preços de soja e milho - que já subiram mais de 50% em relação a dezembro passado e atingiram o patamar mais alto em oito a nove meses na semana passada -, e em menor escala do trigo, é respaldado pela forte demanda chinesa e pelo impacto de adversidades climáticas na América do Sul, sobretudo na Argentina.

"Os mercados agrícolas estão bastante nervosos", afirmou Sudakshina Unnikrishnan, analista do Barclays Capital em Londres. "Não estamos no ambiente confortável de excedente de alimentos das décadas de 1980 e 1990".

A cotação internacional do farelo de soja, largamente usado em rações de frangos e suínos, por exemplo, ultrapassou US$ 405 a tonelada, nível só testemunhado por um curto período em 1973 e durante quatro semanas no auge da alta de preços do ano passado. A valorização levou o preço do frango pré-cozido nos EUA ao patamar mais elevado em uma década.

Traders dizem que os fundos de hedge e outros investidores institucionais de grande porte, incluindo fundos soberanos do Oriente Médio, voltaram a despejar recursos no mercado agrícola, ajudando a impulsionar os preços das commodities em meio ao enfraquecimento do dólar americano.

Uma repetição da crise dos alimentos do ano passado, quando preços em forte ascensão desencadearam distúrbios em alguns países, porém, parece improvável. Mesmo depois do salto deste ano, os preços da soja e milho permanecem cerca de 20% abaixo dos picos de meados do ano passado.

O arroz está sendo comercializado a US$ 550 milhões a tonelada, bem abaixo de sua máxima do ano passado, que superou US$ 1 mil. Os preços das carnes bovina e suína e do leite seguem deprimidos, o que ajuda a limitar o potencial de alta nos custos gerais dos alimentos.

A FAO, braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, demonstra relativo otimismo ao afirmar que, "excetuando grandes reveses no cultivo (...), a economia alimentar parece menos vulnerável" a um aumento repentino nos preços. "Apesar de ganhos robustos nos meses recentes, os preços internacionais da maioria das commodities agrícolas estão abaixo dos auges de 2008, em uma indicação de que muitos mercados estão retornando lentamente ao equilíbrio", disse a instituição.

Analistas do setor privado e executivos do setor, porém, estão menos despreocupados. Em um de seus raros comentários públicos, Christopher Mahoney, diretor da Glencore Grain, com sede em Roterdã (Holanda), alertou na semana passada que o abastecimento de algumas commodities agrícolas, como milho e soja, estava "bem apertado". Lewis Hagedorn, analista do JP Morgan em Nova York, avalia que a situação é de ansiedade, mas ainda não de alarme.

"Nos aproximamos de um nível de inquietação em relação a estoques em algumas áreas, apesar de atualmente não estarmos em modo de crise. Não estamos bem preparados, a partir de um ponto de vista do quadro da oferta e da demanda, a absorver nenhuma surpresa relacionada com o clima".

As empresas do setor de alimentos estão adotando medidas de precaução, construindo posições no mercado futuro de commodities para se protegerem contra aumentos de preços adicionais, diz Luke Chandler, diretor de pesquisa de mercados de commodities agrícolas do Rabobank em Londres. "Existe muito mais atenção entre as companhias do setor de alimentos, particularmente depois do sofrimento experimentado na temporada passada", afirma Chandler.

A preocupação imediata é a soja, por seu uso como alimento, mas, sobretudo, por causa das rações animais. O robusto consumo chinês, à medida que a dieta do país passa do consumo de vegetais para a carne, e a quebra da safra na Argentina, o terceiro país maior país exportador do mundo, geraram uma pressão extraordinária sobre o abastecimento dos EUA, remetendo os estoques ao seu mais baixo nível em 40 anos.

Na bolsa de Chicago, os preços da soja superaram US$ 12,45 o bushel na semana passada, recorde em nove meses. Na sexta-feira todas as commodities agrícolas caíram na contramão do dólar, mas o grão segue negociado ao nível de abril de 2008, depois de subir quase 60% ante sua cotação mais baixa de dezembro. Apesar disso, continua abaixo do recorde histórico do ano passado, de US$ 16,50 o bushel.

Olhando para a safra 2009/10 (em fase de plantio no Hemisfério Norte), especialistas temem uma queda na produção de cereais - de milho e, em menor extensão, de trigo - à medida que os agricultores reduzem sua área plantada em resposta aos baixos preços do fim do ano passado, aos custos mais elevados para insumos como fertilizantes e pesticidas e às dificuldades para obter financiamento em alguns países . A produção em países como Ucrânia e Brasil caiu porque os produtores tiveram menos acesso a crédito.

O Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês), uma organização intergovernamental, projetou que o abastecimento global de grãos poderá cair na temporada 2009/10 (que começa "oficialmente" no fim do mês), para 1,721 bilhão de toneladas, queda de 3,4% sobre as 1,782 bilhão de toneladas de 2008/09.

"A produção mundial de grãos deverá ficar abaixo do consumo em 2009/10, corroendo parte dos ganhos obtidos nos estoques após as safras abundantes de 2008", afirma o IGC em seu mais recente relatório mensal. O conselho projeta queda de 328 milhões de toneladas nos estoques, um declínio de 4,3% ante o nível de 2008/09, de 343 milhões de toneladas. Já a demanda global de grãos deverá alcançar 1,736 bilhão de toneladas em 2009/10, um aumento de 0,8% em relação ao ciclo 2008/09.

Considerando que os EUA são o maior país exportador de milho e que o clima úmido vem interrompendo o plantio em regiões do Estado de Illinois, por exemplo Mahoney, da Glencore, diz que "é essencial que tenhamos uma boa temporada de cultivo neste ano".

Mas, enquanto isso não acontece, uma combinação de "aborrecimentos" está impelindo os preços dos cereais. O milho está sendo negociado no patamar de janeiro de 2008, começo da crise dos alimentos - em torno de US$ 4,50 o bushel na bolsa de Chicago -, mas ainda abaixo da cotação recorde de US$ 7,50 o bushel de meados do ano passado. O trigo está sendo negociado no nível de outubro de 2007 (cerca de US$ 6,25 o bushel), mas também muito abaixo do auge de 2008, quando chegou a atingir US$ 13.

Mesmo que a oferta de trigo venha a diminuir neste ano, um enorme volume remanescente da temporada passada limitará qualquer disparada nos preços. "O quadro da oferta e demanda do trigo está consideravelmente menos pressionado", diz Mahoney.

A alta súbita nos preços é um lembrete de como a segurança alimentar do mundo se deteriorou, após anos de excedentes confortáveis, dizem analistas e executivos.

Mike Mack, executivo-chefe da Syngenta, uma das maiores produtoras de defensivos e sementes para a agricultura, ecoa uma opinião generalizada quando diz que, apesar de as "manchetes do ano passado sobre a crise alimentar terem sido substituídas pelas manchetes da crise econômica", o "desafio de longo prazo de produzir alimentos em volume suficiente" não desapareceu. (Tradução de Robert Bánvölgyi)