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Demissões devem chegar ao Brasil, apontam especialistas

Fonte: Invertia

Marina Mello Peter FussyDepois de afetar o mercado financeiro e os balanços da empresas, agora é a vez dos trabalhadores sentirem os reflexos da crise global de crédito. Multinacionais com operações no Brasil anunciaram corte de postos e algumas unidades brasileiras já colocaram em prática as diretivas da matriz, enquanto outras não descartam a redução de efetivo. Segundo especialistas, os efeitos da redução de custos no exterior são inevitáveis, e o Brasil deve, no mínimo, ter uma redução no saldo positivo entre vagas criadas e fechadas.Entre as multinacionais que já informaram a demissão de funcionários, a Xerox foi uma das primeiras a aplicar a reestruturação nas atividades no Brasil. Dentro de um plano de contenção de despesas da ordem de US$ 400 milhões, a empresa encerrará até o final do ano as atividades de uma planta em Manaus, que emprega 86 pessoas na fabricação de toners pretos.Segundo o gerente de relações públicas da Xerox no Brasil, Rafael Vargas, o fechamento da fábrica se deu por causa da baixa demanda do produto específico. "A empresa agora fornece mais tecnologia colorida e houve uma recomendação que se acelerasse o encerramento das atividades. A empresa já fez o anúncio no local e outra unidade vai absorver a manufatura", explicou. A Xerox planeja reduzir seu efetivo em 3 mil funcionários no mundo inteiro.Em busca de uma economia global de US$ 800 milhões por ano, a Motorola ainda não descartou possíveis demissões no Brasil. Conforme informou a assessoria da empresa, a expectativa é de que aproximadamente 3 mil funcionários, de todos os negócios e funções, sejam afetados globalmente. "Foi extremamente difícil tomar estas decisões, mas as ações são imprescindíveis", afirmou a empresa, em comunicado.Por outro lado, outras multinacionais alegam que as operações brasileiras não devem acompanhar a redução de efetivo, a ser realizada principalmente na América do Norte e Europa. O Citigroup, que acabará com cerca de 50 mil postos de trabalho, garantiu que o Brasil não será afetado.Detentora das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid no Brasil, a Whirpool afirmou que a América Latina escapará ilesa do corte de 5 mil trabalhadores, anunciado no último dia 28. Além disso, a empresa também relatou que os investimentos previstos para o quarto trimestre de 2008 e para 2009 estão mantidos.No entanto, o professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Flávio Fligenspan alerta para dois canais de repercussão, que podem afetar as companhias no futuro. "O mundo inteiro está ligado, tanto do ponto de vista financeiro, como da produção. Essas demissões são causadas por diminuição das vendas. Muitas vezes produzimos matérias-primas que eles vão usar lá e, se eles vendem menos, nós também vamos fabricar menos e reduzir os empregos", explicou."Outro canal é a questão da renda. Se eles vão desempregar lá, a capacidade de consumo é reduzida e aí não é questão de integração da produção. Os consumidores vão ter menos renda e vão comprar menos bens de consumo de nós, por isso vamos produzir menos, vender menos e desempregar aqui", completou Fligenspan, que citou o setor de calçados nacionais como um dos que serão mais atingidos, já que tem a produção voltada para os Estados unidos.Atualmente, a grande preocupação do governo americano são as montadoras de automóveis - GM, Ford e Chrysler enfrentam sérios problemas e pedem ajuda. Para o professor de finanças públicas da Universidade de Brasília José Matias Pereira, as operações nacionais destas empresas dificilmente conseguirão se manter "desvinculadas" das matrizes."Países como o Brasil dão suporte para grandes empresas em países de economia central, mas se o governo americano não conseguir dar aporte para estas empresas, certamente os funcionários desta mesma empresa acabarão perdendo o emprego por aqui. A falência de grandes empresas significa demissões no mundo inteiro", ressaltou.A Peugeot Citröen, que anunciou plano de demissões voluntárias para reduzir cerca de 2,7 mil postos principalmente na França, afirmou que a medida não irá se refletir aqui. No entanto, a montadora antecipou as férias coletivas de dezembro em sete dias, mantendo o retorno às atividades em 5 de janeiro.Desaceleração Se por um lado as demissões começam a acontecer lentamente, por outro a última pesquisa do ministério do Trabalho já registrou queda drástica no número de vagas geradas em outubro com relação a setembro - de 282.841 para 61.401 postos. Para o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, a expectativa para os próximos meses é de redução no nível das contratações."Pode ocorrer resultado geral de líquido positivo, mas associado com demissões em algum setor. No médio prazo, a depender do tamanho do impacto da crise no País, poderemos ter uma situação mais grave: um aumento do desemprego. Isto ainda é difícil de prever, mas com certeza terá impacto", avaliou.De acordo com Ganz Lucio, empresas já optam por adiar projetos de investimento. "São contratações que não vão se realizar. Havia planos para construção de 140 a 150 novas usinas para destilação de cana-de-açúcar e este número foi reduzido para cerca de 100. Se o ritmo diminuir, mas continuar positivo, se for esse o reflexo, estaremos salvos. O problema é se começar a desativar usinas", explicou.Para Matias Pereira, a postura do governo brasileiro ainda é otimista e muito focada no aspecto político, quando em situações de risco. Como até o ano passado a economia brasileira ia muito bem, o governo parece não querer encarar o fato de que isso acabou."O governo não entende que os parâmetros de que vai tudo bem com a economia não existem mais, tudo isso virou fumaça diante da crise. O governo precisa pensar mais nos riscos que estão vindo aí do que na perspectiva de uma definição política em 2010. As variáveis que têm que ser priorizadas agora são as sócio-econômicas e não as sócio-políticas", analisou.

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