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Gestão: O poder de influenciar a decisão

Ele se preocupa com as demonstrações financeiras, mas também precisa saber de que forma se analisam essas demonstrações.

Lara Ely

Ele se preocupa com as demonstrações financeiras, mas também precisa saber de que forma se analisam essas demonstrações. Essa é uma das características do contador que assume uma postura gerencial na empresa. Mais do que elaborar balanços e reunir dados, esse profissional sabe que é preciso analisar essas demonstrações e saber repercuti-las.

Para os bancos, as análises de balanços são feitas com vistas a informar a capacidade de pagamento que uma empresa tem. Já para o governo, o enfoque vira-se para a capacidade de pagar impostos. No caso da própria empresa, a análise ajuda na definição de posições, para que a companhia não vá à falência e que procure tomar rumos lucrativos e sustentáveis.

Segundo o contador e professor universitário Edson Pamplona, do Instituto de Engenharia de Produção e Gestão da Unifei, em Itajubá, Minas Gerais, cada segmento interessado vai avaliar os dados de sua forma, o que justifica a necessidade de gerar informações ainda mais completas. Para ele, embora alguns contadores ainda ocupem-se prioritariamente da elaboração de demonstrações financeiras, o caráter gerencial está crescendo e atingindo uma posição de maior destaque na categoria. "Isso fica claro porque o modelo de demonstrações mudou. Além do tipo de informações, a classificação das contas é feita para efeito de gerenciamento", afirma.

Algumas situações-chave denotam a necessidade desse tipo de serviço. É o caso de empresas que, ao analisar os seus clientes, avaliam se terão condições de pagar ou fornecer os produtos conforme a demanda. A avaliação por meio de indicadores de liquidez, por exemplo, permitem saber se os fornecedores são perenes e evitar problemas na produção. "Para isso, são feitas avaliações constantes de clientes e fornecedores", diz Pamplona.

Entre os principais instrumentos utilizados da contabilidade gerencial, estão indicadores de análise de demonstrações financeiras, resultados de custos, cálculo do custo dos produtos vendidos, definição do mix de produção da empresa, através do cálculo da margem de produção, cálculo do custo das atividades e gestão das atividades da empresa para controle.

E para quem pretende evoluir do antigo papel de guarda-livros para um líder dentro da empresa, o caminho é a qualificação. Conforme o professor, antes de dar os primeiros passos na função gerencial, o profissional contábil deve se aprofundar no estudo de técnicas e análise para dominar a terminologia. Após essa etapa, emitir avaliações, fazer sugestões e ser pró-ativo é um caminho natural.

A importância para as micro e pequenas empresas

O papel das micro e pequenas empresas e a sua importância para a economia nacional são inquestionáveis. Estatísticas revelam que existe um alto índice de fechamentos dessas empresas por motivos como a falta de planejamento e controle. E em busca deste diferencial competitivo é crescente o número de empresas que vêm investindo em meios que ofereçam informações estratégicas a fim de possibilitar aos administradores tomadas de decisões mais seguras e de forma pró-ativa.

A contabilidade gerencial é um processo que visa a identificar, mensurar, suportar e analisar informações sobre situações econômicas das empresas, com o objetivo de prover seus diversos usuários de informações sobre o patrimônio das organizações, auxiliando no processo de gestão da empresa.

Para o vice-presidente do CRC-RS Paulo Schnorr, a tomada de decisão dos administradores tem que passar pela avaliação de um profissional de contabilidade. "Ele é quem vai apontar os riscos e possibilidades de contrair dívidas, contratar profissionais, fazer transações, enfim, ser economicamente viável." Ele salienta que, caso o contador não seja ouvido em questões tributárias, por exemplo, boas oportunidades podem ser desperdiçadas, e decisões erradas podem levar o negócio à extinção.

Um exemplo que Schnorr cita é que a contratação de funcionários sob forma de autônomo, com menos custos previdenciários, pode gerar demandas trabalhistas no futuro, o que irá atrapalhar tanto a imagem quanto as finanças da empresa. Outra função do contador no gerenciamento empresarial é mostrar a realidade para os empreendedores e fazê-los pensar de modo mais crítico sobre ideias inovadoras.

O contador alerta ainda que pesquisar sobre a idoneidade de fornecedores e parceiros é uma função do contador. "Se ele oferece um preço menor do que o da concorrência, mas está em situação irregular com o Fisco, lucro pode se reverter em prejuízo", afirma.

Instrumentos e desafios de gestão

Os balancetes periódicos são as principais ferramentas para o contador permitir o acompanhamento das finanças empresariais. Eles costumam ser mensais, mas nada impede que sejam quinzenais ou diários. "O balancete é o norte para o empresário acompanhar o tarifaço e fazer projeções com base nos números em relação à própria empresa", diz o vice-presidente do CRC-RS Paulo Schnorr. Outras ferramentas importantes são os dados contábeis, softwares, verificação do fluxo de caixa, indenização de clientes, cumprimentos de metas, aferição direta e indireta, contabilidade de custos.

Em relação à postura que o contador deve ter para encarar esse novo papel - de formador de opinião -, Schnorr ressalta que é preciso ser pró-ativo. "O fazer contábil burocrático acabou. Quem não acompanhar a tecnologia vai ficar para trás", afirma. Os desafios que permanecem, nesse sentido, são relacionados à verticalização do conhecimento. Já não basta ser um generalista. Quanto mais conhecimento específico e maior a gama de informações, maior será a adaptabilidade às mudanças e o embasamento para a tomada de decisão.

A quantidade de novas legislações é um ponto crítico, sob o aspecto de dominar todas as novas informações. Com a internacionalização das normas de contabilidade, há a tendência da compilação de leis, para padronizar as mesmas. No entanto, faltam profissionais preparados para aplicá-las. Conforme o contador, os IFRS estabelecem e pregam a prevalência da essência sobre a forma, deixando que as demonstrações deixem de ser apenas de caráter formal, fiscal, tributário, e sejam capazes de dizer o que esta acontecendo na empresa. "Essa revolução precisa ser instalada no nosso conhecimento. Teremos que reaprender as técnicas, sob pena de ficarmos defasados em relação ao resto do mundo", conclui.

Perfil contábil é debatido em Ijuí

No próximo dia 26, durante palestra que fará no IX Seminário da Associação dos Contabilistas Públicos Municipais do Estado do Rio Grande do Sul (Acopergs) e V Simpósio de Contabilidade do Mercosul, em Ijuí, o auditor da Cage José Silvio Born falará sobre os desafios da contabilidade gerencial no setor público. Na oportunidade, ela fará uma diferenciação do foco da contabilidade no setor privado e no setor público. "Na área privada, o foco é o resultado econômico e o equilíbrio financeiro, enquanto na pública o objetivo é a execução orçamentária e o atendimento das necessidades da população", defende, acrescentando que as visões distintas pautam o encaminhamento das decisões em ambos os setores.

Outra diferença a ser observada por ele é o tamanho das estruturas, ou seja, na iniciativa privada se encontram de pequenas empresas a grandes indústrias, com diferentes necessidades de informação gerencial, enquanto na área pública as instituições variam de pequenos municípios à União, ou seja, demandas diferentes de informação gerencial.

Born explica que, tanto nas áreas societária e pública, as instituições apresentam requisitos para construir informações gerenciais. Entre eles estão: a disponibilidade, a acessibilidade, a formatabilidade, a fidedignidade, o alcance, a atualização e a comparabilidade.

Entre as ferramentas para a contabilidade gerencial que serão apresentadas pelo contador está o sistema de administração de materiais, um instrumento de informação gerencial onde se faz o registro de toda a entrada e saída de novos materiais, alocando o custo disso por setor (centro de custo). "Quando estiver totalmente implantando esse sistema, teremos pelo menos 18 mil centros de custos no Estado", informa.

Complexidade das exigências é desafio no setor público

Base de dados de fácil acesso, com disponibilidade em tempo integral, de formato acessível, com informações precisas e com grande alcance. Além disso, os dados devem ser atualizados e ter parâmetros de comparação. Esses são alguns dos requisitos para fornecer uma boa base de informações na área pública, o que é um dos pilares do gerenciamento contábil.

Para o contador José Silvio Born, o gestor que produz a informação gerencial precisa atender a requisitos mínimos para ter total segurança na decisão que vai gerar. "Na área pública, as decisões precisam ser tomadas diante de informações certificadas", afirma, explicando que o desafio é oferecer confiança para que o gestor possa ter a tranquilidade de optar pela escolha certa. Auditor da Cage - a maior base de informação contábil do Estado - Born disse que, apesar de todo o esforço e trabalho, os dados que a entidade fornece ainda são insuficientes para a administração. "Vivemos em uma crescente demanda por novos dados", diz.

Quanto à divulgação dos dados contábeis, a Cage atua em dois níveis de divulgação. Trabalha em bancos de dados para produzir informação para a administração e para produzir informação para dar transparência a toda a sociedade. Nesse sentido, Born entende que a essência da informação gerencial é mais próxima do confidencial do que da transparência. "Ela é voltada para dentro e não para fora da empresa", explica.