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voltarCarreira linear perde força e aprendizado ganha valor
Transformação das competências, avanço tecnológico e novos modelos de trabalho aumentam o peso da aprendizagem contínua, da adaptabilidade e do repertório profissional
Construir uma carreira dentro da mesma empresa, acumular tempo de experiência em uma única área e avançar por uma sequência previsível de promoções já não são os únicos sinais de sucesso profissional.
As mudanças tecnológicas, a criação de novas funções e a reorganização dos modelos de negócio estão fazendo com que empresas olhem para outros indicadores. Capacidade de aprender, adaptação a diferentes contextos, visão sistêmica e aplicação prática de novos conhecimentos passam a ganhar espaço na avaliação de talentos.
Isso não significa que a carreira linear tenha desaparecido ou que a permanência em uma organização tenha perdido valor. O que mudou foi a ideia de que existe apenas um caminho legítimo para crescer profissionalmente.
Para Mariana Mantovani, executiva, consultora e palestrante, o mercado passou a observar menos a estabilidade isolada e mais a evolução demonstrada ao longo da trajetória.
“O ativo mais valioso de um profissional já não é o tempo de permanência em uma função. É sua capacidade de aprender, desaprender e reaprender”, afirma.
Quase 40% das competências devem mudar
O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das competências utilizadas pelos trabalhadores serão transformadas ou poderão se tornar obsoletas até 2030.
O relatório, elaborado a partir da visão de mais de mil empregadores, também projeta a criação de 170 milhões de postos de trabalho e o deslocamento de outros 92 milhões, com saldo positivo de 78 milhões de oportunidades.
Essas mudanças devem ser impulsionadas por fatores como inteligência artificial, automação, transição ambiental, alterações demográficas, pressões econômicas e tensões geopolíticas.
O cenário aumenta a pressão sobre empresas e profissionais. Para as organizações, o desafio será encontrar e desenvolver pessoas preparadas para funções que ainda estão sendo redesenhadas. Para os trabalhadores, depender apenas do conhecimento adquirido no início da carreira pode comprometer a empregabilidade.
Aprender em movimento não é acumular certificados
A capacidade de aprender continuamente, também conhecida como learning agility, envolve curiosidade, abertura para receber feedback, disposição para experimentar e habilidade para aplicar conhecimentos em situações novas.
Essa competência não deve ser confundida com o acúmulo de cursos ou certificados. O aprendizado ganha valor quando ajuda o profissional a resolver problemas, tomar decisões, melhorar entregas ou atuar em novos contextos.
O Workplace Learning Report 2025, do LinkedIn, mostra que combinar aprendizagem com desenvolvimento de carreira, mobilidade interna, mentoria e formação de lideranças ajuda as empresas a acelerar a circulação das competências consideradas críticas.
A possibilidade de avançar profissionalmente também aparece como uma das principais motivações para o aprendizado. O dado indica que capacitação e perspectiva de carreira precisam caminhar juntas.
Carreira não linear não significa falta de direção
Mudar de setor, assumir uma função diferente, realizar uma transição ou participar de projetos fora da área original pode ampliar o repertório profissional. Essas experiências permitem conhecer novos problemas, formas de trabalho e modelos de negócio.
Isso não significa que trocar de emprego frequentemente seja, por si só, uma vantagem. Uma trajetória com muitas mudanças também pode ser repetitiva ou superficial.
Da mesma forma, permanecer por muitos anos em uma empresa não representa necessariamente estagnação. O profissional pode assumir novas responsabilidades, mudar de área, participar de projetos estratégicos e desenvolver diferentes competências sem deixar a organização.
O ponto central está na evolução. Mais do que contar quantos anos uma pessoa permaneceu em cada cargo, empresas precisam compreender quais desafios ela enfrentou, que resultados entregou e o que aprendeu durante o percurso.
Profissional em formato de T ganha espaço
Outro perfil associado a esse novo cenário é o chamado profissional T-shaped, ou profissional em formato de T.
A linha vertical representa a profundidade técnica em uma área. A linha horizontal corresponde à capacidade de compreender outras disciplinas, dialogar com diferentes equipes e conectar o próprio trabalho aos objetivos do negócio.
Na prática, o profissional mantém uma especialidade, mas não permanece restrito a ela. Um especialista em Recursos Humanos, por exemplo, pode aprofundar seus conhecimentos em gestão de pessoas e, ao mesmo tempo, compreender dados, finanças, tecnologia, experiência do colaborador e estratégia.
Essa combinação favorece a atuação em equipes multidisciplinares e amplia a capacidade de resolver problemas que não pertencem exclusivamente a uma área.
A especialização, portanto, não perdeu importância. O que ganhou valor foi a combinação entre profundidade técnica e visão sistêmica.
Formação profissional não termina no diploma
A graduação e outras formações acadêmicas continuam relevantes, mas já não sustentam sozinhas uma carreira de décadas. Ferramentas, processos e conhecimentos utilizados em diferentes profissões mudam rapidamente.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico relaciona o desenvolvimento de competências a ganhos de produtividade, inovação e capacidade de resposta às transformações tecnológicas.
O aprendizado também deixou de ocorrer apenas em treinamentos formais. Projetos, mentorias, feedbacks, mudanças de função, interações com outras áreas e experiências práticas fazem parte do desenvolvimento profissional.
Essa mudança exige protagonismo dos trabalhadores, mas também cria responsabilidades para as empresas. Cobrar adaptação constante sem oferecer tempo, recursos e oportunidades de aplicação pode transformar o discurso sobre aprendizagem contínua em mais uma fonte de pressão.
Processos seletivos precisam rever critérios
A transformação das carreiras também desafia o recrutamento. Processos seletivos ainda costumam valorizar currículos lineares, cargos anteriores idênticos à vaga e permanência prolongada nas empresas.
Essa lógica pode eliminar profissionais com experiências transferíveis, passagens por diferentes setores ou trajetórias marcadas por mudanças de direção.
Filtros automáticos tornam o problema ainda mais evidente. Quando os critérios são excessivamente rígidos, candidatos com repertório diversificado podem ser descartados antes de qualquer avaliação humana.
Para o RH, o desafio é avançar para uma análise baseada em competências. Isso envolve observar resultados anteriores, capacidade de aprendizagem, conhecimentos aplicáveis e coerência entre as escolhas profissionais.
Também exige ampliar a mobilidade interna. Movimentos laterais, participação em projetos, mentorias e experiências temporárias em outras áreas podem permitir que os profissionais aprendam sem precisar deixar a empresa.
Trajetória passa a valer mais que cronologia
O currículo mais valorizado não será necessariamente o mais linear, nem aquele com o maior número de mudanças. A tendência é que ganhem importância as trajetórias capazes de demonstrar evolução, consistência e aplicação de aprendizados.
Experiências em diferentes contextos podem ampliar a capacidade de conectar ideias e tomar decisões. A profundidade técnica continuará necessária, mas deverá conviver com curiosidade, adaptabilidade e visão de negócio.
“Em um mundo onde a única constante é a mudança, o diferencial competitivo deixou de ser aquilo que você já sabe e passou a ser a velocidade com que você consegue aprender o que ainda não sabe”, conclui Mariana.