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NR-1 leva saúde mental à rotina das empresas
Com novas exigências sobre riscos psicossociais, organizações começam a sair do diagnóstico obrigatório para criar ações permanentes de prevenção, escuta e bem-estar
A saúde mental no ambiente de trabalho deixou de ser uma pauta restrita ao RH e passou a ocupar um lugar estratégico na gestão das empresas brasileiras. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais, organizações de diferentes setores começam a rever processos, ouvir equipes e transformar a obrigação legal em ações concretas de prevenção e cuidado.
Mais do que cumprir uma exigência normativa, o desafio agora é criar ambientes de trabalho capazes de reduzir fatores de risco, fortalecer relações e incorporar a saúde emocional à rotina organizacional. A mudança coloca empresas e lideranças diante de uma nova responsabilidade: entender como clima, comunicação, carga de trabalho, relações interpessoais e organização das atividades impactam diretamente o bem-estar dos colaboradores.
Na prática, algumas companhias já vinham se preparando antes mesmo da entrada em vigor das novas exigências. É o caso da Mami&Co, indústria brasileira especializada em produtos para a primeira infância. Em 2025, a empresa iniciou um calendário contínuo de desenvolvimento das equipes, com treinamentos sobre comunicação, acolhimento, ergonomia, segurança do trabalho, boas práticas operacionais, primeiros socorros e prevenção de riscos.
Com a atualização da NR-1, a companhia ampliou esse trabalho. Mais de 60% dos 119 colaboradores participaram de um diagnóstico psicossocial conduzido por uma psicóloga. O objetivo foi compreender fatores relacionados ao clima organizacional, à rotina de trabalho e à percepção das equipes sobre o ambiente interno.
O levantamento servirá de base para um plano de ação que começa a ser implementado em julho, com iniciativas voltadas à saúde mental e ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
“Quando começamos a olhar para a NR-1, percebemos que muitas práticas já existiam dentro da empresa, mas estavam espalhadas. O nosso desafio foi organizar essas iniciativas, ouvir as equipes e entender quais ações realmente faziam sentido para a nossa realidade”, afirma Carol Zein, sócia-fundadora da Mami&Co.
De obrigação legal a estratégia de cuidado
A discussão ganha relevância em um cenário de avanço dos afastamentos por questões emocionais. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais em 2024, o maior número da série histórica.
O dado reforça uma mudança importante no papel das empresas. Se antes a saúde mental era tratada muitas vezes como uma ação pontual, vinculada a campanhas específicas, agora ela passa a exigir gestão contínua, indicadores, escuta ativa e planos de prevenção.
Para especialistas em gestão de pessoas, a implementação da NR-1 pode representar uma oportunidade para revisar culturas internas e criar mecanismos mais consistentes de acompanhamento. O diagnóstico dos riscos psicossociais é apenas o primeiro passo. O impacto real acontece quando os dados levantados deixam de ficar restritos a relatórios e passam a orientar decisões, treinamentos e mudanças no cotidiano do trabalho.
Na Mami&Co, a estratégia parte justamente dessa lógica. A empresa pretende manter uma agenda permanente de iniciativas, incluindo ciclos de palestras sobre saúde mental, atividades relacionadas ao bem-estar, ações de ergonomia e uma programação especial durante o “Mês da Saúde”, previsto para setembro.
“A saúde mental precisa deixar de ser vista como uma ação pontual. Ela precisa estar presente na rotina, na forma como as pessoas se comunicam, trabalham e se relacionam dentro da empresa”, completa Carol.
O novo papel das lideranças
A entrada dos riscos psicossociais no gerenciamento ocupacional também amplia a responsabilidade das lideranças. Gestores passam a ter papel decisivo na identificação de sinais de sobrecarga, conflitos, isolamento, queda de desempenho e dificuldades emocionais.
Isso não significa transformar líderes em terapeutas, mas prepará-los para construir relações de trabalho mais saudáveis, orientar equipes, acolher demandas e encaminhar situações que exigem apoio especializado. Nesse contexto, comunicação, empatia, organização da rotina e clareza sobre expectativas tornam-se elementos fundamentais da prevenção.
Para o RH, o desafio é conectar a nova exigência regulatória à realidade da empresa. Cada organização terá riscos e necessidades diferentes. Uma indústria, uma empresa de tecnologia, uma operação logística ou um escritório administrativo enfrentam pressões específicas. Por isso, o plano de ação precisa considerar cultura, perfil das equipes, processos internos e maturidade das lideranças.
Cinco caminhos para transformar diagnóstico em ação
1. O diagnóstico precisa gerar conversa, não apenas relatório
O levantamento dos riscos psicossociais deve ser usado como instrumento de escuta. Mais do que identificar problemas, ele permite compreender como os colaboradores percebem o ambiente de trabalho, suas relações e suas principais fontes de pressão.
2. Saúde mental precisa fazer parte da rotina
Ações isoladas tendem a ter pouco efeito quando não estão conectadas à cultura da empresa. Treinamentos, comunicação interna, espaços de diálogo e práticas de prevenção precisam acontecer de forma contínua.
3. Lideranças precisam ser preparadas
Gestores têm papel essencial na construção de ambientes mais saudáveis. Preparar lideranças para ouvir, orientar e identificar sinais de dificuldade ajuda a criar relações mais equilibradas e reduzir riscos.
4. Cada empresa deve olhar para sua própria realidade
Não existe fórmula única. O plano de ação precisa considerar o perfil dos colaboradores, a natureza do trabalho, os processos internos e os desafios específicos de cada negócio.
5. Pequenas iniciativas também geram mudança
Nem sempre é necessário criar grandes programas. Organizar ações já existentes, melhorar a comunicação, criar espaços de participação e fortalecer práticas de acolhimento já podem representar avanços importantes.
“Quando começamos a olhar para a NR-1, entendemos que o mais importante não era apenas cumprir uma exigência, mas ouvir as pessoas e transformar essas informações em melhorias reais para o dia a dia”, finaliza Carol Zein.
A nova NR-1 coloca as empresas diante de uma agenda que vai além da conformidade. Ao exigir atenção aos riscos psicossociais, a norma reforça que produtividade, segurança e saúde mental precisam caminhar juntas. Para o RH, a oportunidade está em transformar uma obrigação regulatória em uma estratégia permanente de cuidado, prevenção e sustentabilidade nas relações de trabalho.
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