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Do caixa à estratégia: reforma tributária pressiona fluxo de caixa e exige revisão imediata de preços
Com novo modelo de cobrança e crédito, empresas terão de recalibrar margens, contratos e cadeia de fornecedores para manter competitividade
A segunda live da série Reforma Tributária na Prática, promovida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aprofundou os impactos diretos do novo sistema no dia a dia das empresas, com foco especial no varejo. Dessa vez, o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, trouxe uma leitura prática sobre como a mudança na lógica de tributação afeta o caixa, a formação de preços e as estratégias empresariais.
Dando continuação à proposta da série — aproximar o conteúdo técnico da realidade dos negócios —, o encontro destacou que, mais do que mudança tributária, a reforma impõe uma transformação na gestão financeira e operacional das empresas.
Pressão imediata no caixa exige adaptação rápida
Entre os efeitos mais imediatos da reforma, está a mudança no fluxo de caixa das empresas. Com a implementação do chamado split payment (pagamento dividido), o imposto passará a ser recolhido no momento da transação, sendo automaticamente direcionado ao Fisco.
Na prática, isso elimina o uso do valor do tributo como capital de giro — uma prática comum no modelo atual. “As empresas vão enfrentar uma pressão de curto prazo no caixa, o que pode impactar diretamente as margens, especialmente se houver necessidade de recorrer a crédito”, explicou Bentes.
Esse novo cenário torna urgente a preparação financeira das empresas, seja por meio da formação de reservas, seja pela reestruturação de linhas de financiamento.
Preços e margens entram em fase de recalibração
A reforma também altera profundamente a formação de preços. Com a adoção do IVA Dual (CBS e IBS), os tributos deixam de ser calculados “por dentro” e passam a incidir de forma transparente, “por fora”, sobre o valor do produto ou serviço.
Isso exige uma revisão completa das estratégias de precificação. “Os preços atuais podem não sustentar as mesmas margens no novo sistema. Será necessário recalcular custos, avaliar alíquotas e redefinir o preço final”, afirmou o economista.
Não há, no entanto, uma tendência uniforme de alta ou queda de preços. O impacto varia conforme o setor. Enquanto a indústria pode se beneficiar do fim da cumulatividade e da ampliação de créditos, o setor de serviços tende a enfrentar aumento da carga tributária efetiva, com pressão adicional sobre preços e margens.
Novo sistema de créditos amplia eficiência — mas exige controle rigoroso
Um dos pilares da reforma é a não cumulatividade plena, que permite o aproveitamento de créditos tributários ao longo de toda a cadeia produtiva. Diferentemente do modelo atual, praticamente todas as aquisições relacionadas à atividade empresarial passam a gerar crédito.
Apesar do ganho potencial de eficiência, o novo sistema exige maior controle. O aproveitamento dos créditos estará condicionado ao efetivo recolhimento do imposto pelo fornecedor, o que aumenta a importância de uma gestão criteriosa da cadeia de suprimentos.
“Não basta buscar o menor preço. Será fundamental avaliar a regularidade fiscal do fornecedor e sua capacidade de gerar créditos válidos”, alertou Bentes.
Além disso, há risco de acúmulo de créditos em alguns casos — como empresas exportadoras ou com alto nível de investimento —, o que dependerá da eficiência dos mecanismos de devolução previstos no novo modelo.
Serviços sob pressão e risco de perda de competitividade
A live também ressaltou um dos principais pontos de atenção da reforma: o impacto em setores intensivos em mão de obra. Como a folha de pagamento não gera créditos tributários, empresas de serviços podem enfrentar maior carga efetiva no novo sistema.
Esse cenário pode comprometer a competitividade de segmentos importantes da economia, especialmente se a alíquota padrão do IVA se mantiver em patamares elevados. Por isso, a CNC tem atuado na defesa de regimes diferenciados e redutores de alíquota para mitigar esses efeitos.
Transição exige revisão estrutural dos negócios
Mais do que ajustes pontuais, a reforma impõe uma revisão ampla da operação das empresas. Contratos de longo prazo, estrutura de custos, cadeia de fornecedores e até modelos de negócio precisarão ser reavaliados.
Modelos criados exclusivamente para aproveitar benefícios fiscais — como a localização estratégica em municípios com menor carga tributária — tendem a perder relevância com a tributação no destino.
“O momento de transição é ideal para reorganizar a empresa com base na eficiência real, e não em distorções tributárias”, afirmou Bentes.
Antecipação será diferencial competitivo
A principal mensagem da live foi clara: quem se antecipar sairá na frente. Empresas que investirem desde já em diagnóstico de impacto, adaptação de sistemas e capacitação de equipes terão mais condições de preservar margens e manter competitividade.
Por outro lado, adiar decisões pode gerar custos elevados e perda de espaço no mercado. “O erro mais perigoso é achar que ainda há muito tempo. A transição já começou e exige ação imediata”, alertou.
Série segue aprofundando impactos da reforma
A série Reforma Tributária na Prática continua nas próximas semanas, explorando diferentes recortes do novo sistema e seus efeitos sobre setores específicos da economia.
Os próximos encontros apresentarão temas como regimes diferenciados, Simples Nacional e impactos no mercado imobiliário, ampliando o suporte técnico ao setor produtivo em um dos momentos mais relevantes de transformação do ambiente de negócios no País.
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