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Reforma tributária e o setor de serviços: 3 pontos críticos
A regulamentação do IBS/CBS revela um desafio estrutural para os serviços: A não cumulatividade "parcial". Analisamos este e outros 2 pontos críticos que exigem atenção estratégica das empresas
A promulgação da EC 132/23, que instituiu a tão aguardada reforma tributária, foi celebrada como o início de uma nova era para o sistema fiscal brasileiro. A promessa de simplificação, transparência e o fim da caótica cumulatividade animou o ambiente de negócios. Contudo, passados os aplausos iniciais, adentramos agora, em meados de 2025, na fase mais crucial e delicada do processo: a regulamentação do IBS - Imposto sobre Bens e Serviços e da CBS - Contribuição sobre Bens e Serviços por meio de leis complementares.
É aqui que o famoso ditado "o diabo mora nos detalhes" se mostra mais verdadeiro do que nunca. Para o setor de serviços, que responde por cerca de 70% do PIB nacional, a atenção aos debates no Congresso Nacional não é apenas recomendável, é uma questão de sobrevivência. A forma como os conceitos da reforma serão traduzidos em regras práticas definirá se o setor colherá os frutos da simplificação ou se amargará um sensível aumento da carga tributária.
Neste artigo, analisamos três pontos críticos da regulamentação em curso que merecem a vigilância constante de advogados, contadores e empresários do setor de serviços.
1. O "Pecado Original": A questão dos créditos e a intensa mão de obra
O pilar central da reforma é o princípio da não cumulatividade plena, que permite ao contribuinte tomar crédito sobre todas as aquisições de bens e serviços de etapas anteriores da cadeia produtiva. Em teoria, a ideia é impecável. Na prática, ela ignora a principal matéria-prima do setor de serviços: o capital humano.
Diferentemente da indústria, cujo custo é fortemente atrelado a insumos, máquinas e matéria-prima geradores de crédito, o maior custo das empresas de serviços reside na folha de pagamento. E, como se sabe, despesas com salários e encargos trabalhistas não geram créditos de IBS/CBS.
O resultado é um desequilíbrio estrutural. Enquanto uma indústria poderá abater grande parte do imposto devido, uma empresa de consultoria, uma agência de publicidade, uma escola ou um hospital terão uma base de creditamento muito restrita. A aplicação de uma alíquota padrão estimada entre 25% e 28% sobre a receita bruta, com poucas possibilidades de abatimento, representa um aumento de carga tributária direto e expressivo em comparação com o antigo regime do ISS, cujas alíquotas variavam entre 2% e 5%.
A regulamentação precisa endereçar esse "pecado original". Soluções como a criação de um sistema de creditamento presumido ou a desoneração parcial da folha de pagamento são essenciais para evitar que a reforma, concebida para trazer eficiência, acabe por punir o setor que mais emprega no país.
2. O labirinto das alíquotas: A proliferação de regimes específicos e a ameaça à neutralidade
A grande promessa do IBS/CBS era a simplicidade de uma alíquota única ou, no máximo, duas. No entanto, o que se observa nos projetos de lei complementar é a construção de um verdadeiro labirinto de regimes favorecidos e alíquotas diferenciadas.
Setores como saúde, educação, transporte público e serviços de profissão intelectual regulamentada (como advocacia e contabilidade) pleiteiam - e em muitos casos estão conseguindo - reduções de alíquota que variam de 30% a 60% da padrão. Se, por um lado, essas exceções buscam corrigir distorções, por outro, elas recriam a complexidade que a reforma pretendia extinguir.
Para o setor de serviços, isso gera dois problemas imediatos. O primeiro é a incerteza: qual será o enquadramento exato da minha atividade? Uma empresa de software educacional será tratada como serviço de educação (com alíquota reduzida) ou de tecnologia (com alíquota cheia)? Essa "guerra de narrativas" no Congresso gera insegurança jurídica.
O segundo problema é a quebra do princípio da neutralidade. A concessão de benefícios a alguns segmentos significa que outros terão de arcar com uma alíquota padrão mais elevada para compensar a arrecadação. A regulamentação está se transformando em um campo de batalha setorial, onde quem tem mais poder de lobby garante um tratamento fiscal mais brando, deixando a conta para os demais.
3. O desafio da transição: A gestão do legado do ISS e a complexidade operacional
O período de transição desenhado pela EC é, na verdade, um cronograma multifásico e um dos maiores desafios de conformidade fiscal da história recente do país. A complexidade não reside em um único prazo, mas na sobreposição de diferentes regras e alíquotas até a consolidação final do sistema em 2033.
Para o setor de serviços, o cronograma operacional é o seguinte:
2026: O ano do teste. Inicia-se a cobrança do IBS e da CBS com alíquotas de teste (0,1% e 0,9%, respectivamente), que poderão ser compensadas com o PIS/Cofins. Na prática, as empresas já precisarão ter sistemas capazes de apurar os novos tributos, mesmo que de forma experimental.
2027: A virada da CBS. O PIS e a Cofins são extintos e a CBS entra em vigor com sua alíquota cheia. Contudo, o ISS permanece em vigor. As empresas de serviços passarão a apurar a nova CBS e o "velho" ISS simultaneamente.
2029 a 2032: O caos organizado. Este será o período mais crítico. As alíquotas do ISS serão gradualmente reduzidas ano a ano, enquanto as do IBS aumentarão na mesma proporção, até a extinção completa do imposto municipal ao final de 2032. Durante esses quatro anos, as equipes fiscais terão de lidar com três sistemas: a CBS (cheia), o ISS (em extinção) e o IBS (em ascensão). A chance de erros na apuração, no creditamento e no cumprimento de obrigações acessórias será altíssima.
Paralelamente a essa complexa transição de alíquotas, persiste a questão do legado do ISS. A reforma adota o princípio do destino, mas o que fazer com os bilhões de reais em autos de infração e disputas judiciais sobre a guerra fiscal do ISS (local do prestador vs. local do tomador)? A lei complementar precisa estabelecer regras claras e seguras para a resolução desse passivo gigantesco, sob pena de as empresas passarem a próxima década discutindo um tributo já extinto.
A transição, portanto, exige um investimento imediato em tecnologia e planejamento. O custo de adaptação de sistemas de ERP e a necessidade de uma gestão fiscal impecável serão enormes, representando um desafio financeiro e operacional que não pode ser subestimado.
Conclusão: Vigilância constante para um futuro incerto
A reforma tributária não é uma linha de chegada, mas um processo contínuo. As promessas de um sistema mais simples e justo podem se tornar letra morta se a regulamentação não for cirúrgica ao tratar das particularidades de cada setor da economia.
Para o setor de serviços, os desafios são claros: a falta de crédito sobre a mão de obra, a complexidade crescente das alíquotas diferenciadas e os perigos operacionais da transição. Ignorar esses pontos não é uma opção.
Cabe à comunidade jurídica e empresarial manter-se vigilante, participar ativamente dos debates e pressionar por uma regulamentação que honre o espírito da reforma, garantindo que o motor da economia brasileira não seja penalizado em nome de uma simplificação que, por enquanto, parece mais distante do que o prometido.
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