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O que os economistas esperam para o varejo em 2017
Indicadores macroeconômicos, como o desemprego, devem continuar desfavoráveis. Lojista deve buscar eficiência dentro do próprio negócio para ampliar a receita
Historicamente, o crescimento do varejo brasileiro foi superior à evolução do PIB (Produto Interno Bruto, indicador que expressa a soma das riquezas do país).
No período de 2000 a 2016, por exemplo, o PIB cresceu em média 2,6% e o varejo, 3,8%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A relação direta entre esses dois indicadores continuou existindo desde o início da crise econômica. A diferença é que os números passaram para o campo negativo.
No ano passado, a retração do PIB foi de 3,6%. Mas o tombo das vendas do varejo foi ainda maior, de 6,2%. Um ano antes, em 2015, a atividade econômica contraiu 3,8% e o varejo encolheu 4,2%.
Em um ano em que as perspectivas para a economia são melhores, já que as instituições financeiras projetam alta de 0,41% para a atividade econômica, o que pode acontecer com o varejo?
A resposta à essa pergunta não é unânime, já que o assunto divide os economistas ouvidos pelo Diário do Comércio.
Para Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector, o crescimento do varejo será nulo este ano e, desta forma, mais fraco do que o desempenho do PIB, para o qual a consultoria projeta elevação de 0,30%.
“O setor está se ajustando ao novo momento da economia. Enquanto a indústria dá sinais de recuperação, o comércio está demitindo, pois ainda sofre os efeitos da inadimplência e do desemprego, e isso deve se estender para todo este ano”, diz.
Para Rodolfo Margato, economista do banco Santander, PIB e varejo já deverão ter desempenhos positivos e semelhantes em 2017. Segundo ele, o PIB deve crescer 0,70% e as vendas do comércio, 0,80%.
Ele lembra que, nos últimos meses, o índice de inflação teve uma variação menor do que a esperada pelo mercado, o que é na verdade uma surpresa positiva.
"No ano passado, a massa real de salários encolheu 3,5%, mas já indica estabilidade este ano. Dados do Caged, do Ministério do Trabalho, também mostram uma menor destruição de postos de trabalho”, diz.
Para Emilio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a recuperação, ainda que lenta, da indústria e da agricultura (em torno de 0,5%) deve levar o indicador que mede a atividade ecônomica como um todo para o campo positivo neste ano. Quanto ao varejo, diz, ainda é cedo para fazer qualquer projeção positiva.
Até a metade deste ano, a ACSP projeta uma queda de cerca de 3% para as vendas, considerando o período acumulado de 12 meses.
“As vendas só devem reagir com a redução nos juros e a melhora da confiança do consumidor, que está estabilizada, mas ainda no campo do pessimismo”, diz Alfieri.
Para Ulisses Gamboa, economista da ACSP, inflação e juros em queda não serão suficientes para o consumidor voltar às compras. Apesar disso, são bons indicadores para facilitar a renegociação de dívidas.
“Se o consumidor consegue quitar parte dos débitos e o desemprego para de subir, a confiança e as expectativas podem melhorar, estimulando o consumo. Mas isso não é para já”, diz.
Ele também afirma que o recurso sacado das contas inativas do FGTS deve funcionar como agrado para os comerciantes. "Mas a maior parte desse dinheiro será usada para pagar dívidas."
QUANDO A ECONOMIA CRESCIA
Os economistas dizem que o varejo teve desempenho superior ao crescimento do PIB por quase duas décadas porque a política monetária favorecia a expansão do crédito e o endividamento das famílias.
Por dez anos, até 2014, dirigentes de grandes redes de varejo viveram uma década de ouro, devido ao expressivo crescimento das empresas do setor.
“Os consumidores eram estimulados a comprar porque tinham acesso ao crédito, e prazos mais longos para pagar. Em certo período, era possível comprar um veículo e parcelar o pagamento em até 84 meses”, diz Alfieri.
Hoje, os indicadores macroeconômicos não favorecem o consumo como naquele período. Os juros continuam elevados, o crédito está escasso e o desemprego não para de subir - a taxa atual é de 12,6%.
Indicadores que medem a confiança do consumidor, apontados pelos economistas como sinalizadores decisivos para a retomada do varejo, estão em patamares muito baixos.
Pesquisa da ACSP/ Ipsos revela que, em março, 56% dos consumidores se sentiam inseguros no emprego e 66% disseram que não pretendiam comprar eletrodomésticos nos próximos seis meses.
O dado faz parte do Índice Nacional de Confiança (INC), que varia de zero a 200 pontos, e registrou 71 pontos em março, abaixo do registrado em fevereiro (74 pontos) e inferior ao de março de 2016 (73 pontos). Quando a pontuação está abaixo de 100, o consumidor está pessimista. Quando oscila de 100 a 200 pontos, otimista.
O desempenho do varejo continua negativo neste início de 2017. No primeiro bimestre, as vendas do comércio restrito caíram 2,2% em relação a igual período do ano anterior e 5,4% em 12 meses, de acordo com o IBGE.
O ponto positivo é que as quedas nas vendas estão diminuindo. No acumulado de 12 meses até dezembro de 2016, a retração atingiu 6,2% e até janeiro deste ano, 5,5%.
Apesar disso, alguns setores tiveram desempenho positivo. Em fevereiro, as vendas do setor de vestuário, tecidos e calçados subiram 3,6% em relação a igual período do ano passado, um sinal de que o pior momento da crise já passou.
Os últimos dados do varejo, divulgados pelo IBGE, levaram a Confederação Nacional do Comércio (CNC) a rever a projeção para as vendas do setor neste ano - de um crescimento de 1,2% para 1,5%.
Para Fábio Bentes, economista da entidade, a queda da inflação e o início do processo de queda dos juros começaram a produzir algum efeito positivo em setores mais dependentes de crédito.
Mesmo que o varejo saia do campo negativo para o positivo e termine este ano com crescimento, ainda vai levar tempo para que os lojistas atinjam os patamares de vendas que tinham antes da crise.
"Não adianta ficar esperando por condições macroeconômicas para tocar o negócio. Enquanto os juros não diminuírem mais e a confiança do consumidor ainda rodar abaixo de 100 pontos, o comerciante não verá dias melhores", diz Alfieri.
De acordo com ele, o lojista terá mesmo de adotar medidas microeconômicas para sobreviver pelo menos até o fim deste ano. Isto quer dizer, olhar para dentro da empresa, prestar atenção no cliente e nos produtos que oferece. Enfim, buscar eficiência.
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