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05/10/2026 09:20:09

Voluntariado corporativo vira ponte para formar jovens talentos

O voluntariado corporativo pode ajudar a formar jovens talentos e, ao mesmo tempo, desenvolver competências de liderança e gestão nas empresas

Autor: Francisco CarlosFonte: Mundo RHLink: https://mundorh.com.br/voluntariado-corporativo-vira-ponte-para-formar-jovens-talentos/

Programa do PAC aproxima executivos de jovens em situação de vulnerabilidade e mostra como a mentoria pode contribuir para empregabilidade, desenvolvimento de lideranças e formação de profissionais mais preparados para o mercado.

A dificuldade de inserção dos jovens no mercado de trabalho continua sendo um desafio relevante para empresas, governos e organizações sociais. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego entre brasileiros de 18 a 24 anos chegou a 13,8%, cerca de 2,4 vezes a média nacional, segundo levantamento do CIEE e do Ministério do Trabalho e Emprego.

O cenário também encontra paralelo internacional. Em 2025, cerca de 20% dos jovens entre 15 e 24 anos estavam fora do emprego, da educação ou da formação profissional, de acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Diante desse contexto, iniciativas de voluntariado corporativo começam a ganhar outra dimensão dentro das discussões de Recursos Humanos. Além do impacto social, programas de mentoria podem aproximar jovens das expectativas reais das empresas, ampliar referências profissionais e, ao mesmo tempo, desenvolver competências importantes nas próprias lideranças.

É essa lógica que orienta o programa Jovem com Futuro, do PAC (Projeto Amigos da Comunidade), organização que há mais de 23 anos atua com crianças, jovens, adultos e idosos em situação de vulnerabilidade social nas regiões de Pirituba e Jaraguá, em São Paulo.

Por meio da iniciativa, executivos, líderes e profissionais de diferentes setores atuam voluntariamente como mentores de jovens entre 15 e 24 anos.

Os encontros semanais abordam temas como carreira, comportamento profissional, comunicação, habilidades socioemocionais e preparação para os desafios do ambiente corporativo.

Formação de talentos começa antes da contratação

Desde sua criação, o Jovem com Futuro já formou mais de 400 jovens. Segundo o PAC, mais de 87,1% dos participantes ingressaram no mercado de trabalho após o programa, enquanto a renda das famílias dos jovens aumentou 82,4%.

A iniciativa também já mobilizou mais de 420 profissionais entre executivos, líderes e analistas de empresas parceiras.

Para Rosane Chene, empreendedora social e diretora da ONG PAC, existe uma distância relevante entre aquilo que muitos jovens conhecem sobre o mercado de trabalho e o que as organizações esperam deles no início da carreira.

“Existe uma distância entre o que muitos jovens conhecem sobre o mercado de trabalho e aquilo que as empresas esperam de quem está começando a carreira. A mentoria ajuda a encurtar esse caminho ao colocar esses jovens em contato direto com profissionais que podem compartilhar experiências, orientar escolhas e ampliar referências”, afirma.

A aproximação, porém, não gera aprendizado apenas para quem está começando.

Segundo Rosane, as lideranças também entram em contato com realidades diferentes das suas e são levadas a repensar a própria forma de desenvolver pessoas.

Mentoria também desenvolve lideranças

Um dos exemplos é Charles Franken, 47 anos, sócio do Grupo Arbo e executivo do setor de turismo.

Ele conheceu o PAC em 2024 e posteriormente passou a participar do Jovem com Futuro como mentor. Entre 2024 e 2026, o Grupo Arbo também passou a contratar jovens formados pelo programa.

“A mentoria permitiu construir uma relação que foi além de simplesmente transmitir conhecimentos profissionais. Houve uma conexão e uma troca muito fortes”, afirma Franken.

Para o executivo, a experiência reforçou competências como escuta ativa, empatia e capacidade de orientar sem impor soluções prontas.

“A mentoria me ensinou a ouvir o jovem sem julgamento. É preciso compreender as decisões que ele está tomando, o caminho que deseja seguir e aquilo que faz sentido para a vida dele, mesmo quando talvez não seja exatamente o caminho que eu escolheria”, diz.

Esse tipo de aprendizado dialoga diretamente com desafios atuais da liderança.

Em ambientes de trabalho mais diversos e com diferentes gerações convivendo nas equipes, ouvir, compreender contexto e adaptar a gestão às necessidades individuais tornaram-se competências importantes.

O voluntariado volta para dentro da empresa

A experiência também aparece na trajetória de Luciana Goes, 45 anos, Squad Leader na Becomex.

Há sete anos na empresa e responsável por uma equipe de gestão de dados, ela conheceu o PAC por meio da organização onde trabalha e decidiu participar do programa.

Segundo a executiva, a mentoria ampliou sua capacidade de compreender melhor as pessoas sob sua liderança.

“Passei a colher melhor as informações do meu time para compreender quem é cada pessoa, o que ela deseja, quais são seus pontos fortes e em que posição ou estrutura ela pode atuar de maneira que consiga se desenvolver, estar feliz e, ao mesmo tempo, contribuir para a empresa”, afirma.

Na prática, a experiência voluntária passou a influenciar também sua atuação como gestora.

“Estamos falando de aproximadamente uma hora por semana. E não é somente o jovem mentorado que cresce. Nós também crescemos”, diz.

Esse retorno para dentro da organização ajuda a explicar por que programas de voluntariado corporativo começam a ser observados também como ferramentas de desenvolvimento.

Lideranças expostas a contextos diferentes precisam exercitar escuta, comunicação, orientação, adaptação e construção de confiança — competências que também fazem parte da gestão cotidiana de equipes.

Jovens ampliam repertório das empresas

A troca geracional também aparece na experiência de Ricardo Galdino, 40 anos, Managing Director da Coaktion.

Com cerca de 15 anos de carreira em tecnologia e responsável por uma equipe de aproximadamente 19 pessoas, ele afirma que sua própria trajetória, iniciada em uma região de subúrbio no Rio de Janeiro, ajuda a criar conexão com os jovens atendidos pelo programa.

“Eu ouço muito nesse processo e, ao compartilhar minha trajetória, sinto que isso aproxima e cria uma conexão maior. Ele passa a ter um referencial e compreender que pode e é capaz de alcançar seus objetivos”, afirma.

Para Galdino, a mentoria precisa respeitar o ritmo do jovem.

“São muitas informações e não adianta tentar entregar tudo de uma vez”, diz.

Na avaliação do executivo, a disposição para aprender pode ser especialmente relevante em áreas sujeitas a mudanças rápidas, como tecnologia.

“Quando você vê a motivação e o brilho nos olhos de um jovem que está começando, isso me remete ao meu próprio passado. Todo mundo já começou em algum momento. Mas vontade de aprender é algo que nem todas as pessoas apresentam”, afirma.

Formar talentos pode ser estratégia de negócio

Além do impacto social, programas desse tipo também podem contribuir para uma discussão recorrente no RH: onde encontrar e como desenvolver novos talentos.

Em vez de esperar que profissionais cheguem totalmente preparados ao mercado, empresas podem participar mais ativamente da formação.

“Desenvolver alguém requer tempo e habilidade, mas permite formar um bom profissional dentro da própria organização”, afirma Galdino.

Segundo ele, acompanhar profissionais desde o início também permite transmitir cultura, valores e formas de trabalhar.

“É possível acompanhá-lo desde o início e desenvolvê-lo de acordo com a cultura e com aquilo em que a empresa acredita. Na minha visão, é uma forma inteligente e estratégica de atuar na formação de novos talentos”, diz.

O executivo também ressalta que o objetivo não deve ser criar dependência.

“Se surgir uma oportunidade realmente melhor para aquele jovem, que ele possa seguir e crescer”, afirma.

Voluntariado ganha uma nova dimensão para o RH

Para áreas de Recursos Humanos, iniciativas de voluntariado corporativo podem reunir diferentes agendas em um mesmo programa.

Elas contribuem para responsabilidade social, desenvolvimento de lideranças, formação de talentos, diversidade de repertório e aproximação entre profissionais experientes e novas gerações.

Também ajudam a criar pontes entre dois grupos que frequentemente enxergam o mercado de trabalho de perspectivas muito diferentes.

De um lado, jovens que ainda tentam compreender códigos, expectativas e possibilidades profissionais.

Do outro, executivos que precisam desenvolver capacidade de escuta e compreender realidades distintas das suas.

É nessa troca que o voluntariado deixa de ser apenas uma ação social e passa a funcionar também como espaço de aprendizagem.

Para o RH, a principal perspectiva talvez esteja justamente aí: formar novos talentos e formar melhores líderes podem ser partes do mesmo processo.

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