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05/10/2026 09:04:43

Quando a dívida aperta, negociação vira estratégia para manter a empresa de pé

O endividamento empresarial pode comprometer o caixa e dificultar o crescimento dos negócios. A renegociação das dívidas é uma alternativa para reorganizar as finanças e preservar a operação

O Diário do Comércio conversou com empresários como Alessandra Melo, da Forquote (na foto), para entender como as dívidas surgem, como são negociadas e os impactos que o endividamento pode causar aos negócios. ACSP lançará serviço inédito de renegociação na Feira do Empreendedor do Sebrae.

Os empreendedores enfrentam um cenário de forte pressão financeira. Em junho deste ano, as dívidas de empresas inadimplentes no Brasil somavam R$ 238,6 bilhões, envolvendo cerca de 9,2 milhões de CNPJs (dados da Serasa Experian).

Nesse contexto, quando uma pendência não é resolvida, a dívida pode crescer com a incidência de juros e encargos e, em alguns casos extremos, até chegar à Justiça.

Para entender como os empresários lidam com esse tipo de situação, o Diário do Comércio conversou com empreendedores e representantes do comércio. Os relatos mostram diferentes caminhos: há quem precisou renegociar uma dívida com fornecedor, quem substituiu débitos por uma linha de crédito, quem negociou diretamente para evitar uma disputa judicial e também quem procura manter os pagamentos em dia para não chegar ao endividamento.

Diversificação é a solução?

Alessandra Melo, proprietária da Forquote Logística e Assessoria em Comércio Exterior, precisou renegociar uma dívida com um fornecedor depois de uma mudança no mercado. Após mais de 15 anos trabalhando com provedores de internet, ela viu o faturamento cair quando esses clientes começaram a vender suas operações para grandes operadoras.<p/

Como alternativa, decidiu investir na venda de utilidades domésticas em marketplaces. Para comprar um contêiner de produtos, recorreu a crédito, mas, sem experiência nesse modelo de venda, levou cerca de seis meses para comercializar o estoque.

Quando o prazo para pagamento chegou ao fim, Alessandra precisou renegociar a dívida com a empresa chinesa responsável pelo fornecimento de credito para a aquisição do contêiner e parcelou o valor para ter tempo de vender os produtos e quitar o débito.

Portabilidade pode adequar dívida ao fluxo de caixa

Outro exemplo é o de João Carlos Moreno, que há cerca de dez anos enfrentou dificuldades financeiras provocadas pela queda no faturamento, e pelo acúmulo de dívidas no cartão de crédito e no cheque especial. Para reorganizar as contas, recorreu ao Microcrédito Produtivo Orientado (MPO) da Caixa Econômica Federal, estruturado sob as diretrizes do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO).

No caso de Moreno, a operação permitiu substituir a dívida que mantinha com outra instituição financeira por um novo financiamento. Após apresentar ao banco as dívidas e os dados de faturamento da empresa, ele passou por um período de acompanhamento do fluxo financeiro antes da liberação do crédito. A Caixa quitou o débito, e o empresário passou a pagar o novo financiamento ao longo de cinco anos, com condições de juros e prazo mais adequadas ao fluxo de caixa do negócio.

Na ponta do lápis

Proprietário da Machinus Academia, na Zona Norte de São Paulo, Felipe Ingegnere conta que um dos períodos mais difíceis para o negócio ocorreu durante a pandemia. A academia vinha de um período de crescimento quando as restrições impostas ao setor reduziram as atividades e, consequentemente, as receitas. Ao mesmo tempo, fornecedores e despesas fixas continuavam gerando custos.

Diante desse cenário, a empresa precisou negociar individualmente as dívidas. Segundo Ingegnere, conhecer os números do negócio foi fundamental para definir quais contas deveriam ser priorizadas e quais poderiam ser negociadas. A academia conversou individualmente com cada fornecedor em busca de novos prazos e condições de pagamento. “A principal coisa é falar a verdade, tentar estabelecer uma parceria e deixar muito claro que você não vai deixar o seu negócio acabar”, afirma.

Para o empresário, também foi necessário identificar, dentro de cada fornecedor, quem tinha poder de decisão para flexibilizar prazos e condições. Em alguns casos, foi preciso avançar na comunicação até chegar à pessoa responsável por autorizar a negociação. A experiência fez com que Ingegnere passasse a considerar o acompanhamento dos números e a previsão de diferentes cenários como ferramentas importantes para enfrentar períodos de dificuldade financeira.

As vantagens da comunicação direta

Nem todos os empresários entrevistados chegaram a acumular dívidas com fornecedores. Fauze Yunes, proprietário da Dinho's Jeans, que está há 52 anos no mercado, afirma que a empresa procura manter os pagamentos em dia.

Mesmo assim, para Yunes, a possibilidade de negociação direta pode ser importante para empresários que enfrentam dificuldades financeiras e precisam reorganizar as contas. “Ter negociações extrajudiciais é bom e oportuno, pois ajuda muitos empresários que estão endividados”, afirma.

Richard Narchi, sócio proprietário e diretor da marca Rik Will, também afirma que a empresa não tem histórico de acúmulo de dívidas com fornecedores. Em momentos de possíveis atrasos nos pagamentos, a saída foi negociar diretamente com os credores. Ele conta que a comunicação com fornecedores ajudou a evitar que eventuais problemas financeiros evoluíssem para disputas judiciais, ou seja, a negociação direta permitiu resolver os atrasos sem levar as questões financeiras para a Justiça.

O peso dos juros

Para Lauro Pimenta, vice-presidente da Associação de Lojistas do Brás (Alobrás), o endividamento entre lojistas e fornecedores está diretamente ligado às taxas de juros. Segundo ele, quando o empresário deixa de cumprir um pagamento no prazo, a dívida pode crescer rapidamente com a incidência de juros e encargos, dificultando o pagamento das parcelas seguintes e, em alguns casos, comprometendo a continuidade do negócio.

“Quando um comerciante entra numa rota de endividamento, é muito difícil você pegar um empréstimo do BNDES, onde os juros são subsidiados”, afirma.

Segundo Pimenta, o empresário que já está endividado encontra dificuldade para acessar crédito em condições mais favoráveis e pode acabar recorrendo a bancos comerciais, aumentando ainda mais o custo da dívida. Para ele, o processo pode começar com o atraso de uma parcela e evoluir para a inadimplência.

O vice-presidente da Alobrás também chama atenção para o impacto desse cenário sobre os pequenos negócios. Na avaliação dele, a falta de alternativas de crédito com condições adequadas pode dificultar a manutenção de empresas menores, que ficam mais expostas à escalada dos juros quando enfrentam problemas de fluxo de caixa.

Uma alternativa antes da Justiça

Os relatos mostram que o endividamento pode ter origens diferentes, mas que a negociação aparece como um ponto comum entre os empresários que buscam reorganizar as contas. Em vez de deixar a dívida avançar até uma disputa judicial, o contato direto pode permitir a discussão de novos prazos e condições de pagamento.

É nesse espaço que entra a mediação extrajudicial. A proposta é criar um ambiente em que empresário e fornecedor possam negociar a dívida e buscar um acordo antes que o conflito chegue à Justiça.

Para ajudar os pequenos empreendedores a saírem do sufoco, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), lançará um serviço inédito de renegociação de dívidas empresariais disponível gratuitamente para os participantes da Feira do Empreendedor do Sebrae 2026, que será realizada entre os dias 19 e 22 de outubro na São Paulo Expo, na Zona Sul da Capital paulista.

A operação contará com a expertise dos especialistas da CEMAAC (Câmara de Mediação e Arbitragem) da ACSP em resoluções extrajudiciais, durante os quatro dias da feira, para orientar os empreendedores na consulta de dívidas, na apresentação das ofertas dos credores e nas conversas sobre renegociação de débitos.

“Estamos aproveitando esse grande ativo para estruturar o novo serviço", afirma Renan Luiz Silva, superintendente de serviços institucionais da ACSP.

O objetivo é ajudar empresas a regularizarem sua situação financeira e manterem a empresa de pé. “O foco não é atender as pessoas físicas, mas sim o CNPJ, a empresa, o MEI que tem uma dívida e quer negociar para manter sua empresa em dia.”

Após a feira a proposta, segundo Silva, é transformar o serviço em uma iniciativa permanente do Balcão do Empreendedor da ACSP, disponível na sede, nas distritais e na Av.Paulista. Nesse novo formato, o atendimento será gratuito e exclusivo para associados, e a expectativa é que o serviço comece a funcionar até o fim deste ano, sinaliza.

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