Apartir de 01/11/2026, as Microempresas (ME) e Empresas de Pequeno Porte (EPP) optantes do Simples Nacional devem emitir a NFS-e exclusivamente pelo Emissor Nacional (Web ou API)
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Notícia
Recuperação judicial avança entre pequenos negócios. Veja caminhos para enfrentar uma crise financeira
Juros altos, crédito mais caro e consumo retraído afetam microempresas, que têm mais dificuldade para superar crises
A onda de recuperações judiciais está alcançando os negócios de menor porte. O número de micro e pequenas empresas (MPEs) sob proteção da Justiça em processos para reestruturar suas operações foi de 2.821 em junho, um salto de 41,4% em comparação ao mesmo mês em 2025. É quase o dobro do ritmo registrado pelo conjunto das empresas do país, considerando médias e grandes, que teve avanço de 21,2% no período, segundo o levantamento Monitor RGF-BizDoc. A maior parte dos processos está no comércio. No semestre, o avanço nesses processos chegou a 18,3% entre as micros e 11,2% nas pequenas, contra 8% da taxa geral.
O pano de fundo passa pela taxa de juros em patamar elevado por muito tempo, encarecendo crédito e mordendo o caixa, com efeito negativo vindo ainda do recuo no consumo, diante do alto endividamento das famílias.
Há, porém, dois agravantes, na comparação com as médias e grandes empresas. O pequeno negócio costuma ser familiar, de gestão pouco profissionalizada e, por isso, menos capacitada para prever, evitar e contornar crises. Além disso, no comércio, falta patrimônio próprio para dar em garantia em acordos com credores.
Agir antes do aperto
Para negócios pequenos, o melhor é estancar os problemas antes de ter de recorrer à recuperação judicial. É que nesses segmentos, as chances de o processo resultar em falência são mais altas, alerta Claudio Damasceno, sócio da RGF Associados/BizDoc.
— Pequenas empresas têm um componente emocional grande, o negócio do pai que contrata o filho, é amigo do fornecedor. E falta especialização em crise. Isso dificulta decisões. Outra coisa é que elas têm patrimônio menor e a marca não é tão forte. Falta algo a oferecer ao credor, e o plano de reestruturação fica frágil. Por isso, o ideal é nem chegar à recuperação judicial — destaca ele.
Uma das principais dores de cabeça das MPEs é o custo do crédito. Uma referência nesse sentido é o Pronampe, linha criada pelo governo federal em 2020 para socorrer esses negócios na pandemia. A principal vantagem é o uso de recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO), em caso de calote do empreendedor. O Pronampe, no entanto, surgiu com a Selic a 2% ao ano. A taxa de juros é usada para corrigir o saldo devedor, acrescida de 6%. Agora, ela está em 14%. Neste ano, com o Novo Desenrola, o Pronampe teve regras revisadas, com maior prazo de carência, pagamento, limite, além de mais recursos via FGO.
Pequenos negócios encontram formas de superar desafios
Pizzaria optou por reestruturação após dívidas
Maria Margarida Santos, dona de uma pizzaria há quase seis anos, precisava de uma reestruturação após contratar um empréstimo para comprar equipamentos e se endividar:
— Cheguei a pensar em fechar as portas quando não conseguia pagar os funcionários e perdi fornecedores.
Ao buscar apoio, descobriu ainda uma multa aplicada pela Receita Federal, após cair na malha fina. Segundo ela, a empresa está há um ano em processo de reestruturação, já tendo renegociado dívidas. Agora, aguarda para renegociar o débito com o Fisco. A meta é construir uma reserva de R$ 60 mil para ter o negócio saudável.
— Passei a separar as contas. Aprendi a gerir o negócio. Corrigimos os preços e agora estou tendo um lucro na casa dos 22% — conta ela.
Reestruturação foi fundamental para o negócio
A MAMplast Recicláveis passou por um processo de reestruturação após o empresário Alcyr Quintino perceber, em 2019, que a empresa, com 21 anos no mercado, caminhava para o vermelho. A mudança envolveu a divisão da organização em departamentos e a criação de processos e indicadores para melhorar a gestão.
Pouco depois, veio a pandemia. Apesar de ter recorrido a crédito para se manter, a MAMplast continuou operando. O cenário, porém, mudou nos últimos anos e está mais desafiador. Mas Quintino afirma que o planejamento criado na reestruturação ajuda a se adaptar às adversidades:
— (A situação) Está pior, mas estou mais estruturado, e é por isso que estou vivo. Hoje mesmo tive a notícia de que mais dois clientes fecharam.
Sócias buscaram ajuda para estruturar empresa
O Grupo Florencio, especializado em Saúde e Segurança do Trabalho, enfrentou dificuldades após perder seu principal cliente. Foi quando as sócias Laureni e Laura Florencio, mãe e filha, decidiram mapear as dívidas e procurar o Sebrae para estruturar melhor o negócio. Um dos objetivos era também aumentar a visibilidade da empresa, atrair novos clientes e, consequentemente, gerar mais receita.
Após as mudanças, o faturamento, que havia caído de R$ 15 mil para R$ 3 mil mensais após a perda do principal cliente, hoje está em R$ 40 mil.
— Eu acho que a maior dificuldade que a gente (pequenos empreendedores) enfrenta é saber se mostrar para o cliente. Acho que esse é o grande desafio: lidar com pessoas. Temos que nos reinventar — diz Laura.
Fica a dica
Empresas começam a dar sinais de turbulência financeira antes de uma crise mais séria, afirmam especialistas. Prevenir, identificar e tratar os sintomas para evitar o pior são chaves para manter o negócio. Ouvimos especialistas para ajudar micro e pequenos empreendedores a se organizarem. Com a palavra, Rodrigo Soares, presidente do Sebrae; a especialista em gestão financeira Simone Santolin; e Claudio Damasceno, sócio da RGF Associados / BizDoc. Confira:
- Negócios à parte - Profissionalize a gestão. É importante que as contas pessoais sejam separadas da contabilidade da empresa. Separe registros financeiros, defina um pró-labore para os sócios compatível com o resultado e controle retiradas. E não trate dinheiro emprestado como lucro disponível.
- Diagnóstico financeiro - Não adianta tomar decisões para apagar o incêndio do dia. O primeiro passo é fazer um diagnóstico financeiro, levantando quanto a empresa tem a receber, a pagar, as dívidas, taxas de juros, prazos e estoques, entre outros fatores.
- Planejamento - É preciso projetar o fluxo de caixa dos próximos meses e identificar onde estão os maiores gargalos financeiros. A partir daí é possível construir um plano de ação para lidar com dificuldades, que pode incluir renegociar prazos e dívidas, rever despesas, analisar estoques e rever preços.
- Fontes de receita - Não dependa de uma única fonte de receita ou de um único tipo de crédito. Existem cooperativas, investidores anjos, fundos de investimento, plataformas de crowdfunding.
- Ajuda profissional - Avalie com profissionais especializados a viabilidade da operação e as alternativas de reestruturação extrajudicial ou judicial, sempre considerando custos, contratos e garantias envolvidos. Se não houver perspectiva realista de sustentação do negócio, inclua o encerramento organizado das atividades na análise.
- Atenção ao caixa - É preciso separar o que é uma dificuldade momentânea do que é um problema estrutural. Se falta dinheiro, projete entradas e pagamentos por semana, usando as datas prováveis e considerando atrasos.
- Custo do crédito - Com o encarecimento do crédito, mapeie juros, tarifas, garantias e parcelas de cada linha. É importante comparar o custo total de um empréstimo em caso de troca de dívida.
- Capital de giro - Usar crédito para capital de giro ou refinanciamentos pode fazer sentido. Mas fazer isso repetidamente para cobrir prejuízos sem corrigir a causa agrava o problema.
- Atenção à margem - É preciso calcular o quanto sobra de cada venda após descontar custos e despesas variáveis. Essa margem precisa ajudar a pagar as despesas fixas. Se necessário, revise preços, descontos e portfólio de produtos. Na crise, corte desperdícios sem comprometer a qualidade ou as vendas que contribuem para o resultado.
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