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28/08/2026 09:17:15

Educação financeira é processo, não campanha de conscientização

A educação financeira nas empresas precisa ir além de palestras pontuais. Para gerar impacto, deve fazer parte de uma estratégia contínua, com ações que ajudem os colaboradores a lidar com orçamento, dívidas e investimentos

Autor: CreditasFonte: RH Pra VocÊLink: https://rhpravoce.com.br/case/educacao-financeira-e-processo

É relativamente fácil colocar educação financeira no calendário corporativo. Escolhe-se uma data, convida-se um especialista, organiza-se uma palestra sobre orçamento, dívidas ou investimentos e, algumas horas depois, o assunto desaparece da agenda.

O problema é que as decisões financeiras dos trabalhadores não acontecem uma vez por ano.

Elas aparecem quando chega o salário, nas compras parceladas, no uso do crédito, nas férias, diante de uma emergência familiar, no nascimento de um filho, na renegociação de uma dívida e, cada vez mais, na facilidade de acessar uma plataforma de apostas pelo celular.

É justamente nesse contexto que pode estar uma das principais fragilidades das estratégias de bem-estar financeiro das empresas: tratar um desafio permanente como uma campanha de conscientização.

Na visão de Renato Gonçalves, VP de Vendas, Cobrança e CX da Creditas, informar é importante, mas dificilmente suficiente para provocar mudanças duradouras. “Campanhas de conscientização normalmente trabalham informação. Elas ajudam a aumentar o conhecimento sobre um tema, mas têm impacto limitado na mudança de comportamento porque acontecem em momentos pontuais e, muitas vezes, desconectados da realidade financeira das pessoas”, pontua.

A alternativa, segundo o executivo, é incorporar a educação financeira à própria jornada do colaborador, conectando conteúdo, benefícios e acesso a soluções aos momentos em que as decisões realmente precisam ser tomadas. Contratação, férias, volta às aulas, chegada de filhos e reorganização de dívidas são alguns dos exemplos.

Um problema que não fica do lado de fora da empresa

A discussão ganha importância diante da vulnerabilidade financeira dos trabalhadores brasileiros.

Há, então, uma diferença significativa entre conhecer conceitos financeiros e conseguir aplicá-los quando o orçamento está pressionado.

E os reflexos podem chegar ao expediente antes mesmo de o profissional verbalizar que enfrenta dificuldades.

De acordo com o VP da Creditas, os primeiros sinais costumam ser silenciosos: problemas de concentração, estresse, presenteísmo, absenteísmo e maior disposição para trocar de emprego diante de uma necessidade imediata de renda.

“Quem está preocupado constantemente com contas, dívidas ou cobranças tem menos disponibilidade cognitiva para resolver problemas complexos e tomar decisões”, explica

Isso deixa claro que o desafio do RH está em não esperar que a dificuldade financeira apareça apenas quando já se transformou em queda de desempenho, pedido de desligamento ou problema de saúde.

E as bets entraram nessa conversa

Se as dificuldades financeiras já vinham atravessando os muros das empresas, a expansão das apostas online acrescentou uma nova camada ao problema.

Dados apresentados por Gonçalves, de uma pesquisa da Creditas Benefícios e do Wellz by Wellhub em parceria com a Opinion Box, ajudam a dimensionar o fenômeno: 51% dos trabalhadores consultados afirmaram que poderiam utilizar o 13º salário com apostas. Além disso, 24% disseram que o assunto já precisou ser discutido dentro da empresa após episódios de colaboradores apostando durante o expediente. Entre as lideranças, 36% avaliam que a prática já produz impactos negativos no ambiente de trabalho.

O problema já ganhou dimensão de saúde pública. Em julho, o Ministério da Saúde lançou uma Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, destacando possíveis impactos do uso problemático sobre saúde mental, finanças, rotina e relações sociais. O governo também disponibilizou atendimento pelo SUS e mecanismos de autoexclusão das plataformas autorizadas.

Renato elucida que o avanço das bets tornou mais visível uma questão que já existia. “O papel da empresa não é controlar decisões individuais. É criar condições para que seus colaboradores façam escolhas financeiras mais conscientes antes que uma dificuldade financeira afete sua qualidade de vida, sua produtividade e o clima organizacional.”

Essa distinção é particularmente importante. Uma política de bem-estar financeiro não deve significar monitorar como alguém utiliza seu salário, tampouco transformar o RH em uma espécie de tutor financeiro dos trabalhadores.

O objetivo está em oferecer repertório e apoio.

Educação financeira precisa conversar com saúde mental?

O crescimento das apostas também evidencia como separar completamente saúde financeira e saúde emocional pode limitar a capacidade de prevenção das empresas.

No levantamento citado pelo executivo de Vendas, 80% das lideranças acreditam que programas de apoio psicológico podem contribuir para prevenir comportamentos relacionados às apostas.

O próprio Ministério da Saúde reforça essa conexão. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo, e sinais como preocupação frequente com apostas e alterações no sono, humor, rotina ou relacionamentos são apontados como situações que merecem atenção.

Para as empresas, isso sugere que iniciativas isoladas podem perder eficácia justamente porque os problemas não aparecem isoladamente.

Educação financeira, benefícios, saúde emocional e acesso a apoio responsável podem precisar conversar entre si.

Existe ainda outra discussão delicada para os RHs: se o trabalhador já está financeiramente pressionado, oferecer crédito como benefício não pode aumentar o problema?

Gonçalves esclarece que a resposta depende de como essa oferta é construída. “Existe, e justamente por isso o crédito precisa ser tratado como ferramenta, não como incentivo ao consumo. Um benefício financeiro responsável combina três elementos: informação, orientação e acesso.”

Isso significa explicar custos, riscos, alternativas e situações em que determinada modalidade pode ou não fazer sentido. A função da empresa, ressalta, não é estimular a contratação, mas aumentar o repertório para que o trabalhador consiga decidir com mais consciência.

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