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Notícia
As empresas estão procurando estabilidade — e ela pode ter cabelo branco
Retorno de CEOs aposentados, valorização de executivos experientes e pico salarial após os 45 anos mostram que o mercado começa a rever antigos preconceitos sobre idade
A inteligência artificial acelerou a transformação das empresas. Paradoxalmente, porém, uma das mudanças mais marcantes do mercado de trabalho está recolocando em evidência um ativo antigo: a experiência.
Diferentes estudos divulgados recentemente mostram que organizações voltaram a valorizar líderes capazes de enfrentar cenários complexos, conduzir transformações e tomar decisões sob pressão — competências que, na maioria das vezes, são construídas ao longo de muitos anos de carreira.
O movimento aparece em diferentes frentes.
Pesquisa da Senior Sistemas mostra que os brasileiros atingem o maior salário da carreira entre os 46 e 55 anos, justamente uma faixa etária que — até pouco tempo atrás — muitos consideravam o início da desaceleração profissional.
Ao mesmo tempo, levantamento citado pelo Wall Street Journal mostra que, entre os CEOs que voltam ao comando de empresas após a aposentadoria, cerca de 40% conseguem repetir ou superar o desempenho alcançado em sua primeira passagem pelo cargo.
Juntos, os estudos sugerem uma mudança silenciosa: em vez de buscar apenas velocidade, muitas organizações passaram a valorizar previsibilidade, experiência e capacidade de navegar em cenários de alta complexidade.
Experiência voltou a ser vantagem competitiva
O retorno de executivos veteranos não significa que as empresas deixaram de apostar em inovação. Na prática, elas passaram a enxergar a experiência como um ativo estratégico.
Segundo o Wall Street Journal, conselhos de administração têm recorrido a antigos CEOs por entender que eles chegam ao cargo com menor curva de aprendizado, maior repertório para enfrentar crises e capacidade de tomar decisões difíceis em pouco tempo.
Na avaliação de especialistas em governança, a idade deixou de ser o principal critério de decisão. O foco passou a ser a capacidade de assumir empresas em momentos de elevada complexidade.
“Quando todos esses fatores são levados em consideração, a idade do candidato passa a ser secundária, porque o grupo de potenciais candidatos é bastante limitado”, afirma Matteo Tonello, diretor de benchmarking e análise de dados da Conference Board.
A mudança dialoga com outra tendência observada recentemente.
Levantamento global da Russell Reynolds Associates mostrou que o cargo de CFO nunca passou por tanta rotatividade.
No Brasil, cerca de 40% das posições mudaram de ocupante, enquanto 65% dos novos diretores financeiros já haviam exercido anteriormente a função, evidenciando a preferência por profissionais experientes para cargos considerados críticos.
Segundo Fernando Machado, sócio-diretor e líder da prática de Finanças da Russell Reynolds Associates, essa mudança reflete uma transformação no próprio papel da liderança financeira.
“Em 2025, o cargo de CFO consolidou um mandato ampliado: além das finanças, passou a exigir liderança em estratégia, transformação e comunicação com conselho e investidores. Esse cenário intensifica as transições e aumenta a demanda por executivos experientes, capazes de gerar confiança rapidamente”, afirma.
A carreira está ficando mais longa
O envelhecimento da população também ajuda a explicar esse movimento.
Estudos recentes sobre o mercado de trabalho mostram que profissionais permanecem economicamente ativos por mais tempo e passam a viver uma segunda metade da carreira com expectativas diferentes das gerações anteriores.
Estudo sobre mulheres acima dos 50 anos aponta que o avanço da longevidade está ampliando o tempo de permanência no mercado e criando novas oportunidades para executivas que antes encontravam barreiras para continuar crescendo profissionalmente.
A pesquisa da Senior mostra que a remuneração média continua avançando ao longo da carreira até atingir seu ponto mais alto entre 46 e 55 anos. O dado indica que experiência e senioridade permanecem sendo fortemente valorizadas pelas empresas.
Cenário complexo exige mais bagagem
À primeira vista, pode parecer contraditório que a inteligência artificial esteja impulsionando justamente a valorização de profissionais mais experientes.
Mas diferentes pesquisas sugerem que há uma relação direta entre esses movimentos.
Levantamento da EY mostra que 84% dos CEOs brasileiros acreditam que a qualificação da força de trabalho em IA será decisiva para definir os líderes de mercado, enquanto estudos da McKinsey indicam que o maior desafio das organizações deixou de ser formular estratégias e passou a ser executá-las.
Nesse contexto, cresce a demanda por lideranças capazes de integrar tecnologia, pessoas e estratégia — competências normalmente desenvolvidas ao longo de muitos anos de experiência.
Mercado começa a rever antigos preconceitos
A combinação entre transformações tecnológicas aceleradas, escassez de lideranças preparadas e carreiras mais longas está mudando a forma como as empresas enxergam a experiência profissional.
Os estudos sugerem que a próxima vantagem competitiva talvez não esteja apenas em contratar profissionais mais jovens ou dominar novas tecnologias.
Pode estar, simplesmente, em reconhecer que algumas das competências mais difíceis de desenvolver continuam exigindo algo que nenhuma inteligência artificial consegue acelerar: tempo.
Essa valorização da experiência aparece também na forma como alguns executivos descrevem o próprio trabalho.
David Deno, que deixou a aposentadoria para assumir o comando da Cracker Barrel, diz que, hoje, boa parte do trabalho de um CEO está menos ligada às operações e mais às pessoas.
“Provavelmente passo 60% do meu tempo cuidando de cultura, liderança e seleção de pessoas.” A conclusão vem na frase seguinte: “Se eu não tiver as pessoas certas trabalhando para mim, estou perdido.”
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