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Notícia
Quatro competências ganham força diante do futuro incerto do trabalho
Inteligência artificial, mudanças nas profissões e novas expectativas sobre carreira ampliam a demanda por habilidades humanas, equilíbrio emocional, fluência tecnológica e aprendizado permanente
O profissional preparado para os próximos anos não será necessariamente aquele que possui mais certificados, domina o maior número de plataformas ou acumula décadas de experiência. Em um mercado marcado pela inteligência artificial, pela automação e pela transformação acelerada das funções, a capacidade de aprender, interpretar mudanças e preservar o discernimento humano tende a ganhar importância.
Essa é a avaliação de Rogério Bragherolli, psicanalista especializado no atendimento de executivos e profissionais da alta liderança. Para ele, a preparação para um ambiente profissional mais instável deve combinar competências técnicas, habilidades emocionais, fluência tecnológica e uma revisão constante dos valores que orientam a carreira.
A discussão ocorre em um cenário no qual empresas e trabalhadores tentam antecipar os efeitos da tecnologia sobre empregos, processos e qualificações. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que as transformações estruturais do mercado poderão criar 170 milhões de postos de trabalho até 2030, ao mesmo tempo que deslocarão aproximadamente 92 milhões de funções atuais.
O saldo projetado é positivo, com 78 milhões de oportunidades adicionais. Isso não significa, porém, que os empregos criados estarão disponíveis para as mesmas pessoas, nos mesmos setores ou com as mesmas competências exigidas pelas funções eliminadas.
Mudança não significa apenas destruição de empregos
O avanço tecnológico costuma alimentar previsões sobre substituição em massa dos profissionais. O próprio Fórum Econômico Mundial apresenta um cenário mais complexo.
A inteligência artificial e a automação podem eliminar determinadas tarefas, mas também ampliar a capacidade humana, criar novas ocupações e transformar funções existentes. Os resultados dependerão das decisões tomadas por empresas, governos e profissionais sobre capacitação, desenho do trabalho e distribuição dos ganhos de produtividade.
De acordo com o relatório, 39% das competências utilizadas atualmente pelos trabalhadores deverão mudar ou se tornar desatualizadas até 2030. O dado não significa que quatro em cada dez conhecimentos desaparecerão completamente. Parte dessas habilidades será reformulada, combinada a novas tecnologias ou aplicada de maneira diferente.
A reportagem do Mundo RH “Novas habilidades redesenham o trabalho até 2030” destaca que o movimento não está restrito às capacidades digitais. Pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade e disposição para aprender continuarão relevantes ao lado da inteligência artificial, dos dados e da cibersegurança.
Nesse contexto, Bragherolli identifica quatro frentes para profissionais e lideranças que desejam manter relevância em um ambiente de transformações contínuas.
1. Habilidades humanas ganham valor estratégico
A primeira frente envolve a combinação entre conhecimentos técnicos, competências comportamentais e aquilo que o especialista chama de heart skills — ou competências do coração.
A expressão ainda não possui uma definição única e universal no mercado. Ela costuma ser utilizada para reunir capacidades como empatia, compaixão, autoconsciência, ética, assertividade, cuidado e construção de relações significativas.
Para Bragherolli, essas competências tendem a ganhar importância porque não podem ser reproduzidas integralmente pelas máquinas no curto prazo.
A leitura não significa que a tecnologia seja incapaz de simular uma linguagem empática ou oferecer respostas socialmente adequadas. Sistemas de inteligência artificial já conseguem produzir comunicações que parecem acolhedoras e personalizadas.
A diferença está na responsabilidade, no contexto e na experiência humana que sustentam uma relação.
Uma ferramenta pode sugerir como conduzir uma conversa difícil. A liderança continua responsável por compreender o impacto de suas decisões, reconhecer a singularidade das pessoas e assumir as consequências daquilo que comunica.
O avanço da IA, portanto, não elimina a necessidade das habilidades humanas. Pode aumentar sua relevância.
O Mundo RH abordou essa relação na matéria “IA cresce, mas o futuro exige inteligência humana”, que aponta criatividade, empatia, colaboração e inteligência emocional como diferenciais profissionais diante da expansão das ferramentas automatizadas.
A valorização dessas competências, contudo, não deve servir para diminuir a importância das habilidades técnicas. Empresas continuarão precisando de profissionais capazes de dominar processos, interpretar dados, compreender riscos e aplicar conhecimento especializado.
O diferencial tende a estar na integração.
Um profissional tecnicamente competente, mas incapaz de colaborar ou ouvir, pode comprometer o funcionamento da equipe. Da mesma maneira, uma pessoa comunicativa e empática dificilmente sustentará uma função especializada sem o conhecimento necessário para executá-la.
2. Inteligência emocional precisa gerar ação
A segunda competência apontada por Bragherolli é a inteligência emocional aplicada com agilidade.
Reconhecer uma emoção é apenas o começo. No ambiente profissional, também é necessário decidir como agir diante dela.
Uma liderança pode perceber que está irritada durante uma negociação. A inteligência emocional não consiste em negar essa irritação nem em descarregá-la sobre a equipe. Está na capacidade de compreender o que provocou a reação, reorganizar o raciocínio e responder sem aumentar o conflito.
Esse domínio se torna especialmente importante em ambientes marcados por pressão, mudanças de prioridade, trabalho híbrido e equipes distribuídas.
A distância reduz parte dos sinais presentes nas interações presenciais. Silêncios, atrasos em respostas e mensagens curtas podem ser interpretados de maneira equivocada, aumentando o risco de conflito.
Empatia, comunicação assertiva, escuta e capacidade de lidar com frustrações ajudam a reduzir esses ruídos. O Mundo RH incluiu essas competências entre as exigências que devem ganhar protagonismo no mercado na reportagem “Como a IA vai transformar o trabalho em 2026”.
A valorização da resiliência, entretanto, exige cuidado.
Empresas não podem utilizar o termo para responsabilizar individualmente os trabalhadores por metas inviáveis, jornadas excessivas ou ambientes inseguros. Desenvolver inteligência emocional não significa aprender a suportar indefinidamente condições inadequadas.
O profissional precisa ampliar sua capacidade de lidar com a pressão. A organização, por sua vez, deve revisar as fontes evitáveis dessa pressão.
3. Fluência em IA vai além de operar ferramentas
A terceira frente está relacionada ao domínio da inteligência artificial.
Para Bragherolli, buscar aplicações capazes de acelerar atividades e automatizar processos tornou-se parte do desenvolvimento profissional. A fluência em IA, porém, não deveria ser confundida com a simples habilidade de escrever comandos em uma plataforma.
Ela envolve compreender:
- quais tarefas podem ser automatizadas;
- quais dados podem ser inseridos em cada sistema;
- como verificar as respostas produzidas;
- quando a revisão humana é indispensável;
- quais riscos envolvem privacidade, segurança e vieses;
- como a tecnologia altera o processo e a responsabilidade profissional.
A edição de 2026 do estudo global State of AI in the Enterprise, da Deloitte, indica que 42% dos entrevistados no Brasil afirmaram utilizar a inteligência artificial para promover mudanças estruturais nos negócios. Globalmente, a proporção foi de 34%.
Esse indicador precisa ser interpretado com precisão. Ele não significa que apenas 42% das empresas brasileiras utilizem alguma forma de IA. O percentual se refere aos participantes que relacionaram a tecnologia a mudanças estruturais, e não à adoção geral das ferramentas.
A pesquisa também mostra que o acesso dos profissionais à inteligência artificial aumentou, enquanto muitas organizações ainda enfrentam dificuldades relacionadas à infraestrutura, aos dados, aos riscos e à disponibilidade de talentos qualificados.
O desafio, portanto, deixou de ser apenas comprar tecnologia.
As empresas precisam redesenhar atividades, revisar responsabilidades e definir como humanos e sistemas trabalharão juntos. Caso contrário, a IA pode apenas acelerar processos que já eram ineficientes.
O Mundo RH destacou esse movimento na reportagem “Mercado de TI acelera e redefine talentos em 2026”. A publicação aponta que o domínio técnico isolado perde espaço para profissionais capazes de aplicar tecnologia, compreender o negócio e gerar impacto.
Para profissionais de todas as áreas, acompanhar os processos de automação que atingem a própria função passa a ser uma medida de proteção de carreira.
Quem compreende como o trabalho está mudando pode identificar quais atividades perderão relevância, quais conhecimentos serão valorizados e onde a experiência humana continuará sendo decisiva.
4. Valores pessoais entram na estratégia de carreira
A quarta frente proposta por Bragherolli envolve a revisão dos valores que sustentam a vida profissional.
Remuneração, propósito e aprendizado aparecem como três componentes importantes para a realização de longo prazo. A ausência prolongada de um deles pode produzir desgaste, mesmo em carreiras consideradas bem-sucedidas.
Essa combinação, no entanto, não é igual para todas as pessoas.
Há profissionais que precisam priorizar renda e estabilidade em determinada fase. Outros buscam autonomia, impacto social, tempo com a família ou oportunidades de formação. Também existem momentos em que aceitar uma função menos alinhada ao propósito pode ser uma decisão racional diante de necessidades financeiras.
A revisão dos valores não deve se transformar em uma cobrança para que todo trabalhador encontre uma “missão” em sua ocupação.
Nem toda atividade precisa representar uma vocação. O trabalho também é uma fonte de sustento, segurança e participação econômica.
A questão central está em perceber quando a distância entre os valores pessoais e a realidade profissional começa a comprometer a saúde, a motivação e a continuidade da carreira.
A matéria “Competências atemporais guiam carreiras 2026”, publicada pelo Mundo RH, reforça que consciência, ética, comunicação, resiliência e equilíbrio permanecem relevantes mesmo diante das mudanças tecnológicas.
Para Bragherolli, integrar vida pessoal e trabalho de maneira equilibrada não deve ser tratado como luxo. É uma condição para manter desempenho e longevidade sem transformar crescimento profissional em esgotamento.
Aprendizado deixa de ter linha de chegada
A transformação estimada de 39% das competências reforça que o desenvolvimento profissional deixou de ser uma etapa concentrada no início da carreira.
Diploma, experiência e cargo continuam relevantes, mas já não garantem que uma pessoa permanecerá atualizada durante toda a trajetória.
O aprendizado passa a ocorrer em ciclos mais curtos. Cursos, projetos, comunidades profissionais, mentorias, experiências práticas e contato com diferentes áreas podem participar dessa atualização.
A reportagem “Contratação por skills e IA acelera a próxima década do trabalho”, do Mundo RH, destaca a chamada agilidade de habilidades: a capacidade de desenvolver e aplicar o conhecimento necessário para cada contexto, em vez de depender apenas de qualificações acumuladas no passado.
Essa lógica também pressiona as organizações.
Não basta recomendar que os profissionais aprendam continuamente se a empresa não oferece tempo, acesso e oportunidades para aplicar novos conhecimentos.
O Fórum Econômico Mundial aponta a falta de competências como uma das principais barreiras à transformação dos negócios. A resposta exige investimento em requalificação, mobilidade interna e transições profissionais mais planejadas.
Responsabilidade não pode ficar apenas com o trabalhador
A preparação individual é importante, mas não resolve sozinha os efeitos das mudanças estruturais.
Profissionais podem buscar cursos, desenvolver habilidades e acompanhar tendências. Ainda assim, decisões sobre automação, desenho de cargos, redução de equipes e distribuição dos ganhos de produtividade são tomadas pelas organizações.
A adaptação precisa ser compartilhada.
Ao RH, cabe mapear as competências que serão necessárias, identificar funções em transformação e criar caminhos para que os trabalhadores se movimentem dentro da empresa.
As lideranças precisam permitir experimentação, aprendizado e erro responsável. Uma cultura que exige inovação, mas pune qualquer tentativa que não produza resultado imediato, dificulta a atualização das equipes.
Também é necessário distribuir as oportunidades de capacitação.
Quando apenas executivos, especialistas e profissionais considerados de alto potencial recebem acesso às novas tecnologias, a empresa pode criar uma desigualdade interna de empregabilidade.
O futuro da gestão de pessoas dependerá menos da quantidade de cursos oferecidos e mais da capacidade de conectar aprendizagem, estratégia e oportunidades concretas de trabalho. O Mundo RH aprofundou esse desafio na reportagem “Futuro da gestão de pessoas já pressiona o RH”.
O futuro exigirá técnica e humanidade
O cenário até 2030 não aponta apenas para o desaparecimento de ocupações. Indica a reorganização de funções, o surgimento de novas oportunidades e uma disputa crescente por profissionais capazes de combinar competências tecnológicas, cognitivas e relacionais.
Para Bragherolli, serenidade, agilidade e estratégia devem orientar essa preparação.
A serenidade ajuda a evitar decisões baseadas apenas no medo. A agilidade permite responder às mudanças antes que as competências se tornem insuficientes. A estratégia impede que o profissional acumule cursos e ferramentas sem relação com a direção que pretende dar à carreira.
As quatro frentes propostas pelo especialista não oferecem uma garantia contra demissões, crises econômicas ou transformações tecnológicas.
Elas representam uma forma de ampliar a capacidade de resposta.
Em um mercado no qual os conhecimentos mudam rapidamente, talvez a principal vantagem não esteja em saber antecipadamente todas as respostas.
Estará na capacidade de continuar aprendendo, utilizar a tecnologia com discernimento e preservar aquilo que sustenta qualquer organização: a responsabilidade e a inteligência humana.
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