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Indústria frágil, fiscal frouxo: uma ameaça ao crescimento potencial do Brasil
Contração no investimento produtivo e risco ao crescimento futuro do Brasil
Os números da produção industrial dos cinco primeiros meses do ano confirmam um processo de estabilização da atividade, mas também revelam um quadro que deveria preocupar quem analisa a economia brasileira para além do curto prazo.
No acumulado de 12 meses, a indústria extrativa perde dinamismo, enquanto a indústria de transformação se mantém praticamente estagnada – sem sinais consistentes de retomada.
O aspecto mais preocupante aparece na abertura por categorias de uso.
A produção de bens de capital — indicador associado aos investimentos em máquinas, equipamentos e ampliação da capacidade produtiva — recuou 4,8% entre janeiro e maio, em comparação ao mesmo período de 2025. A deterioração se intensifica na margem anual. Em maio, a queda foi de 6,7% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Esse movimento, que não se mostra pontual, é corroborado pelo Consumo Aparente de Bens de Capital, calculado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que registrou retração de 19,5% em maio e acumula queda de 15% no ano.
Em conjunto, os dois indicadores apontam à mesma conclusão: o investimento produtivo no Brasil passa por um ciclo expressivo de contração.
Na direção oposta, os bens de consumo duráveis apresentam um comportamento que também merece atenção. Embora ainda acumulem queda de 1% no ano, avançaram 1,5% em maio na comparação interanual, resultado estimulado quase integralmente pela expansão do crédito, sobretudo no mercado automobilístico.
Em outras palavras, o consumo das famílias continua respondendo a estímulos financeiros e aos programas de crédito subsidiado, enquanto o investimento empresarial segue enfraquecido. Essa dissociação entre consumo financiado e formação de capital é típica de economias que sustentam o crescimento no curto prazo às custas da expansão futura da capacidade produtiva.
Outro indicador, menos debatido, reforça esse diagnóstico — a emissão primária de ações atingiu o menor nível da última década. Quando as empresas deixam de recorrer ao mercado de capitais para financiar projetos de expansão, o sinal é de que as expectativas de retorno se deterioraram. Esse comportamento reflete, em grande medida, o ambiente de juros elevados e a persistente incerteza em torno da trajetória fiscal. E esse é o ponto central da discussão. Se a taxa de juros permanecer em níveis restritivos por um período prolongado e a política fiscal continuar sem oferecer uma trajetória crível de consolidação, o custo do capital permanecerá elevado e os incentivos ao investimento produtivo continuarão limitados. Trata-se de um problema que vai além do ciclo econômico.
O investimento em bens de capital é o principal mecanismo de ampliação do produto potencial de uma economia, ao viabilizar a construção de novas plantas industriais, a modernização dos processos produtivos, a incorporação de tecnologia e os ganhos de produtividade. Em última instância, é esse processo que determina quanto um país pode crescer de forma sustentada, sem pressionar a inflação. Quando esse investimento recua de maneira persistente, compromete-se não apenas o desempenho do presente, mas também a capacidade de crescimento dos próximos anos.
O risco, portanto, é que o Brasil esteja substituindo crescimento estrutural por estímulos conjunturais ao consumo. Enquanto as famílias são incentivadas a gastarem por meio da expansão do crédito, o motor responsável por elevar a capacidade produtiva da economia perde força mês após mês. Reverter essa trajetória exigiria uma combinação que, por ora, permanece distante: uma redução consistente da taxa de juros, sustentada por uma política fiscal capaz de reduzir a incerteza e restabelecer a confiança dos investidores.
Até que esse ambiente se consolide, a estabilização observada na produção industrial deve ser interpretada menos como um sinal de equilíbrio e mais como o reflexo de uma economia que investe cada vez menos no próprio futuro — um custo que tende a se tornar evidente apenas quando sua reversão exigir ajustes muito mais dolorosos.
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