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Competências fora do trabalho ganham valor na carreira
Parentalidade, voluntariado, esportes e projetos pessoais podem desenvolver habilidades valorizadas pelas empresas, mas ainda encontram pouco espaço nos currículos e processos seletivos
A experiência profissional formal continua sendo um dos principais critérios utilizados pelas empresas para avaliar candidatos. No entanto, atividades realizadas fora do ambiente corporativo também podem contribuir para o desenvolvimento de competências como organização, gestão do tempo, comunicação, adaptabilidade e inteligência emocional.
Parentalidade, trabalho voluntário, prática esportiva, empreendedorismo, participação em projetos comunitários e cuidados familiares são exemplos de vivências que exigem responsabilidade, tomada de decisão e capacidade de lidar com imprevistos. Apesar disso, esses aprendizados nem sempre aparecem nos currículos ou recebem atenção durante as entrevistas.
Para Kauã Leandro, gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil, o mercado avançou na valorização das competências comportamentais, mas ainda precisa ampliar a compreensão sobre os contextos nos quais elas são desenvolvidas.
“Durante muito tempo, a carreira foi avaliada principalmente com base na formação acadêmica e na experiência profissional formal. Hoje, as empresas buscam competências como adaptabilidade, organização, comunicação e inteligência emocional, que podem ser desenvolvidas em diferentes contextos da vida”, afirma.
Parentalidade também desenvolve competências
Uma pesquisa publicada em 2023 pela IU International University of Applied Sciences, da Alemanha, ajuda a dimensionar essa relação. O estudo ouviu 4.480 trabalhadores e analisou, entre outros aspectos, as habilidades que pais e mães associam à experiência da parentalidade.
Entre as mulheres entrevistadas, 54,4% apontaram fortalecimento da capacidade de organização, enquanto 51% mencionaram a gestão do tempo. Também apareceram paciência, citada por 46,2%, capacidade de lidar com o estresse, com 43,3%, senso de responsabilidade, com 40,7%, empatia, com 37,4%, e flexibilidade, com 37,2%.
Os homens também reconheceram ganhos, embora em percentuais menores: 41,1% citaram organização, 41% gestão do tempo e 43,2% paciência. A pesquisa também identificou diferenças relevantes entre homens e mulheres na divisão dos cuidados e nos impactos da parentalidade sobre a carreira.
Os resultados são baseados na percepção dos próprios participantes e, isoladamente, não comprovam desempenho superior no trabalho. Ainda assim, indicam que responsabilidades pessoais podem funcionar como espaços de aprendizagem e desenvolvimento comportamental.
“Quando analisamos as habilidades procuradas pelo mercado, percebemos que muitas delas são construídas em situações cotidianas que exigem responsabilidade, resolução de problemas e adaptação constante. Essas competências não surgem exclusivamente dentro das organizações”, observa Leandro.
Experiência pessoal precisa ser traduzida
Um dos obstáculos para o reconhecimento dessas habilidades está na forma como elas são apresentadas. Informar apenas que pratica um esporte, realiza trabalho voluntário ou cuida de familiares não demonstra, por si só, que determinada competência foi desenvolvida.
O candidato precisa explicar o contexto, as responsabilidades assumidas, as dificuldades enfrentadas e os resultados alcançados. Uma pessoa que coordenou uma ação comunitária, por exemplo, pode demonstrar planejamento, negociação e liderança ao detalhar como mobilizou participantes, organizou recursos e resolveu problemas.
O mesmo princípio vale para experiências esportivas. A prática pode contribuir para disciplina, persistência e trabalho em equipe, mas essas competências precisam ser ilustradas com situações concretas. O recrutador deve avaliar evidências, evitando tanto ignorar a experiência quanto presumir automaticamente que ela representa domínio de determinada habilidade.
No currículo, essas vivências podem ser incluídas em seções como projetos, voluntariado, atividades complementares ou experiências relevantes. A descrição deve destacar responsabilidades e entregas, sem expor informações pessoais além do necessário.
Recrutamento ainda privilegia trajetórias tradicionais
Boa parte dos processos seletivos continua organizada em torno de cargos anteriores, tempo de experiência, diplomas e certificações. Esses critérios ajudam a comparar candidatos, mas podem limitar a identificação de profissionais com trajetórias não lineares, períodos de afastamento ou menor acesso a oportunidades formais.
Entrevistas estruturadas por competências podem ampliar essa análise ao permitir que o candidato utilize exemplos de diferentes áreas da vida. Em vez de perguntar apenas onde a pessoa trabalhou, o recrutador pode solicitar uma situação na qual ela precisou organizar prioridades, mediar um conflito, aprender rapidamente ou tomar uma decisão sob pressão.
Testes práticos, estudos de caso e critérios de avaliação previamente definidos também ajudam a reduzir a dependência do currículo tradicional. A mudança, entretanto, não significa abandonar conhecimentos técnicos ou requisitos essenciais para a função. O desafio é combinar formação, experiência profissional e repertório pessoal de maneira proporcional às demandas da vaga.
Uma carreira formada por diferentes vivências
A valorização das competências desenvolvidas fora do trabalho acompanha a ampliação do debate sobre aprendizagem contínua. Em um mercado marcado por mudanças tecnológicas e profissionais, a capacidade de transferir conhecimentos de um contexto para outro pode ser tão relevante quanto a origem do aprendizado.
Para os profissionais, reconhecer esse repertório permite apresentar a própria trajetória de forma mais completa. Para as empresas, considerar experiências acadêmicas, profissionais e pessoais pode ampliar o acesso a talentos que não seguem percursos tradicionais.
Essa análise exige critério. Vivências pessoais não substituem automaticamente a experiência exigida para uma função, mas também não deveriam ser descartadas. Quando acompanhadas de exemplos concretos, podem revelar competências que o histórico formal, sozinho, nem sempre consegue mostrar.
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