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Juros elevados e endividamento desaceleram varejo e crescimento da economia
A economia brasileira segue em crescimento, mas em ritmo mais lento. Projeções do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV) da ACSP indicam sinais de desaceleração no varejo e na atividade econômica geral
A economia brasileira continua crescendo, mas em velocidade menor. É o que apontam as projeções do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que identificam sinais consistentes de desaceleração tanto no varejo quanto no desempenho geral da atividade econômica.
Segundo a estimativa, o varejo restrito – indicador que acompanha segmentos tradicionais do comércio – deve continuar perdendo ritmo nos próximos meses, encerrando o segundo trimestre com crescimento anual próximo de 1,7%.
O movimento é atribuído, principalmente, aos efeitos prolongados da taxa de juros elevada e ao alto grau de endividamento das famílias, fatores que reduzem a capacidade de consumo, sobretudo em segmentos mais dependentes de crédito.
“Não estamos diante de um cenário de retração do varejo, mas de uma desaceleração do ritmo de expansão. A economia ainda cresce, mas perdeu intensidade. O consumidor continua comprando, porém está mais seletivo, principalmente nas aquisições de maior valor”, avalia Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP.
Segundo o instituto, os segmentos mais afetados tendem a ser os chamados bens duráveis, como eletrodomésticos, móveis, eletrônicos e outros produtos cuja compra depende mais fortemente de parcelamento ou financiamento.
“Quando os juros permanecem elevados por muito tempo, o crédito fica mais caro e a família naturalmente posterga decisões de consumo. A geladeira, a televisão ou a troca do celular deixam de ser prioridade. O consumidor preserva o essencial e adia o que pode esperar”, explica.
O estudo mostra ainda que a desaceleração não ocorre de forma homogênea. Setores mais ligados ao consumo básico e à renda corrente tendem a apresentar maior resiliência, enquanto áreas mais dependentes do financiamento registram maior volatilidade.
“O brasileiro continua consumindo, mas o padrão de consumo muda. Há uma migração para escolhas mais prudentes, mais racionais, sobretudo em um ambiente em que parte relevante da renda familiar já está comprometida com dívidas”, acrescenta Ruiz de Gamboa.
A perda gradual de dinamismo também aparece nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com o modelo do IEGV/ACSP, a economia brasileira deverá encerrar o segundo trimestre apresentando crescimento anual ao redor de 1,8%.
Embora positivo, o desempenho sinaliza uma trajetória de expansão mais moderada nos próximos trimestres.
“O dado do PIB merece uma leitura cuidadosa. O país continua crescendo. Portanto, não há sinal de recessão no horizonte imediato. Mas há, sim, evidências de uma economia perdendo tração. É um crescimento mais lento e condicionado a fatores que hoje funcionam como freios”, afirma o economista.
Entre esses fatores, o instituto destaca a expectativa de manutenção da taxa Selic em patamar elevado por período prolongado, além das incertezas fiscais, que tendem a reduzir investimentos e ampliar a cautela do setor produtivo.
“Juro alto combate inflação, mas também desacelera atividade econômica. O custo do dinheiro aumenta para empresas e consumidores. Isso afeta investimento, crédito, expansão dos negócios e, inevitavelmente, o consumo”, pondera.
A avaliação da ACSP também aponta que o ambiente internacional segue desafiador, adicionando mais um componente de cautela à economia brasileira.
“O cenário externo ainda inspira atenção e, combinado às incertezas domésticas, reforça um ambiente de maior prudência por parte do empresariado, que precisa de previsibilidade para investir”, acrescenta Ulisses Ruiz de Gamboa.
Apesar do arrefecimento, a entidade destaca que os indicadores ainda apontam para um cenário de crescimento, sustentado por fatores como mercado de trabalho relativamente resiliente e continuidade do consumo essencial.
“O sinal amarelo está aceso, mas não vermelho. O que vemos hoje é uma economia que segue caminhando, porém com menos força. Os próximos meses serão decisivos para entender se essa desaceleração permanecerá gradual ou ganhará intensidade”, conclui.
Inadimplência do consumidor deve alcançar 7,62% em julho
A taxa de inadimplência das pessoas físicas nos recursos livres deve encerrar julho de 2026 em 7,62%, segundo projeção econométrica elaborada pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e pela FIA Business School com base em dados do Banco Central do Brasil. O intervalo projetado para o mês situa-se entre 7,28% e 7,95%, com alta de 0,05 ponto percentual em relação ao último dado oficial divulgado pelo Banco Central, referente a maio de 2026, quando a inadimplência nos recursos livres registrou 7,57%.
A projeção, que utiliza série temporal iniciada em outubro de 2016, aponta tendência de deterioração gradual ao longo do trimestre: para agosto, a estimativa central sobe para 7,67%, com limite superior de 8,14%; em setembro, a média projetada chega a 7,66%, com teto de 8,28%. Considerando a relativa redução do atraso observada em maio, o Ibevar avalia que a inadimplência de julho deve se situar mais próxima do limite inferior do intervalo (7,28%) do que do teto estimado.
Para a inadimplência total de pessoas físicas, segundo Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, que inclui tanto o crédito livre quanto o crédito direcionado: “o dado real de maio de 2026 ficou em 5,62% para atraso e 6,12% para inadimplência. A projeção para julho indica média de 5,58%, com intervalo entre 5,32% e 5,84%, avançando para 5,70% em setembro no cenário médio, com limite superior de 6,12%.”
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