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O talento sumiu ou a empresa espantou?
Entre vagas impossíveis, promessas frágeis e talentos cada vez mais seletivos, o RH é desafiado a provar que atrair e reter pessoas começa muito antes do processo seletivo
Dizem que está difícil encontrar talentos. Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra: será que o talento desapareceu do mercado ou aprendeu a fugir de empresas que ainda confundem contratação com caça ao tesouro?
No RH, a cena se repete como novela das nove. A vaga pede domínio técnico, inteligência emocional, pensamento analítico, comunicação impecável, resiliência, criatividade, inglês avançado, perfil colaborativo, espírito de dono e, de preferência, disponibilidade para começar ontem. Tudo isso embalado em uma remuneração que, muitas vezes, parece ter sido definida em uma reunião onde ninguém teve coragem de abrir o Excel.
Encontrar profissionais com as habilidades certas virou um desafio real. Mas também virou uma desculpa conveniente. É mais fácil dizer que “o mercado não tem gente preparada” do que admitir que muitas empresas ainda não sabem exatamente o que procuram, não desenvolvem quem já está dentro e tratam cultura organizacional como frase bonita no site institucional.
O profissional ideal existe. O problema é que ele também tem LinkedIn, repertório, boletos, ambição e, principalmente, memória. Ele lembra de processos seletivos eternos, retornos que nunca vieram, promessas de crescimento que morreram no onboarding e lideranças que falavam de propósito enquanto cobravam disponibilidade 24 horas por dia.
A retenção, então, virou outro capítulo dessa comédia corporativa. A empresa investe em atração, faz campanha bonita, grava vídeo com música inspiradora, coloca colaborador sorrindo na foto e anuncia que ali “as pessoas estão no centro”. Mas, quando o profissional entra, descobre que o centro é apertado, barulhento e cheio de demandas urgentes.
O RH sabe disso. Aliás, o RH sente isso na pele. É cobrado para atrair talentos em um mercado competitivo, reter profissionais em ambientes muitas vezes pouco saudáveis, formar lideranças que não foram preparadas para liderar e ainda provar, com dados, que gente não é custo, é estratégia. Tudo isso enquanto também tenta sobreviver às próprias reuniões.
A questão é que atração e retenção não são mágicas de recrutamento. São consequência. Talento se atrai com coerência. Se retém com liderança decente, oportunidade real, reconhecimento justo, escuta ativa e ambiente onde o profissional não precise escolher entre entregar resultado e preservar a própria sanidade.
O RH do futuro, que já deveria ser o RH do presente, não pode mais aceitar ser apenas o departamento que “preenche vaga”. Precisa ser a área que questiona a vaga, desafia o perfil, confronta a liderança e pergunta o que ninguém quer ouvir: essa empresa quer mesmo um talento ou quer apenas alguém altamente qualificado, emocionalmente blindado e silenciosamente obediente?
Porque talento não é figurinha rara. Talento existe. O que falta, muitas vezes, é empresa preparada para merecê-lo.
E talvez aí esteja a provocação mais incômoda: antes de reclamar que está difícil contratar, vale olhar para dentro e perguntar se, caso fosse candidato, você aceitaria trabalhar na empresa que está tentando vender para os outros.
Se a resposta vier acompanhada de silêncio, talvez o problema nunca tenha sido o mercado.
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