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O insustentável paradoxo do empreendedorismo no Brasil
É urgente incluir a longevidade nas agendas do setor corporativo, do poder público e das entidades de classe, diante do crescente desequilíbrio entre a criação e o encerramento de milhares de empresas a cada ano
Somos um país que respira empreendedorismo, mas ainda tropeça na continuidade dos negócios. Todos sabemos que abrir empresas nunca foi um problema, mas mantê-las vivas e prósperas continua sendo um desafio estrutural. É preciso discutir amplamente as causas desse paradoxo e buscar soluções, pois estamos falando de um segmento fundamental de nossa economia.
As micro, pequenas e médias empresas, muitas delas familiares, são protagonistas. Dados do Sebrae mostram que elas representam cerca de 97% dos negócios ativos no Brasil, somando mais de 21 milhões de CNPJs. Mais do que números, isso revela uma característica profunda da economia nacional: ela é pulverizada, descentralizada e fortemente ancorada no pequeno empreendedor.
Esse universo responde por 26,5% a 27% do PIB brasileiro e por uma parcela ainda mais expressiva no mercado de trabalho, representando de 50% dos empregos formais e até 80% das novas vagas criadas recentemente. Ou seja, são essas empresas, muitas vezes invisíveis no debate público, que sustentam o dinamismo econômico e social do nosso país.
Assim, é inconcebível o histórico de mortalidade precoce desses negócios. Segundo levantamentos do próprio Sebrae, até 29% dos microempreendedores individuais fecham as portas em até cinco anos, enquanto 21,6% das microempresas e 17% das de pequeno porte também não sobrevivem a esse período. Em alguns setores, como o comércio, o malogrado índice pode ultrapassar 30%. É um ciclo recorrente: entusiasmo na largada, dificuldades na gestão e encerramento precoce.
O Brasil segue abrindo empresas em ritmo acelerado, impulsionado por oportunidades e pelo ímpeto empreendedor de nossa gente. O problema não está na capacidade de começar o negócio, mas na incapacidade de sustentá-lo ao longo do tempo. É aqui que se impõe a boa gestão, um ponto frequentemente negligenciado.
Abro parênteses aqui para salientar o “Custo Brasil” e todos os seus componentes, que criam de fato um ambiente de negócios desafiador. No entanto, grande parte das empresas que fecham não sucumbe por falta de mercado, mas por falhas internas, ausência de planejamento, controle financeiro precário, desconhecimento do próprio fluxo de caixa e decisões tomadas no improviso. No caso das firmas familiares, somam-se problemas adicionais, como mistura entre patrimônio pessoal e empresarial, conflitos de sucessão e falta de clareza de papéis.
Nesse contexto, falar em governança corporativa pode soar, à primeira vista, como algo distante da realidade dos pequenos negócios, mas isso é um erro. Trata-se de estabelecer regras claras, processos definidos e mecanismos de controle e transparência que permitam decisões mais racionais e menos intuitivas. É separar o “dono” do “gestor”, ainda que sejam a mesma pessoa; é criar disciplina onde antes havia improviso.
Na prática, isso significa implementar rotinas simples, mas substantivas, como planejamento estratégico, controle rigoroso de caixa, definição de indicadores de desempenho, acordos societários bem estruturados, conselhos, ainda que informais, que ajudem a qualificar decisões. No caso das empresas familiares, a governança atua como uma ponte entre gerações, reduzindo conflitos e garantindo continuidade.
Não por acaso, estudos sobre mortalidade empresarial apontam que preparo e capacitação em gestão estão diretamente associados à sobrevivência dos negócios. Empresas que nascem de uma oportunidade identificada e não apenas da necessidade tendem a ser mais estruturadas e longevas.
Empreender é um ato de coragem. Fazer as pequenas e microempresas perdurarem é um exercício de método. Num país em que milhões dependem delas para trabalhar, consumir e inovar, aumentar o índice de sua sobrevivência é uma agenda de alta relevância socioeconômica. Por isso, precisamos colocar o tema da longevidade nas pautas de urgências do universo corporativo, do setor público e das entidades de classe, pois se torna cada vez mais insustentável o paradoxo anual entre nascimento e morte de milhares de negócios.
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