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Conflito de interesses lidera riscos éticos nas empresas
Levantamento com mais de 48 mil profissionais sugere que vulnerabilidades corporativas estão mais presentes em situações cotidianas do que em fraudes explícitas
Os maiores riscos à integridade dentro das empresas brasileiras podem estar menos associados a crimes corporativos evidentes e mais relacionados a comportamentos cotidianos frequentemente considerados aceitáveis ou de difícil interpretação. Essa é uma das principais conclusões do estudo “Atlas PIR – Dilemas da Integridade no Brasil”, realizado pela S2 Consultoria com mais de 48 mil profissionais de 449 organizações distribuídas por 13 setores econômicos.
A pesquisa, que foi apresentada durante o congresso Behavioral Science Lab (BEL), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), analisou a capacidade dos profissionais de resistirem a pressões organizacionais que podem influenciar decisões éticas no ambiente de trabalho.
De acordo com o levantamento, conflitos de interesse aparecem como o principal fator de vulnerabilidade ética nas organizações, representando 18,2% dos casos analisados. Em seguida estão o assédio moral, com 16,9%, e o recebimento de presentes e benefícios, com 15,1%.
Os resultados contrastam com a percepção tradicional de risco corporativo, geralmente associada a práticas como desvio de recursos ou sonegação fiscal. No estudo, esses comportamentos apresentaram índices significativamente menores de aceitação ou vulnerabilidade, registrando respectivamente 1% e 0,4%.
As “zonas cinzentas” da integridade
Segundo os pesquisadores, os dados evidenciam a importância de observar situações que não necessariamente configuram crimes, mas que podem comprometer a cultura ética das organizações ao longo do tempo.
O estudo classifica esses cenários como “zonas cinzentas da integridade”, caracterizadas por relações de favorecimento, conflitos de interesse, pressões por resultados, trocas de favores e outras situações que frequentemente geram interpretações ambíguas.
Para Renato Santos, sócio-diretor da S2 Consultoria e doutor em Administração pela PUC-SP, a principal contribuição da pesquisa é demonstrar que os riscos mais relevantes não estão necessariamente nos atos considerados claramente ilícitos.
“O dado mais relevante da pesquisa é perceber que os maiores riscos éticos não aparecem nas fraudes óbvias, mas nas situações que as pessoas conseguem racionalizar no dia a dia. Pequenas concessões acabam sendo normalizadas dentro das organizações”, afirma.
Diferenças entre níveis hierárquicos
O levantamento também identificou diferenças significativas entre os níveis hierárquicos das organizações.
Entre profissionais que atuam em funções operacionais, os principais fatores de vulnerabilidade são assédio moral (23,3%), conflito de interesses (21,8%) e recebimento de presentes (16,8%). Já entre profissionais de nível tático, o vazamento de informações aparece como a principal preocupação, com índice de 22,1%.
Nos níveis mais elevados de liderança, a pesquisa aponta maior exposição a dilemas relacionados a decisões financeiras e riscos de natureza estratégica.
Os resultados sugerem que os desafios éticos variam de acordo com o contexto profissional, exigindo abordagens específicas para cada realidade organizacional.
Vazamento de informações preocupa organizações
Outro ponto de destaque do estudo é a recorrência do vazamento de informações como risco corporativo relevante em diversos setores da economia.
O tema aparece entre os principais fatores de vulnerabilidade em segmentos como indústria, mercado financeiro, logística, comunicação e construção civil.
Para os pesquisadores, o avanço da digitalização dos negócios e o aumento da circulação de dados sensíveis ampliam a importância da governança da informação, transformando a proteção de dados em um dos principais desafios éticos das organizações contemporâneas.
Diferenças entre setores econômicos
A pesquisa também identificou particularidades de acordo com o setor de atuação das empresas.
No comércio e varejo, o assédio moral apresentou o maior índice de vulnerabilidade, alcançando 29,9%. Já no setor de saúde, o conflito de interesses foi o principal fator de risco, com 23,9%.
Na indústria, conflito de interesses e vazamento de informações apareceram praticamente empatados, registrando respectivamente 22,4% e 22,2%.
Os resultados indicam que, embora existam desafios comuns entre diferentes segmentos, cada setor apresenta características específicas que influenciam os dilemas éticos enfrentados pelos profissionais.
Integridade além do compliance tradicional
As conclusões do Atlas PIR reforçam uma discussão cada vez mais presente no ambiente corporativo: a necessidade de ampliar a visão sobre programas de compliance e gestão da integridade.
Segundo os pesquisadores, ações focadas exclusivamente em punições e controles formais podem ser insuficientes para enfrentar comportamentos que surgem em contextos cotidianos e que muitas vezes são socialmente aceitos dentro das organizações.
Nesse sentido, iniciativas voltadas ao fortalecimento da cultura organizacional, à revisão de incentivos internos, ao desenvolvimento da liderança e ao desenho dos ambientes de trabalho tendem a ganhar relevância.
“A pressão cotidiana, as relações de poder e os pequenos desvios normalizados representam riscos muito maiores para a integridade organizacional do que normalmente se imagina”, destaca Renato Santos.
Ao evidenciar a influência do contexto sobre as decisões individuais, o estudo sugere que a construção de ambientes éticos depende não apenas de regras e políticas corporativas, mas também da forma como as organizações estruturam suas relações, lideranças e processos de tomada de decisão.
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