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Apenas 20% dos profissionais estão engajados no trabalho
Especialista afirma que produtividade sustentável depende menos de pressão por resultados e mais de confiança, propósito e segurança psicológica
O engajamento dos profissionais atingiu um dos níveis mais preocupantes dos últimos anos. De acordo com o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, apenas 20% dos trabalhadores no mundo afirmam estar verdadeiramente engajados em suas atividades. O dado revela uma crise silenciosa que afeta diretamente a produtividade, a inovação, a colaboração entre equipes e a competitividade das organizações.
Os reflexos ultrapassam os limites das empresas. Segundo a Gallup, a falta de engajamento gera perdas estimadas em US$ 438 bilhões para a economia global todos os anos. O estudo também aponta que cerca de 70% da variação no engajamento das equipes está diretamente relacionada à atuação das lideranças, reforçando o papel estratégico dos gestores na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos.
Em um cenário marcado por transformações aceleradas, inteligência artificial, mudanças nas relações de trabalho e pressão constante por resultados, empresas buscam fórmulas para elevar a produtividade. No entanto, especialistas alertam que a resposta pode estar menos na cobrança por desempenho e mais na experiência vivida pelos profissionais dentro das organizações.
Para Cris Kerr, CEO da CKZ Diversidade e referência em cultura organizacional, segurança psicológica e liderança inclusiva, os números da Gallup evidenciam uma mudança de paradigma necessária nas empresas.
“Quando apenas uma em cada cinco pessoas está verdadeiramente engajada, estamos diante de um problema que impacta diretamente a competitividade dos negócios. O dado evidencia que a liderança tem um papel decisivo nesse cenário. Não basta investir em tecnologia, processos ou inteligência artificial se as pessoas não se sentem valorizadas, ouvidas e conectadas ao propósito da organização”, afirma.
Reconhecida como uma das pioneiras da agenda de Diversidade, Inclusão, Equidade e Pertencimento (DIEP) no Brasil e responsável pela criação do maior Fórum de Diversidade & Inclusão do país, em 2010, Cris Kerr destaca que muitas organizações ainda concentram seus esforços exclusivamente em indicadores de desempenho, deixando em segundo plano fatores fundamentais para a motivação e o comprometimento das equipes.
“A produtividade sustentável não nasce da pressão constante. Ela é resultado de relações de confiança, reconhecimento, clareza de propósito e ambientes nos quais as pessoas se sintam psicologicamente seguras para contribuir. Quando a liderança cria essas condições, o engajamento cresce e os resultados aparecem naturalmente”, explica.
Segurança psicológica ganha protagonismo
Entre os fatores que mais influenciam o engajamento dos profissionais, a segurança psicológica tem ocupado posição de destaque nas discussões sobre gestão de pessoas.
O conceito se refere à criação de ambientes nos quais colaboradores possam expressar opiniões, fazer perguntas, admitir erros e apresentar ideias sem receio de julgamentos, punições ou constrangimentos.
Segundo Cris Kerr, esse elemento tornou-se essencial para organizações que desejam inovar e se adaptar às rápidas mudanças do mercado.
“Não existe inovação em ambientes marcados pelo medo. A criatividade depende da diversidade de perspectivas, da confiança e da liberdade para experimentar. Quando as pessoas percebem que podem participar genuinamente das decisões, o engajamento aumenta e a empresa se torna mais preparada para enfrentar os desafios do mercado”, afirma.
A especialista ressalta ainda que empresas que investem em culturas organizacionais mais saudáveis costumam apresentar melhores indicadores de retenção de talentos, redução de afastamentos relacionados à saúde mental e fortalecimento da marca empregadora.
Burnout e saúde mental entram definitivamente na agenda corporativa
O avanço dos debates sobre saúde emocional, bem-estar e burnout tem levado organizações a revisarem suas práticas de gestão. Nesse contexto, o desenvolvimento de lideranças mais preparadas para lidar com pessoas tornou-se uma prioridade estratégica.
A expectativa é que o papel dos gestores evolua cada vez mais para além da supervisão de tarefas, incorporando competências relacionadas à escuta ativa, empatia, desenvolvimento humano e construção de ambientes psicologicamente seguros.
Para Cris Kerr, empresas que desejam crescer de forma sustentável precisam compreender que o engajamento não é responsabilidade exclusiva dos colaboradores.
“Engajamento não é um benefício corporativo nem uma responsabilidade individual do colaborador. Ele é consequência da cultura que as organizações constroem diariamente. Quando as pessoas se sentem respeitadas, valorizadas e pertencentes, os resultados aparecem para todos: profissionais, lideranças e negócios”, destaca.
Quatro caminhos para fortalecer o engajamento
Com base em sua experiência em cultura organizacional e liderança inclusiva, Cris Kerr aponta quatro iniciativas capazes de ajudar empresas a enfrentar a crise de engajamento revelada pela Gallup:
1. Desenvolver lideranças mais humanizadas
Gestores preparados para escutar, apoiar, reconhecer e desenvolver pessoas fortalecem o senso de pertencimento e aumentam o comprometimento das equipes.
2. Construir ambientes com segurança psicológica
Criar espaços de diálogo aberto e escuta ativa favorece a participação, a troca de ideias e a colaboração.
3. Reconhecer diferentes contribuições
Práticas consistentes de reconhecimento e feedback ajudam a valorizar talentos e fortalecer os vínculos entre profissionais e organização.
4. Equilibrar desempenho e bem-estar
A busca por resultados deve caminhar lado a lado com iniciativas voltadas à saúde mental, à qualidade das relações e à sustentabilidade do trabalho.
O verdadeiro diferencial competitivo
Em um momento em que a inteligência artificial avança rapidamente e transforma processos em praticamente todos os setores da economia, a discussão sobre engajamento ganha ainda mais relevância.
Embora a tecnologia seja uma importante aliada para aumentar eficiência e produtividade, especialistas alertam que ela não substitui a capacidade das empresas de criar ambientes onde as pessoas desejem permanecer, evoluir e contribuir.
Afinal, enquanto ferramentas podem ser adquiridas por qualquer organização, culturas fortes, lideranças inspiradoras e equipes engajadas continuam sendo ativos difíceis de replicar — e cada vez mais decisivos para o sucesso dos negócios.
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