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Livros questionam cultura da performance e a epidemia do cansaço
Novos livros discutem liderança, hiperprodutividade e autoconhecimento em um cenário marcado pela exaustão contemporânea
Existe uma palavra que parece habitar, com crescente insistência, as conversas sobre trabalho, gestão e vida contemporânea. Ela aparece nos corredores das empresas, nas consultas médicas, nas mensagens de voz enviadas tarde da noite. Essa palavra é exaustão. Não o cansaço físico de quem terminou uma tarefa pesada, mas um esgotamento mais difuso, que mistura pressão por desempenho, perda de sentido e a sensação de que algo, em algum lugar, não fecha.
Três livros lançados recentemente no Brasil partem desse mesmo diagnóstico para propor saídas distintas, complementares e igualmente urgentes. Juntos, eles formam um retrato bastante preciso do mal-estar que atravessa as relações de trabalho no País.
Em “Procura-se: Uma nova liderança para um novo tempo” (Editora Record, 176 páginas, R$ 59,90), a psicanalista e pesquisadora da USP Maria Homem parte de uma constatação: o modelo de liderança que herdamos do século passado entrou em colapso. O líder que sabe tudo, controla tudo e tem todas as respostas não corresponde mais à realidade de nenhuma organização viva. O problema é que muita gente ainda tenta ser esse líder, ou ainda espera encontrá-lo.
A autora, que já foi colunista na “Folha de São Paulo” e no “Valor Econômico” e palestrou em Harvard e no MIT, propõe algo que soa simples mas é profundamente contracultural: humanizar radicalmente a posição de liderança. Isso significa aceitar os próprios limites, abandonar a fantasia do super-herói corporativo e entender que liderar, em sua origem mais arcaica, é antes de tudo um ato de mediação, não de domínio.
A análise combina psicanálise, filosofia e história, e avança sobre um terreno que muitos manuais de gestão evitam: o da subjetividade. Para Maria Homem, o líder que não se conhece produz dano. E o mundo do trabalho está cheio de líderes que nunca pararam para se perguntar quem são fora do cargo.
Cansaço como sintoma
Se Maria Homem fala para quem lidera, o psicólogo Lucas Freire mira uma plateia mais ampla em “Exaustos: Imaginando saídas para o cansaço diário” (Buzz Editora, 208 páginas, R$ 69,90). O livro, lançado em novembro de 2025, é ao mesmo tempo ensaio, manifesto e crítica social. Seu ponto de partida é incômodo: e se o cansaço que sentimos não for um problema individual a ser resolvido com técnicas de autocuidado, mas um sintoma estrutural de um modo de vida baseado em controle, hiperprodutividade e vigilância emocional constante?
Professor da UFBA e criador do método Playfulness, Freire propõe uma saída que pode soar paradoxal: o brincar. Não o brincar domesticado pelo wellness corporativo, mas o play como prática crítica, como forma de escapar da lógica da eficiência e reencontrar leveza, sentido e liberdade. A obra dialoga diretamente com referências como “Sociedade do Cansaço”, de Byung-Chul Han, mas tem uma linguagem mais acessível e um tom de urgência que poucos ensaios acadêmicos conseguem sustentar.
A vida que passa
O terceiro livro do conjunto chega de um lugar inesperado. Kleber Faria Sales é um profissional de Sistemas de Informação com quase três décadas de carreira técnica. Em “Ser, Além de Existir” (110 páginas, R$ 50,00), ele reúne crônicas reflexivas que nasceram de um período de retomada da escrita e falam sobre algo que os outros dois livros também tocam, mas raramente nomeiam com tanta simplicidade: a diferença entre existir e viver de fato.
Com imagens cotidianas, como viagens, sementes que se partem para florescer e paisagens que passam rápido demais, Sales constrói um convite ao autoconhecimento que não exige formação em filosofia nem cargo de liderança. É uma leitura para qualquer pessoa que, em algum momento, teve a sensação de estar vivendo no automático, cumprindo tarefas e acumulando dias sem saber muito bem para quê.
Os três autores recusam fórmulas prontas. Nenhum deles entrega um checklist de cinco passos para ser mais produtivo, mais feliz ou mais eficiente. Pelo contrário, os três apostam que a transformação real começa exatamente quando a pessoa para de buscar esses atalhos e aceita a desconfortável tarefa de se olhar com honestidade.
Em um momento em que o mercado editorial é inundado de títulos de autoajuda rápida, esses três livros fazem um movimento diferente: pedem ao leitor que desacelere, que questione e que assuma a própria humanidade em toda a sua complexidade. Numa cultura obcecada por performance, isso é, em si, um ato de resistência.
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