Escrituração segregada, movimentação financeira e apuração tributária precisam permitir a identificação das operações de cada incorporação
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Três cláusulas contratuais que toda empresa precisa revisar em 2026
Responsabilidade, juros e tecnologia: contratos empresariais antigos podem esconder riscos financeiros, jurídicos e operacionais relevantes
Muitas empresas só percebem a importância de uma cláusula contratual quando o problema já está instalado: uma indenização significativa, um longo período de inadimplência, uma rescisão litigiosa, a perda de um fornecedor estratégico ou até a paralisação de um serviço essencial. Nesses momentos, o contrato deixa de ser apenas um documento arquivado e se transforma no principal instrumento para responder a questões decisivas para o negócio: quem assumiu determinado risco? Qual será o custo do descumprimento? Existe limite para a indenização? Qual índice será utilizado para corrigir a dívida? Quem será responsabilizado por uma falha tecnológica, um vazamento de dados ou uma decisão automatizada equivocada?
A resposta para essas perguntas raramente está apenas na legislação. Nos contratos empresariais, ela costuma estar na forma como as partes distribuíram riscos, responsabilidades, encargos financeiros e obrigações operacionais. Essa questão se torna ainda mais relevante em contratos de maior impacto econômico, como os de prestação de serviços continuados, fornecimento de insumos estratégicos, desenvolvimento ou licenciamento de tecnologia, armazenamento em nuvem, tratamento de dados, terceirização de atividades operacionais e parcerias comerciais de longo prazo.
Três grupos de cláusulas merecem atenção especial das empresas em 2026: limitação de responsabilidade, juros e atualização monetária, além das disposições relacionadas à tecnologia, dados e inteligência artificial. As cláusulas de limitação de responsabilidade figuram entre os pontos mais sensíveis das negociações contratuais. De um lado, o contratante busca preservar o direito à reparação integral em caso de descumprimento. Em contrapartida, o contratado procura conhecer previamente os limites econômicos do risco assumido, especialmente quando o preço do contrato foi definido com base nessa matriz de riscos.
Não se trata apenas de “pagar menos” em caso de inadimplemento.
É importante estabelecer, de forma clara e objetiva, quais danos poderão ser indenizados, se haverá teto de responsabilidade e se lucros cessantes e danos indiretos estarão incluídos ou excluídos. Também é necessário definir quais situações ficarão fora dessa limitação, como dolo, culpa grave, violação de confidencialidade, infrações à propriedade intelectual, descumprimento de obrigações de proteção de dados ou outros atos ilícitos específicos.
Nos últimos anos, essa discussão passou a ser analisada sob uma perspectiva mais favorável à autonomia privada nos contratos empresariais celebrados entre partes em condição de equilíbrio. A Lei da Liberdade Econômica reforçou, nos contratos civis e empresariais, a presunção de paridade e simetria entre as partes, o respeito à alocação de riscos definida contratualmente e o caráter excepcional da revisão contratual.
Na mesma direção, precedente recente do STJ reconheceu a validade de cláusula limitativa de responsabilidade em contrato empresarial firmado entre empresas, destacando a relevância da vontade das partes e a inexistência de vulnerabilidade presumida nesse tipo de relação. Isso não eliminou princípios como a boa-fé objetiva, a função social do contrato e o equilíbrio contratual, mas alterou significativamente o ponto de partida da interpretação em muitas relações empresariais.
A consequência prática é evidente: cláusulas genéricas, reproduzidas de modelos antigos, podem não refletir adequadamente os riscos econômicos envolvidos. Mais do que isso, podem transmitir uma falsa sensação de proteção.
Outro aspecto que merece revisão imediata está nas cláusulas financeiras. A Lei 14.905/2024 modificou a disciplina da atualização monetária e dos juros no Código Civil, especialmente para situações em que o contrato seja omisso, incompleto ou utilize critérios pouco precisos.
Em contratos de fornecimento, prestação de serviços, confissão de dívida, compra e venda parcelada ou relações continuadas, a definição do índice de atualização, da taxa de juros, da multa e da metodologia de cálculo pode alterar significativamente o valor econômico de uma cobrança, de uma obrigação ou de uma contingência.
Por isso, a cláusula financeira não deve ser tratada como mero detalhe operacional. Ela pode determinar o custo real do inadimplemento, a atratividade de uma negociação, o risco de judicialização e até mesmo a viabilidade econômica da relação contratual.
A transformação digital impõe novos desafios contratuais
E quanto aos contratos digitais? Ou àqueles que envolvem softwares, plataformas, armazenamento em nuvem, automação, inteligência artificial, tratamento de dados e integração de sistemas?
Nesses casos, a discussão vai muito além da simples entrega do serviço. É necessário definir quem responderá por indisponibilidades, vazamentos de dados, uso indevido de informações, subcontratações, falhas de segurança, violações de propriedade intelectual, utilização de dados para treinamento de modelos e decisões automatizadas que possam gerar prejuízos.
Em maior ou menor grau, praticamente toda operação empresarial depende hoje de tecnologia, dados e exposição digital. Ainda assim, muitas empresas continuam utilizando contratos concebidos para prestações de serviços tradicionais, sem regular adequadamente riscos operacionais, regulatórios e reputacionais próprios do ambiente digital. A complexidade aumenta quando há uma cadeia de fornecedores, subcontratados, plataformas integradas e terceiros que acessam, armazenam ou processam informações relevantes da operação.
O risco, portanto, não está apenas na ausência de contrato, mas também na existência de um contrato desatualizado, genérico ou incompatível com a realidade operacional da empresa. A empresa pode acreditar que está protegida pelo contrato, quando, na prática, apenas formalizou riscos que não compreendeu.
Revisar contratos, portanto, não é apenas evitar litígios. É proteger margem, previsibilidade e continuidade operacional. Afinal, a validade formal de um contrato não garante, por si só, que ele esteja preparado para enfrentar os riscos que hoje cercam a atividade empresarial.
Contrato não é burocracia. É gestão de risco.
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