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O maior desafio das empresas já não é reter talentos - é formar os próximos
As empresas estão descobrindo que o maior risco não é perder talentos é não conseguir desenvolvê-los
Empresas reclamam da falta de profissionais qualificados. Profissionais reclamam da falta de oportunidades para aprender.
Entre uma queixa e outra, começa a surgir um problema que pode se tornar um dos maiores gargalos do mercado de trabalho nos próximos anos.
Um levantamento global da Rimini Street mostra que 98% dos executivos afirmam que a escassez de talentos afeta seus planos de inovação.
Além disso, 36% dizem que a falta de profissionais limita oportunidades de crescimento, enquanto 35% relatam aumento da sobrecarga das equipes.
Outros 35% apontam vulnerabilidades técnicas decorrentes da falta de mão de obra especializada.
Tradicionalmente, esse tipo de diagnóstico é interpretado como um problema de recrutamento.
Mas um conjunto de estudos recentes sugere que a questão pode estar também na dificuldade de desenvolver pessoas dentro das próprias organizações.
A conta da falta de formação começou a chegar
Nos últimos anos, empresas investiram pesadamente em tecnologia, automação e inteligência artificial. Ao mesmo tempo, reduziram estruturas de treinamento, aceleraram processos e passaram a exigir adaptação constante dos profissionais.
O resultado é que a necessidade de qualificação cresce mais rápido do que a capacidade de formação.
Uma pesquisa recente da Hashtag Treinamentos ajuda a ilustrar esse cenário.
O levantamento ouviu 5.569 profissionais e revelou que apenas 20,6% percebem investimento claro em inteligência artificial dentro das organizações onde trabalham.
Outros 34,9% afirmam não identificar qualquer investimento relevante na área.
Além disso, 20,4% dizem que suas empresas disponibilizam ferramentas de IA, mas sem treinamento adequado. Outros 13,1% relatam apenas iniciativas pontuais de capacitação.
Talvez o dado mais preocupante seja outro: 40,8% dos profissionais afirmam estar pouco ou nada preparados para lidar com as transformações tecnológicas que estão remodelando suas carreiras.
“Muitos profissionais já perceberam que precisam aprender a usar IA para acompanhar as mudanças do mercado. Mas, dentro das empresas, esse movimento precisa deixar de ser improvisado”, afirma João Paulo Martins, sócio-fundador da Hashtag.
“O uso produtivo da tecnologia depende de repertório, treinamento e clareza sobre onde a IA realmente gera valor”, complementa.
Na prática, muitos trabalhadores estão tentando aprender sozinhos habilidades que passaram a ser consideradas estratégicas.
Os números sugerem que a adoção da inteligência artificial está avançando mais rapidamente do que os programas de capacitação.
Em muitas organizações, os profissionais já experimentam ferramentas por conta própria, enquanto políticas, treinamentos e processos ainda estão sendo desenhados.
Escassez de talentos começa antes da contratação
Os dados da Rimini Street mostram que a falta de profissionais qualificados deixou de ser um problema restrito ao RH e passou a afetar diretamente a estratégia das empresas.
Quando 98% dos executivos afirmam que a escassez de talentos compromete seus planos de inovação, o tema deixa de ser uma questão operacional e passa a impactar crescimento, competitividade e transformação digital.
Mas a própria definição de “escassez” começa a ser questionada.
Em muitos casos, não faltam apenas profissionais prontos. Faltam mecanismos para prepará-los.
Essa percepção aparece também em outro estudo recente, conduzido pelo Federal Reserve de Nova York.
A pesquisa identificou que jovens recém-formados vêm encontrando mais dificuldades para ingressar em ocupações compatíveis com trabalho remoto.
Entre profissionais de 22 a 27 anos, a taxa de desemprego atingiu 5,8% em 2025, o maior nível fora da pandemia desde 2012.
A principal explicação apontada pelos pesquisadores não foi falta de interesse dos jovens nem substituição por inteligência artificial.
O estudo concluiu que muitas empresas encontram mais dificuldade para treinar, orientar e desenvolver profissionais sem experiência em ambientes predominantemente remotos.
O resultado é um paradoxo: organizações afirmam que faltam talentos, enquanto jovens relatam dificuldades para encontrar oportunidades de desenvolvimento.
A formação voltou ao centro da discussão
Os sinais dessa mudança aparecem em diferentes pesquisas sobre mercado de trabalho.
Dados recentes da Gupy mostram que as vagas 100% remotas permaneceram abaixo da média pré-pandemia por sete meses consecutivos.
O movimento sugere uma reavaliação das políticas de trabalho adotadas nos anos seguintes à pandemia.
Embora o debate público sobre retorno ao escritório frequentemente se concentre em produtividade ou controle, estudos recentes apontam outro fator: aprendizagem.
Boa parte do desenvolvimento profissional acontece de forma informal, por meio da observação de colegas mais experientes, trocas espontâneas, feedbacks imediatos e convivência cotidiana.
São elementos difíceis de reproduzir integralmente em ambientes digitais.
A própria Gupy identificou crescimento de 24% nas ações presenciais de capacitação realizadas pelas empresas ao longo de 2024, sinalizando que o desenvolvimento de pessoas voltou a ganhar espaço na agenda corporativa.
O movimento coincide com um cenário em que organizações buscam acelerar projetos de transformação digital, enquanto trabalhadores ainda tentam acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas.
Quem está formando os profissionais de amanhã?
A dificuldade de encontrar talentos qualificados costuma ser tratada como um problema externo às organizações.
Mas os números começam a indicar uma realidade mais complexa.
Enquanto 98% dos executivos relatam impacto da escassez de talentos em seus planos de inovação, 40,8% dos profissionais afirmam não estar preparados para lidar com as transformações tecnológicas em curso.
Enquanto empresas reclamam da falta de especialistas, milhões de trabalhadores buscam desenvolver competências por conta própria.
Nesse contexto, a escassez de talentos pode ser também um reflexo da escassez de formação.
A inteligência artificial, a transformação digital e as mudanças aceleradas nas exigências do mercado tornaram o desenvolvimento profissional mais importante do que nunca.
Por isso, o desafio que emerge para os próximos anos parece diferente daquele que dominou a agenda corporativa na última década.
Atrair talentos continuará sendo relevante. Mas as empresas começam a descobrir que o maior risco talvez não seja perder os profissionais que já possuem — e sim não conseguir formar aqueles de que precisarão amanhã.
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