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Os impactos da liderança na própria saúde mental
Estudo revela que falta de preparo, excesso de responsabilidades e baixa prioridade para o desenvolvimento de lideranças estão aumentando o desgaste emocional de gestores nas empresas brasileiras
Durante décadas, alcançar um cargo de liderança foi considerado um dos principais símbolos de sucesso profissional. Hoje, no entanto, a posição que representa reconhecimento e crescimento na carreira também tem se tornado fonte de estresse, sobrecarga e adoecimento emocional.
Um estudo realizado pela Conquer In Company, unidade de treinamentos corporativos da escola de negócios Conquer, revela um cenário preocupante para as organizações brasileiras: sete em cada dez líderes já cogitaram abandonar a função devido aos impactos na própria saúde mental.
A pesquisa ouviu 400 líderes e 350 profissionais de Recursos Humanos de diferentes regiões e setores econômicos do país para compreender os principais desafios enfrentados pelas lideranças no ambiente corporativo atual.
Os resultados mostram que o problema vai além da pressão por resultados. A combinação entre excesso de responsabilidades, falta de preparo para o cargo e escassez de investimentos em desenvolvimento de lideranças está criando um ambiente de desgaste crescente para quem ocupa posições de gestão.
Pressão constante faz parte da rotina da liderança
Segundo o levantamento, 88% dos líderes afirmam trabalhar sob pressão constante. Entre eles, 44,6% classificam essa pressão como alta ou extrema.
Os efeitos aparecem diretamente na saúde e no bem-estar desses profissionais. Cansaço mental, esgotamento emocional, estresse frequente e dificuldade para se desconectar do trabalho estão entre os sintomas mais relatados.
Os dados revelam ainda que nove em cada dez líderes convivem diariamente com níveis elevados de cobrança, enquanto 70% já pensaram em deixar a posição devido aos impactos emocionais causados pela função.
Para especialistas, os números refletem uma transformação no papel da liderança. Além de entregar resultados, os gestores precisam desenvolver pessoas, lidar com conflitos, conduzir mudanças organizacionais, manter equipes engajadas e responder rapidamente às constantes transformações do mercado.
Desenvolver pessoas se tornou um dos maiores desafios
Entre as atribuições que mais geram pressão, duas aparecem no topo da lista: desenvolver pessoas e gerenciar conflitos, citadas por 58% dos entrevistados, mesmo percentual registrado para a necessidade de equilibrar estratégia e operação.
Logo em seguida aparece a gestão das mudanças organizacionais, mencionada por 44% dos participantes.
Embora o desenvolvimento de equipes seja considerado uma das principais responsabilidades da liderança moderna, muitos gestores relatam não possuir condições adequadas para exercer esse papel.
Entre aqueles que encontram dificuldades para desenvolver seus times, 20,9% apontam a falta de tempo como principal obstáculo. Outros 17,1% citam a ausência de ferramentas e processos adequados oferecidos pela empresa, enquanto 15,6% mencionam o baixo engajamento das equipes.
Na prática, isso significa que uma das funções mais estratégicas da liderança está se tornando também uma das maiores fontes de desgaste profissional.
Líderes aprendem a liderar na prática
O estudo também evidencia uma fragilidade estrutural presente em muitas organizações brasileiras: a promoção de profissionais para cargos de gestão sem a preparação necessária.
Segundo a pesquisa, 78% dos líderes afirmam ter assumido a posição sem formação suficiente para exercer a função, aprendendo a liderar apenas na vivência diária dos desafios corporativos.
Os reflexos dessa realidade aparecem em diferentes aspectos da gestão. Quase nove em cada dez líderes admitem conduzir processos de mudança sem a clareza necessária em determinados momentos, enquanto 63% acreditam que a capacitação de lideranças recebe pouca atenção dentro das próprias empresas.
Para Giovana Chimentão, Diretora de Educação da Conquer In Company, ainda existe uma visão equivocada nas organizações sobre o que significa liderar.
“Existe uma percepção de que bons profissionais naturalmente se tornam bons líderes. Mas liderança não é um talento inato. É uma competência que exige desenvolvimento contínuo, aprendizado e prática. Quando as responsabilidades aumentam sem que haja preparação adequada, a sobrecarga e o desgaste tornam-se inevitáveis”, afirma.
RH confirma baixa prioridade para a formação de gestores
A percepção dos líderes encontra respaldo na visão dos profissionais de Recursos Humanos.
Entre os 350 especialistas de RH ouvidos pela pesquisa, 58,4% afirmam que os investimentos em desenvolvimento de lideranças são inexistentes ou insuficientes dentro de suas organizações.
Segundo os entrevistados, a baixa prioridade dada ao tema está relacionada principalmente à falta de tempo para treinamentos e a culturas organizacionais pouco voltadas ao desenvolvimento contínuo.
Como consequência, mais da metade dos profissionais de RH (54,1%) avalia que os líderes conseguem atender apenas parcialmente às exigências dos cargos que ocupam. Outros 34,6% classificam a capacidade das lideranças como baixa ou muito baixa para lidar com situações mais complexas.
Os dados acendem um alerta para as empresas, especialmente em um momento em que as organizações enfrentam desafios relacionados à transformação digital, retenção de talentos, mudanças geracionais e aumento das demandas por saúde mental no trabalho.
Formação de líderes se torna prioridade estratégica
O estudo reforça uma tendência cada vez mais presente nas agendas corporativas: investir no desenvolvimento de lideranças deixou de ser uma ação complementar e passou a ser uma necessidade estratégica.
Em um contexto em que os afastamentos por transtornos mentais atingiram 546.254 casos no Brasil — o maior número da última década, segundo dados da Previdência Social — preparar gestores para lidar com pessoas, conflitos, mudanças e pressão tornou-se fundamental para a sustentabilidade dos negócios.
Mais do que formar profissionais capazes de entregar resultados, as empresas precisam desenvolver líderes preparados para construir ambientes saudáveis, engajar equipes e conduzir transformações sem comprometer a própria saúde.
Afinal, quando a liderança adoece, os impactos ultrapassam o indivíduo e alcançam toda a organização, afetando produtividade, clima interno, retenção de talentos e resultados de longo prazo.
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