A Receita Federal, o Comitê Gestor do IBS e o Encat publicaram, nesta terça-feira (2.jun.2026), a Nota Técnica 2025.002-RTC – Versão 1.50, com atualizações na NFe e na NFCe
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Notícia
A IA já está dentro do sistema financeiro, mas quem irá vigiá-la?
Enquanto bancos aceleram investimentos bilionários em tecnologia, o BC ainda não tem regras específicas para o uso de IA no setor financeiro
Existe uma decisão que vai mudar a sua relação com o dinheiro — e ela provavelmente já foi tomada por uma máquina, sem que você saiba, sem que ninguém precisasse explicar e sem recurso imediato se estiver errada.
Não estou falando de futuro. Estou falando de agora.
Hoje, uma inteligência artificial decide se você recebe cartão de crédito, qual taxa de financiamento vai aparecer na sua tela, se a sua transferência via Pix vai ser bloqueada como suspeita. Decide se você é um bom pagador, um risco controlável ou um cliente que o banco prefere não ter.
Essas decisões afetam a vida real de pessoas reais. E elas são tomadas por algoritmos que, no Brasil de 2026, ninguém é obrigado a explicar.
O dinheiro virou algoritmo
Em 2025, os bancos brasileiros investiram R$ 47,8 bilhões em tecnologia — parte expressiva direcionada a soluções de IA, big data e analytics, segundo a ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software).
O Pix é o símbolo mais evidente dessa virada: em dezembro de 2025, o sistema registrou 313,3 milhões de transações em um único dia, segundo o BC. 82% das transações bancárias no Brasil já acontecem por canais digitais, conforme a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, realizada pela Deloitte.
Nesse volume, nenhum humano conseguiria fazer o que a IA faz: analisar padrões de comportamento em tempo real, detectar anomalias, bloquear fraudes antes que o cliente perceba o problema, calcular risco de crédito com centenas de variáveis simultaneamente.
A palavra que muda tudo: explicabilidade
Quando um banco te nega crédito, você tem direito de saber por quê. Mas quando a negativa vem de um algoritmo, a explicação raramente vem junto.
É exatamente aí que o debate regulatório mais urgente do sistema financeiro brasileiro está travado.
O BC incluiu na sua agenda de prioridades para o biênio 2025/2026 o estudo dos riscos e impactos do uso de inteligência artificial no sistema financeiro.
Em setembro de 2025, o chefe de Regulação do Sistema Financeiro do BC, Antonio Guimarães, foi direto ao ponto em entrevista durante o Finance of Tomorrow: não haverá regra específica para IA antes do fim de 2026. "Estamos conversando com o mercado para entender o que estão fazendo e quais são os principais desafios", afirmou.
Explicabilidade é o princípio de que toda decisão automatizada que afete um cidadão precisa ter uma razão auditável, verificável, contestável. Esse é um direito civilizatório — e o Brasil ainda não o garantiu formalmente.
O Banco Central, por sua vez, publicou em 2023 um Relatório de Avaliação de Impacto Regulatório sobre IA no sistema financeiro, sinalizando elementos que deverão compor uma futura norma: exigência formal de explicabilidade mínima para modelos de decisão de crédito, avaliação de impacto algorítmico, requisitos de diversidade nos dados de treinamento, validação independente de modelos e inventário obrigatório de sistemas de IA em uso.
O caminho está sendo construído. O problema é o tempo que leva e o quanto o sistema já avançou enquanto a regulação ainda debate os fundamentos.
Wall Street com IA
Enquanto o Brasil debate a regulação, o mercado financeiro global já tomou a decisão que vai remodelar profissões inteiras.
Em maio de 2026, o CEO do Goldman Sachs, David Solomon, disse que a inteligência artificial já escreve 95% do prospecto de um IPO em questão de minutos. O mesmo documento que, antes, exigia duas semanas e uma equipe de seis banqueiros trabalhando em paralelo.
Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, admitiu publicamente que o banco já 'deslocou pessoas' por causa da IA. Em sua carta anual aos acionistas, ele comparou a ferramenta à eletricidade e à internet — e chegou a dizer em Davos que apoiaria uma eventual proibição governamental de demissões em massa por IA, porque o desemprego repentino poderia gerar 'agitação civil'.
Os números confirmam a escala do que está acontecendo. Um relatório da Bloomberg Intelligence, produzido a partir de entrevistas com CTOs de 93 grandes bancos projeta que nos próximos cinco anos, 200 mil empregos podem ser cortados só em Wall Street.
O Morgan Stanley estima que até 200 mil postos de trabalho bancários europeus podem desaparecer até 2030. Estamos falando de back-office, compliance, onboarding de clientes, relatórios regulatórios.
O que está acontecendo não é ficção científica. É a substituição gradual e acelerada do trabalho intelectual de nível inicial por modelos de linguagem que trabalham sem parar, sem erro de digitação, sem pedido de aumento e sem 13°.
Claude no coração de Wall Street
A Anthropic — empresa de inteligência artificial fundada por ex-pesquisadores da OpenAI — não é um nome que aparece nas conversas comuns sobre finanças pessoais. Mas em maio de 2026, ela realizou um briefing exclusivo em Nova York com os maiores executivos do sistema financeiro global.
O produto apresentado foi o Claude for Financial Services — uma versão do modelo de IA da Anthropic construída especificamente para bancos, gestoras, seguradoras e fintechs. A comparação com o Bloomberg Terminal, plataforma com assinatura de aproximadamente US$ 25 mil anuais usada por analistas do mundo inteiro, é inevitável e intencional.
O Claude já realiza tarefas como análise de balanços, modelagem financeira, auditoria de demonstrações contábeis, construção de pitchbooks, fechamento contábil, análise de crédito e revisão de resultados.
Neste mês, foram lançados dez templates prontos de agentes autônomos para o setor financeiro — disponíveis como plugins para bancos e gestoras, com conectores nativos a plataformas como FactSet, Morningstar, S&P Global e integração com Microsoft 365. O ciclo de implantação caiu de meses para dias.
A parceria com a FIS, empresa de infraestrutura bancária que processa operações de core banking para milhares de bancos americanos, resultou num agente de combate a crimes financeiros. Segundo Stephanie Ferris, CEO da FIS "o Claude comprime investigações de AML de dias para minutos", afirma.
Os riscos que ninguém quer discutir
O entusiasmo do mercado financeiro com a inteligência artificial é real e compreensível. Mas há um conjunto de riscos que a velocidade da adoção tende a varrer para baixo do tapete.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) alertou que, embora a IA traga ganhos relevantes para crédito, pagamentos e prevenção a fraudes, ela também amplia vulnerabilidades: riscos cibernéticos sistêmicos, falta de transparência nos algoritmos e o risco de que vieses nos dados de treinamento sejam reproduzidos em escala industrial.
Um algoritmo treinado com dados históricos vai reproduzir os padrões históricos. Se historicamente uma região periférica teve mais inadimplência — por razões estruturais, não por comportamento individual —, o modelo vai penalizar quem mora nessa região. Isso tem nome: discriminação algorítmica.
Há ainda o risco de concentração sistêmica. Quando vários bancos usam o mesmo modelo de IA afeta o sistema inteiro ao mesmo tempo. É o que os economistas chamam de correlação de risco: todos os agentes reagem igual porque todos estão usando o mesmo algoritmo.
O debate sobre quem controla esses modelos é igualmente urgente. A Anthropic é uma empresa americana privada. O Goldman Sachs é um banco americano. O sistema financeiro brasileiro vai usar uma infraestrutura de IA que não está sob jurisdição do BC, não responde à LGPD diretamente, e cujos modelos de decisão são, na maior parte, caixas-pretas.
A pergunta não é retórica: quando o Claude for Financial Services tomar uma decisão que prejudique um cliente brasileiro, quem responde?
O que o cidadão comum precisa entender
A IA já está na sua vida financeira. Ela decidiu se o seu limite de crédito ia aumentar ou cair. Ela está monitorando o seu padrão de gasto para detectar se você é risco. Ela processou o Pix que você mandou para o seu vizinho e decidiu, em milissegundos, se era uma transação legítima.
O que está sendo construído agora vai determinar se você terá o direito de contestar essas decisões ou não. Se você vai saber por que negaram seu cartão. Se o algoritmo vai ter que provar que não discriminou você por onde você mora ou quantos anos tem.
O Brasil tem uma janela. O Banco Central tem capacidade técnica e credibilidade institucional para construir um arcabouço regulatório que equilibre inovação e proteção.
Mas o tempo é o problema. O sistema já está rodando com IA em produção enquanto a regulação ainda define os conceitos básicos. A palavra-chave do debate — explicabilidade — é uma palavra de democracia. A ideia de que o Estado, a empresa, o algoritmo não pode te afetar sem te explicar por quê. Que toda decisão que muda a sua vida deve ter uma razão que você pode contestar.
Os bancos já investiram R$ 48 bilhões. A IA está dentro do sistema. A pergunta não é mais se ela vai vigiar o seu dinheiro. A pergunta é quem vai vigiar ela e se você vai ter voz nessa resposta.
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