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Uso de IA cresce, mas segurança e governança são desafios para empresas
Governança, treinamento e escolha de ferramentas seguras se tornam essenciais diante da rápida adoção da tecnologia no Brasil
Ledo engano de quem ainda acha que a inteligência artificial (IA) é uma mera tendência. Cada vez mais, ela vem se tornando prática nas rotinas das empresas brasileiras. Em apenas dois anos, por exemplo, o uso dessa tecnologia na indústria cresceu mais de 160%, de acordo com a Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec Semestral) 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Feito em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o levantamento mostra que 41,9% das indústrias do País já utilizavam inteligência artificial no ano em questão. Em 2022, esse número era de 16,9%.
Nesse cenário de crescimento das plataformas, a governança de dados torna-se essencial para reduzir os riscos e aumentar a segurança das informações contra práticas delituosas como, por exemplo, invasão de sistemas, roubo de credenciais e vazamentos. Isso porque empresas que lidam diretamente com questões de propriedade intelectual precisam manter a proteção de seus ativos no ambiente digital.
De acordo com a advogada e especialista em propriedade intelectual Elisângela Menezes, a ausência de políticas claras para o uso da inteligência artificial pode gerar riscos e danos ao know-how da empresa. “Soluções de IA são utilizadas para geração de conteúdo, análise de dados, automação de tarefas, desenvolvimento de software e suporte à tomada de decisão. Plataformas com modelos generativos permitem ganhos significativos de produtividade. No entanto, muitas dessas ferramentas operam por meio de interação direta com dados inseridos pelos usuários, o que pode representar riscos quando informações sensíveis são compartilhadas sem controle adequado”, explica.
Segundo a especialista, quando colaboradores inserem documentos internos, códigos proprietários ou estratégias de negócio em sistemas de IA, existe a possibilidade de que esses dados sejam armazenados, utilizados para treinamento de modelos ou expostos de forma indireta em outras respostas do sistema. “Esse cenário coloca em evidência a importância da governança de dados em ferramentas de IA, especialmente em empresas que dependem de ativos intangíveis para gerar valor competitivo”, ressalta.
A advogada alerta ainda que o compartilhamento de dados confidenciais nas IAs pode, inadvertidamente, transferir conhecimento sensível para ambientes fora do controle da empresa. “Esse risco se torna ainda mais crítico quando se considera que muitas plataformas de IA operam em infraestrutura global, com políticas de uso e armazenamento de dados definidas por terceiros. Empresas que fazem o uso responsável conseguem aproveitar os benefícios da inteligência artificial sem comprometer seus ativos estratégicos”, diz.
De multinacional a imobiliária: empresas estruturam uso responsável da IA
Responsável por Data Privacy – Legal & Compliance da CNH para América Latina, a executiva Lindamaria Lima afirma que a multinacional tem uma governança de dados robusta, com forte estrutura em proteção e cibersegurança. A empresa conta, inclusive, com uma área especializada em governança de inteligência artificial. “Só utilizamos ferramentas homologadas, que passaram pela triagem de compliance e aprovações do setor de cibersegurança”, conta.
Segundo Lindamaria, até mesmo as ferramentas chanceladas têm limites de uso: elas não podem ser utilizadas como repositório de documentos, mas sim como um auxílio na geração de informações. “Eu não vou colocar um contrato na IA para que ela leia e responda sobre como eu devo proceder em relação às cláusulas. Temos que lembrar e reforçar, sempre, que a IA é um apoio. Essa é uma recomendação interna, muito bem seguida”, diz.
Quanto às plataformas externas à gerência da organização, a recomendação da multinacional, conforme informa a executiva, é não utilizar. “Fazemos muitas reuniões com terceiros. Quando eles solicitam, por exemplo, um resumo do que foi conversado, com o auxílio de tecnologias de inteligência artificial, sempre pedimos para usarem a nossa IA. Isso já está bem enraizado aqui e até os nossos concessionários já estão habituados com isso”, revela.
Lindamaria reforça, ainda, que esse cerceamento sobre o uso correto permite o controle assertivo da entrada e saída de dados da multinacional, atualmente com presença comercial em 170 países e receita consolidada de US$ 18,09 bilhões. “A nossa intenção não é ignorar as mudanças, mas tentar incorporar o máximo de tecnologias possível em nossos processos, sempre de forma responsável, respeitando todos os dados, principalmente dos nossos clientes, o maior ativo de qualquer negócio. Uma empresa que se nega a querer acompanhar o desenvolvimento tecnológico certamente vai fechar ou não prosperar”, pontua.
Outra empresa que também afirma desenvolver estratégias para uma boa governança de inteligência artificial é a CéuLar Netimóveis, que atua no mercado imobiliário mineiro. Segundo a diretora de estratégias da marca, Adriana Magalhães, a IA é usada especialmente no atendimento aos consumidores que demonstram interesse na compra, venda ou aluguel dos imóveis disponíveis na cartela da empresa. “O primeiro contato desses clientes é feito com a plataforma. Ela faz uma qualificação da demanda para, só em seguida, direcionar para o atendimento humano. Isso trouxe uma eficiência muito grande para os nossos processos. A gente já sabe o que o cliente quer ao atendê-lo, mas essa automatização só é possível por meio dos serviços de uma empresa com a qual temos contrato”, conta.
Adriana destaca que a CéuLar evita plataformas gratuitas e o uso respaldado em segurança é prática em todos os setores. “Se o cliente, por exemplo, deixa o apartamento dele conosco para que a gente possa anunciá-lo, o departamento de marketing conta com o suporte de uma ferramenta de IA contratada para fazer a gestão do anúncio. Nada é compartilhado em ferramentas pelas quais a gente não paga pelo acesso”, revela.
Por fim, a executiva reconhece que o tema ainda carece de muitos aprendizados, principalmente porque as plataformas de IA estão abertas nos computadores de toda a empresa e, se mal usadas, podem gerar problemas gravíssimos em termos de sigilo e quebra de informações estratégicas e confidenciais. “Não podemos esquecer que, apesar dos inúmeros benefícios da tecnologia, o nosso trabalho, seja ele qual for, é focado no consumidor. Se a gente pensar só na máquina e negligenciar o cuidado com os aspectos humanos, a evolução dos processos terá sido em vão”, conclui.
Especialista destaca cuidados essenciais para uso seguro e estratégico da IA nas empresas
Apesar da gestão corporativa das IAs ser fundamental, o especialista em inteligência artificial Victor Salles afirma que ela não deve ser tratada de forma homogênea para todas as empresas. “Primeiro elas precisam entender quais são seus tamanhos e o nível de rigidez de governança de que precisam. Uma multinacional, por exemplo, não terá as mesmas demandas e fluxos que uma empresa regional. Logo, o uso das plataformas será diferenciado entre uma e outra”, explica.
Salles também recomenda cautela no uso das ferramentas gratuitas. “Na internet, se você não está pagando pelo produto, é porque o produto é você, ou seja, alguém está pagando por aquele servidor e pela tecnologia. Portanto, esse alguém está fazendo um esforço para obter seus dados”, alerta.
À frente da Proteus Academy, escola mineira focada na potencialização de líderes e negócios para o uso da inteligência artificial, Salles destaca ainda a importância de as empresas evitarem ferramentas muito novas. “A chance de dar problema em uma ferramenta criada pelo Google, além de ser menor, proporciona mais retaguarda para o usuário. Por outro lado, quem garante a confiabilidade de um aplicativo recém-lançado no mercado?”, questiona e acrescenta que, nesse sentido, a homologação é o melhor caminho para se trabalhar com IAs no âmbito corporativo. “Ela é o teste de qualidade, o crivo que o time de governança faz sobre qualquer nova ferramenta disponível”, conta.
O especialista afirma ser essencial que as empresas desenvolvam a cultura do letramento para assim prevenir o risco de usar ferramentas inadequadas. A prática, segundo ele, é a mais complexa no cenário atual. “As ferramentas são indiscutivelmente maravilhosas, mas se manuseadas por pessoas não treinadas, que fogem dos parâmetros definidos na governança, podem resultar em erros capazes de colocar a credibilidade e a segurança da empresa em xeque”, diz.
Por fim, Victor reforça que a IA usada por uma empresa pode, inclusive, ter sido desenvolvida por um grupo concorrente. Nesses casos a organização não deve, em hipótese alguma, ter seus dados vazados. Mas ela só vai saber dessa especificidade se estiver informada sobre a origem do produto que utiliza. “Quem não sabe de nada não tem medo de nada. Por isso, treinamento e informação para lidar com este universo ainda desafiador é fundamental”, finaliza.
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