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Inadimplência nunca mais: retome o controle das dívidas
Um em cada três adultos no país tem dificuldades para honrar seus compromissos financeiros, mas com planejamento e controle é possível voltar a ter o nome limpo
A inadimplência não é apenas um fenômeno econômico, mas um reflexo profundo de questões estruturais, sociais e comportamentais que moldam o cotidiano de milhões de famílias.
Estar "com o nome sujo" tornou-se uma condição comum, mas que carrega um peso significativo tanto para o bem-estar do indivíduo quanto para a fluidez da economia, seja local, seja nacional.
Nos últimos anos, o Brasil tem registrado níveis recordes de endividamento. Dados de órgãos como Serasa e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) indicam que cerca de 70 milhões de brasileiros possuem algum tipo de restrição de crédito. Isso significa que aproximadamente um em cada três adultos no país enfrenta dificuldades para honrar seus compromissos financeiros.
Em 2026, a inadimplência alcançou um novo patamar com 79,5% das famílias brasileiras endividadas em janeiro. O percentual é o maior já registrado desde outubro do ano passado na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Acesso
Para o economista Edgard Leonardo Lima, o movimento pode ser explicado pela facilitação do acesso ao crédito que exibe limites maiores do que os consumidores conseguem arcar. Além disso, o aumento da inflação tem influenciado cada vez mais os gastos com produtos essenciais e parcelamentos, dificultando o controle financeiro.
“A perda do poder de compra faz com que muitas famílias utilizem crédito para cobrir custos essenciais, mas o que realmente agrava a situação é o uso recorrente do parcelamento como extensão da renda”, concluiu.
Consequentemente, os índices de inadimplência seguem elevados também na escala estadual. Em Pernambuco, a taxa foi de 50,2%, valor que corresponde a mais da metade da população adulta. No estado, o valor médio das dívidas acumuladas por pessoa é de R$ 5.039,87.
O percentual, apresentado no Mapa da Inadimplência da Serasa de 2026, está ligeiramente acima da média nacional, que é de 49,6%, colocando o estado em posição de destaque no ranking.
Segmentos
O levantamento concebido pela Serasa revela os principais segmentos em que a população pernambucana concentra suas dívidas. Em primeiro lugar, estão as dívidas originadas em bancos e cartões, com 31,8% do total. Em segundo, as dívidas financeiras, com 25,8%, seguidas das contas básicas, como água, luz e gás, com 11,7%. Por fim, os débitos de serviço e varejo ficaram em 11,5% e 9,6%, respectivamente.
O economista ainda adicionou outras portas de entrada como “empréstimos pessoais, crédito digital via aplicativos e parcelamentos longos no quais não se observa o custo efetivo total, correspondente aos juros mais outras despesas que acabam sendo superiores à taxa anunciada.”
Dessa forma, o problema pode começar muitas vezes sem grandes sinais de alarme. No caso do técnico de enfermagem André Luís da Silva, o endividamento começou de forma sútil com compras no cartão de crédito. As despesas eram divididas entre múltiplos cartões que, sem o planejamento adequado, levaram também a faturas acumuladas.
Diante da pressão financeira, o técnico de enfermagem optou pela contratação de empréstimos bancários. A decisão, no entanto, só fez a dívida crescer ainda mais.
“Houve momentos em que eu pensava que não conseguiria sair daquela situação. Eu falei: ‘Cheguei no fundo do poço’”, desabafou André Luís. Ele só conseguiu se livrar das dívidas depois que resolveu fazer um planejamento financeiro. Depois de quatro anos, André Luís quitou 100% das dívidas e hoje está com todas as contas em dia.
Após a experiência, o técnico de enfermagem diz que que passou a comprar com mais moderação para não extrapolar os gastos, principalmente quando faz uso do cartão de crédito.
“O conselho que eu daria para alguém é primeiro focar na dívida. Anotar, pontuar as mais antigas e ir fazendo acordos dentro dos seus limites. Vai parcelando sem juros que você consegue, e tenha força de vontade que no final vai dar certo”, aconselhou
Anotação
Como já explicado, o primeiro passo para quem já se encontra no vermelho é anotar todos os débitos e despesas. Essa prática é fundamental para que o consumidor visualize o tamanho da dívida que ele tem.
“Muitas pessoas não sabem exatamente quanto ganham, quanto gastam ou quanto já comprometeram com dívidas, o que impede decisões racionais. Sem organização, até uma boa renda pode resultar em endividamento”, afirmou o economista Edgard Leonardo Lima.
A próxima etapa é a quitação das dívidas. Para o especialista, a ordem dos pagamentos deve priorizar aquelas com juros mais altos, sem descuidar das despesas essenciais como moradia e alimentação.
“Estratégias como o método de quitar as dívidas com maiores juros primeiro, ou quitar dívidas menores primeiro, para gerar motivação, podem ser aplicadas, desde que alinhadas à capacidade real de pagamento”, sugeriu.
Embora programas de renegociação sejam essenciais para o curto prazo, a solução definitiva passa por uma educação financeira de base e pela estabilização da economia, garantindo que o crédito seja uma ferramenta de crescimento, e não um fardo intransponível.
Renegociar
A renegociação pode ser uma estratégia viável, especialmente em cenários com juros elevados, descontos relevantes ou quando as parcelas não cabem no orçamento. No entanto, Edgard Lima alerta que apenas alongar o prazo sem reduzir os juros pode aumentar as dívidas.
“Em situações mais graves, pode ser mais eficiente consolidar dívidas em crédito mais barato, buscar aumento temporário de renda ou até vender ativos para reduzir o passivo e recuperar equilíbrio financeiro”, indicou. Com o fim das dívidas, o foco passa a ser controlar o orçamento.

O planejamento deve priorizar as despesas essenciais e criar uma margem financeira permanente, gastando-se menos do que se recebe. Por fim, deve ser priorizada a construção de uma reserva financeira para emergências.
Para se prevenir e evitar a retomada do ciclo, Edgard indica realizar um diagnóstico completo: listar todas as dívidas, identificar taxas de juros, organizar vencimentos e mapear renda e despesas reais. Em seguida, deve-se interromper o uso de crédito e buscar renegociação preventiva, antes do atraso.
“Quanto mais cedo houver ação, maior o poder de negociação e menor o custo financeiro. A pior decisão é adiar o enfrentamento do problema”, afirmou.
Ter o nome limpo vai muito além de uma simples questão de status ou de evitar ligações incovenientes de cobrança. Em uma economia cada vez mais baseada no histórico de comportamento do consumidor, a saúde do seu CPF é, na prática, não apenas o passaporte para a liberdade financeira, mas para a realização de planos de médio e longo prazo.
Seja para um cartão de crédito com melhor limite ou para um financiamento imobiliário, o nome limpo é o primeiro requisito. Com um bom histórico, deixa-se de aceitar qualquer taxa e passa a ter argumentos para negociar juros menores, economizando milhares de reais ao longo do tempo.
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