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O que os trabalhadores esperam hoje das empresas
Saiba quais são os principais anseios dos trabalhadores no Brasil e por que o RH precisa agir além do salário para reter talentos
O trabalhador brasileiro mudou — e talvez mais rápido do que muitas empresas conseguiram perceber. Se antes a relação com o emprego era organizada principalmente em torno de renda e estabilidade, hoje ela passa por um conjunto mais complexo de expectativas, que combina remuneração, qualidade de vida, desenvolvimento, respeito, flexibilidade e perspectiva de futuro. Para o RH, isso significa uma mudança importante de chave: reter pessoas já não depende apenas de contratar bem ou pagar dentro da média. Depende, cada vez mais, de compreender o que os profissionais esperam da experiência de trabalho como um todo.
Os sinais dessa transformação aparecem em várias frentes. Um levantamento recente da Gupy mostra que 68% dos trabalhadores brasileiros estão em processo de mudança ou considerando mudar de emprego até 2026, o que indica que permanecer na mesma empresa deixou de ser uma decisão automática e passou a depender de estímulos concretos, especialmente ligados à experiência cotidiana do colaborador. Entre os fatores que mais influenciam esse movimento estão falta de desenvolvimento, baixa mobilidade interna e percepção limitada de futuro dentro da organização.
O salário segue sendo peça central, mas perdeu a condição de argumento único. Cada vez mais, os profissionais avaliam o empregador por um pacote mais amplo de valor, que inclui benefícios relevantes, ambiente saudável, liderança coerente e chances reais de crescimento. O Randstad Employer Brand 2025 aponta que os brasileiros valorizam uma combinação entre aspectos funcionais, como remuneração e benefícios, emocionais, como ambiente agradável, e relacionais, como liderança inspiradora. Na prática, isso mostra que o trabalhador quer ganhar melhor, mas também quer ser bem tratado, enxergar perspectiva e sentir que vale a pena permanecer.
Outro ponto que ganhou centralidade foi a saúde mental. O tema deixou de ser visto apenas como pauta de bem-estar e passou a se impor como variável de produtividade, permanência e sustentabilidade do negócio. Em janeiro de 2026, a Previdência Social informou que o Brasil concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15,66% em relação a 2024. O número reforça que o adoecimento emocional no trabalho não é periférico: ele já produz impacto direto sobre operação, custos e clima organizacional.
Essa pressão ajuda a explicar por que qualidade de vida e equilíbrio deixaram de ser tratados como “mimos” e passaram a influenciar de forma concreta as decisões de carreira. Pesquisas com Gen Z e millennials mostram que esse público procura uma combinação entre dinheiro, significado, desenvolvimento e bem-estar. A busca não é apenas por cargo ou status, mas por uma trajetória que permita aprender, crescer e, ao mesmo tempo, não adoecer no processo.
No caso dos jovens, o recado ao mercado é ainda mais claro. A entrada no mundo do trabalho passou a ser mediada por expectativas que incluem flexibilidade, aprendizado acelerado, uso inteligente de tecnologia e espaço para evolução real. O ManpowerGroup vem apontando que atrair Gen Z e investir em upskilling e reskilling estão entre as prioridades dos empregadores, enquanto a PwC mostrou que 87% dos profissionais brasileiros acreditam que a IA pode ajudar a aprender novas habilidades no trabalho, embora o uso frequente da tecnologia ainda seja limitado. Isso revela uma tensão importante: os trabalhadores querem se preparar para o futuro, mas ainda dependem de empresas que consigam transformar tecnologia em desenvolvimento concreto.
Entre profissionais de tecnologia, a régua ficou ainda mais alta. Segundo a Michael Page, 96% dos talentos de tecnologia estão abertos a novas oportunidades e 71% planejam deixar seus cargos atuais nos próximos dois anos. O estudo mostra que eles procuram não apenas salário, mas também flexibilidade, confiança, desenvolvimento, propósito e bem-estar. Ou seja, mesmo em áreas historicamente associadas a bons pacotes de remuneração, a retenção já depende de fatores mais sofisticados de experiência, cultura e crescimento.
Em setores operacionais e técnicos, as prioridades assumem outra forma, mas não perdem intensidade. Nesse público, o que pesa mais costuma ser a combinação entre previsibilidade de jornada, segurança, valorização, capacitação prática e possibilidade de progressão. O pano de fundo é um mercado que segue pressionado por escassez de habilidades. O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027 reforça a necessidade de formar e qualificar milhões de profissionais no país, o que amplia a responsabilidade do RH em conectar aprendizagem com empregabilidade real.
A liderança também entrou no radar dos trabalhadores como um fator decisivo. Cada vez mais profissionais não deixam apenas empresas — deixam experiências de gestão ruins, ambientes incoerentes e culturas que cobram muito, desenvolvem pouco e escutam mal. A própria Randstad tem destacado, com base no Workmonitor 2025, que empresas que desenvolvem ativamente habilidades de gestão e liderança ganham força como marca empregadora. O trabalhador de hoje quer menos chefia improvisada e mais liderança capaz de orientar, reconhecer e sustentar mudanças com clareza.
Nesse contexto, o desafio do RH se torna mais estratégico e menos transacional. Não basta oferecer treinamento se o profissional não enxerga mobilidade. Não basta lançar programas de bem-estar se a rotina continua desorganizada. Não basta falar de inovação se a experiência diária segue marcada por rigidez, sobrecarga e liderança fraca. O que os dados sugerem é que as demandas dos trabalhadores brasileiros estão menos difusas do que parece: eles querem remuneração justa, desenvolvimento de verdade, mais equilíbrio, melhor gestão e preparação para um mercado em transformação.
Para o RH, a provocação é direta. A agenda de pessoas precisa parar de reagir apenas à rotatividade e começar a interpretar com mais profundidade o que está por trás dela. Em 2026, o trabalhador brasileiro já sinaliza com clareza que não quer apenas um emprego. Quer uma experiência de trabalho que pague melhor, respeite sua vida, desenvolva suas competências e o prepare para continuar relevante. As empresas que entenderem isso antes tendem a reter melhor, atrair com mais força e construir culturas mais consistentes. As que ignorarem esse movimento continuarão tratando sintomas — enquanto o problema real cresce dentro de casa.
Mapa atual das demandas e anseios dos trabalhadores no Brasil
1) Jovens em início de carreira
O que mais pesa para esse grupo hoje é a combinação entre crescimento rápido, aprendizado aplicável, flexibilidade, propósito e remuneração justa. Pesquisas com Gen Z e millennials mostram que progressão de carreira, equilíbrio entre vida e trabalho, desenvolvimento e bem-estar aparecem entre as prioridades mais fortes, enquanto a IA já entra como tema de preocupação e oportunidade.
2) Profissionais operacionais e técnicos
Nesse grupo, a demanda tende a ser mais objetiva: salário competitivo, previsibilidade de jornada, segurança, menos sobrecarga, capacitação prática e chance real de progressão. Isso ganha ainda mais importância diante da necessidade crescente de qualificação em setores como indústria, logística e manutenção no Brasil.
3) Profissionais administrativos e corporativos
Aqui, o trabalhador costuma buscar plano de carreira, liderança melhor, reconhecimento, mobilidade interna, clareza nas metas e equilíbrio entre cobrança e qualidade de vida. Um white paper recente da Gupy indica que 68% dos trabalhadores brasileiros estão em processo de mudança ou considerando mudar de emprego até 2026, e a falta de desenvolvimento aparece entre os principais gatilhos de saída.
4) Profissionais de tecnologia e conhecimento
Esse público está especialmente atento a flexibilidade, justiça salarial, desenvolvimento contínuo, projetos relevantes, bem-estar e autonomia. Ao mesmo tempo, a rotatividade segue alta: a Michael Page aponta que 96% dos profissionais de tecnologia estão abertos a novas oportunidades em 2025 e 71% planejam deixar os cargos atuais nos próximos dois anos.
5) Lideranças médias
Gestores e coordenadores vivem uma pressão dupla: precisam entregar resultado e, ao mesmo tempo, sustentar pessoas, mudanças, tecnologia e clima. Por isso, tendem a desejar mais autonomia, formação em liderança, apoio organizacional, menos ambiguidade e mais coerência entre discurso e prática. O Workmonitor 2025 da Randstad também reforça que desenvolvimento de liderança virou diferencial importante na atração e retenção.
6) Mulheres e grupos sub-representados
Além das pautas comuns a toda força de trabalho, esse público costuma exigir com mais intensidade segurança psicológica, respeito, equidade real, chance justa de crescimento e ambientes menos excludentes. Isso se conecta ao debate crescente sobre saúde mental, bem-estar e qualidade da experiência de trabalho, que já ultrapassou o campo simbólico e entrou no centro das decisões de permanência.
7) O que atravessa praticamente todas as categorias
De forma geral, cinco demandas aparecem como transversais: renda melhor, desenvolvimento real, flexibilidade viável, saúde mental e liderança de qualidade. O Randstad Employer Brand 2025 resume bem esse movimento ao mostrar que profissionais brasileiros avaliam empregadores por um equilíbrio entre fatores funcionais, emocionais e relacionais — ou seja, salário e benefícios, ambiente agradável e liderança inspiradora.
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