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Saúde mental em foco: NR-1 obriga empresas a rever gestão
Atualização da norma amplia responsabilidades dos empregadores, prevê multas e transforma saúde mental em item central da segurança do trabalho
As empresas brasileiras vivem uma contagem regressiva para se adequar à atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que passou a exigir identificação, avaliação e controle dos riscos psicossociais no ambiente corporativo. A mudança, em vigor desde 2025, amplia o escopo da gestão de saúde e segurança do trabalho e coloca temas como estresse crônico, assédio moral, sobrecarga e clima organizacional no mesmo patamar dos riscos físicos e operacionais.
A exigência chega em um momento de pressão crescente sobre os indicadores de saúde mental no país. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho. Em 2024, foram registrados mais de 470 mil afastamentos por ansiedade, depressão e burnout, o maior número da última década. No plano econômico, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que problemas relacionados à saúde mental geram perdas superiores a R$ 400 bilhões por ano em produtividade no Brasil.
Para Rodrigo Araújo, especialista em saúde ocupacional e CEO da Global Work, a atualização da NR-1 marca uma mudança estrutural na forma como as empresas devem enxergar a prevenção. "A norma deixa claro que o adoecimento emocional não é um problema individual, mas um risco organizacional. Assim como se mapeia ruído, calor ou agentes químicos, agora é obrigatório mapear fatores que impactam a saúde mental", afirma.
Impactos diretos na rotina das empresas
Na prática, a NR-1 passa a exigir que as organizações incluam os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso envolve diagnóstico do ambiente de trabalho, análise de jornadas, práticas de liderança, metas, canais de denúncia e histórico de afastamentos. Empresas que ignorarem a exigência podem ser autuadas em fiscalizações trabalhistas, com multas que variam conforme o porte da companhia, a gravidade da infração e a reincidência.
Segundo Rodrigo Araújo, o risco de penalização é apenas uma parte do problema. "Quando a empresa não se antecipa, ela paga a conta duas vezes: na multa e no aumento do absenteísmo, da rotatividade e da queda de produtividade. O custo invisível costuma ser maior do que qualquer sanção administrativa", diz.
Vantagens para quem se antecipa
Apesar do caráter obrigatório, especialistas apontam que a adequação à NR-1 pode gerar ganhos concretos. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, para cada dólar investido em programas estruturados de saúde mental no trabalho, o retorno médio é de quatro dólares em aumento de produtividade e redução de custos assistenciais.
Na avaliação do executivo, empresas que tratam a norma de forma estratégica tendem a sair na frente. "Quando o mapeamento é bem-feito, a companhia consegue corrigir gargalos de gestão, melhorar o clima interno e reduzir afastamentos. Saúde mental passa a ser também um indicador de eficiência operacional", afirma Rodrigo Araújo.
Como se adequar e evitar multas
A adaptação à NR-1 exige mais do que ações pontuais. Especialistas recomendam um processo estruturado, que inclui diagnóstico técnico, envolvimento da liderança e acompanhamento contínuo. Entre as principais medidas estão:
Realizar avaliação formal dos riscos psicossociais, com apoio técnico especializado;
Integrar saúde mental ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e aos demais programas de Saúde e Segurança no Trabalho (SST);
Capacitar lideranças para identificar sinais de sobrecarga e assédio;
Criar canais seguros de escuta e reporte;
Monitorar indicadores como absenteísmo, afastamentos e rotatividade.
"A norma não pede soluções improvisadas. Ela exige método, registro e acompanhamento. Empresas que tratam o tema apenas como campanha interna correm mais risco de autuação", afirma Rodrigo Araújo.
Uma mudança que vai além da lei
Para o CEO da Global Work, a NR-1 consolida uma tendência que já vinha se desenhando no mercado de trabalho. "A legislação acelerou um movimento que era inevitável. Organizações que não cuidam da saúde emocional dos seus times tendem a perder competitividade, talento e reputação", diz. "Cumprir a norma é o ponto de partida. O diferencial está em usar esse processo para construir ambientes mais saudáveis e negócios mais sustentáveis."
Com a intensificação das fiscalizações ao longo de 2026, a expectativa de especialistas é que a NR-1 deixe de ser vista apenas como obrigação legal e passe a integrar, de forma definitiva, a agenda estratégica das empresas brasileiras.
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