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Os sinais de alerta da economia global não estão mais funcionando
Em um cenário de transformação estrutural, regras simples já não dão conta da complexidade econômica atual
A perplexidade generalizada que hoje aflige os mandarins da economia foi capturada por uma nota recente do Banco Mundial: “O crescimento global desafia as expectativas”.
Previsões que se mostram erradas — ou que desafiam as expectativas — são tão rotineiras quanto um batimento cardíaco.
Mas agora algo está fora do lugar. Referências conhecidas sobre como empresas, consumidores, investidores e trabalhadores historicamente reagiram aos golpes e contragolpes da economia têm se mostrado menos confiáveis.
Isso tornou a interpretação da enxurrada de dados mais complicada do que nunca. É como se os carros, em vez de desacelerarem diante de um sinal amarelo piscante, como esperado, começassem a acelerar.
Considere os hábitos de consumo das pessoas. Normalmente, quando os consumidores estão pessimistas em relação à economia, tendem a gastar menos, receosos do que vem pela frente.
E, nos Estados Unidos, a percepção dos consumidores tem sido negativa. Em todas as categorias — da alta de preços ao mercado de trabalho — uma pesquisa mostrou que a confiança do consumidor caiu para o nível mais baixo em 12 anos. Ainda assim, os americanos não pararam de comprar. O consumo das famílias tem crescido de forma constante.
O mercado de ações também, em geral, tem vivido um rali, apesar de turbulências em ritmo frenético, incluindo uma guerra comercial mundial, mudanças de política que dão efeito chicote, ameaças à independência dos bancos centrais, conflitos militares e o aumento das tensões geopolíticas, endividamento colossal e uma possível bolha financeira relacionada à inteligência artificial.
“É realmente notável que não tenhamos visto mais grandes oscilações”, disse Kenneth Rogoff, autor de “Our Dollar, Your Problem”, ao comentar a calma do mercado.
Muitas empresas também deram de ombros para a incerteza.
“Os manuais diriam que a incerteza é ruim para o crescimento econômico, mas não há muitas evidências de que ela tenha tido um impacto significativo na economia dos Estados Unidos até agora”, afirmou Neil Shearing, economista-chefe na Capital Economics. “O investimento empresarial é o primeiro lugar onde se esperaria ver isso aparecer, mas ele tem sido forte.”
Em certo sentido, expectativas embaralhadas não deveriam ser tão surpreendentes. Mesmo em tempos corriqueiros, economistas tendem a exagerar a precisão científica de sua área, agindo como se as economias fossem regidas por forças inexoráveis, em vez das atividades descoordenadas de seres humanos volúveis, com objetivos e impulsos variados.
A pandemia de covid-19 provocou um grande choque no sistema econômico global. E agora a volatilidade imprevisível foi ainda mais turbinada pela transformação da economia mundial e da ordem geopolítica impulsionada pelo presidente Donald Trump.
O sistema cooperativo de comércio baseado em regras está dando lugar à agressão entre grandes potências e ao mercantilismo. Com tantas mudanças acontecendo tão rapidamente, padrões históricos estão se rompendo.
Indicadores tradicionalmente confiáveis que sinalizam o início de uma recessão também saíram dos trilhos. Uma alta súbita e acentuada do desemprego, por exemplo, historicamente tem sido notavelmente eficaz em prever recessões.
Ainda assim, essa ligação se rompeu. Uma métrica conhecida como Regra de Sahm, em homenagem a Claudia Sahm, ex-economista do Federal Reserve, previu uma recessão em 2024 que nunca se materializou.
Outro sinal de recessão — a diferença entre os retornos de títulos de longo e curto prazos, conhecida como curva de juros — também fracassou. Normalmente, títulos públicos de longo prazo oferecem taxas mais altas do que os de curto prazo, porque investidores não querem imobilizar seu dinheiro por muito tempo quando a economia vai bem.
Assim, quando a curva de juros normal se inverte, e as taxas dos títulos de curto prazo ficam mais altas do que as dos títulos de longo prazo, isso tradicionalmente tem sido um sinal de que a economia está prestes a tropeçar numa recessão.
Mas esse indicador também falhou, de forma mais evidente em 2022 e 2023.
A ligação tradicional entre o desempenho da economia dos Estados Unidos e o valor do dólar também foi rompida. A incerteza costuma elevar o valor do dólar em relação a outras moedas, à medida que investidores buscam um porto seguro em tempos arriscados. Mas o dólar caiu para o nível mais baixo em anos.
São tempos estranhos. Ainda assim, deixando de lado casos de “exuberância irracional”, como o possível excesso de investimento em torno da IA, há explicações razoáveis para a maioria dos falsos sinais.
Analistas recuaram de suas previsões de que a ofensiva tarifária de Trump na primavera passada provocaria preços mais altos, aumento do desemprego e uma possível recessão. Os níveis tarifários continuaram a oscilar de forma imprevisível, e muitas empresas estocaram mercadorias antecipadamente, enquanto outras absorveram temporariamente os custos mais elevados.
Quanto ao consumo vigoroso, ele é, na verdade, dominado por uma fina fatia de domicílios de alta renda. A Moody’s Analytics estimou que os 10% mais ricos das famílias responderam por quase metade de todo o consumo.
Pessoas preocupadas com suas perspectivas financeiras continuam comprando, mas em lojas de desconto.
E aquilo em que estão gastando dinheiro também mudou. Dados recentes de cartões de crédito do Bank of America mostraram que as pessoas estavam comprando mais em supermercados na hora do almoço e menos em restaurantes e lanchonetes, o que sugere que a alta de preços é uma preocupação.
O dólar excepcionalmente fraco pode ser explicado pelas pesadas tarifas impostas por Trump, combinadas com temores de que ele possa interferir na independência do Federal Reserve e alimentar a inflação.
Barry Eichengreen, professor de economia e ciência política da Universidade da Califórnia, em Berkeley, afirmou que os economistas sempre tenderam a confiar demais em convenções.
“A economia é uma fera incrivelmente complicada, e estamos em um período de mudança estrutural”, disse Eichengreen. “Por isso, não é surpreendente que regras práticas estejam falhando cada vez mais.”
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