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Como investir no Tesouro Direto, debêntures, CRIs e CRAs após a manutenção da Selic?
Investidores podem garantir juros reais atrativos nos títulos públicos, enquanto o crédito privado exige cautela
Seguindo o que o mercado já precificava, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu pela manutenção da taxa Selic em 15% ao ano nesta quarta-feira (28). Embora esperada, a decisão traz uma mensagem importante para o investidor brasileiro: os juros continuarão altos, mas a estratégia para lucrar com a renda fixa mudou.
Os agentes do mercado esperam que um ciclo de cortes comece em breve, o que muda a dinâmica da renda fixa, mas ainda deixa os juros básicos acima dos dois dígitos. Se até agora o investidor poderia apenas surfar a onda do CDI alto, o novo cenário exige uma alocação mais cuidadosa.
Nos títulos públicos ainda há prêmios altos na comparação com a média histórica, enquanto no crédito privado, o excesso de demanda amassou os spreads (prêmio em relação ao CDI ou Tesouro IPCA+) e tornou mais arriscada a vida de quem compra olhando apenas para a rentabilidade.
Tesouro Direto
A manutenção da Selic não retirou a atratividade dos títulos públicos. Para os analistas, o cenário atual prolongou uma oportunidade de entrada que poucos esperavam que durasse tanto tempo.
A grande estrela continua sendo o Tesouro IPCA+. Segundo Camilla Dolle, head de renda fixa da XP, o mercado ainda entrega oportunidades para o investidor: “faz mais de um ano que vemos as NTN-Bs pagando IPCA + 7%, 7,5%, chegando a 8%. A gente não esperava que esse juro real ficasse tão elevado por tanto tempo”.
Com esses papéis ainda atrativos, há a possibilidade de comprá-los para carregar um juro real alto até o vencimento ou aproveitar o fechamento da curva para lucrar em uma saída antecipada. “Tem muita coisa para acontecer nesse ano no mercado e o investidor pode, eventualmente, ter um ganho de capital interessante antes do vencimento”, diz Dolle. O time da XP recomenda duration de cinco a seis anos nos papéis de inflação.
Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, destaca que “as NTN-Bs longas figuram entre os ativos de renda fixa mais descontados atualmente, sobretudo quando comparadas à Bolsa, com a qual mantêm forte correlação histórica, mas que carece de gatilhos para ganhos expressivos no curto prazo, por ser menos sensível ao ciclo corrente de juros”.
Os prefixados, considerados mais arriscados, também podem ajudar os investidores a lucrar com a marcação a mercado, já que em breve a curva de juros deve fechar. “Os papéis com vencimento entre dois e três anos apresentam maior potencial de ganho de curto prazo”, segundo Lima.
Já o Tesouro Selic “continua sendo uma ótima opção”, já que traz retorno alto com baixo risco, mas deve ser usado cada vez mais para reservas de emergência e oportunidade, segundo Camilla Dolle.
Cautela no crédito privado
Se nos títulos públicos o sinal é verde, no crédito privado – debêntures, CRIs, CRAs e FIDCs – a luz amarela acendeu. A maior preocupação não é com a falência das empresas, mas com o preço que se paga pelo risco.
Com os juros altos, houve uma corrida de investidores para o crédito privado nos últimos meses, o que amassou os spreads e fez com que gestores tivessem dificuldades de encontrar bons papéis para comprar com o dinheiro que entrou nos fundos de investimento.
“A simetria do risco está menos favorável. O potencial de ganho para o crédito está cada vez mais limitado, enquanto o risco permanece igual, com emissores ainda alavancados” alerta Marcelo Soares, sócio da One Investimentos.
Daniel Pegorini, CEO da Valora, concorda que é improvável ver novos fechamentos de taxas. “Acreditamos que esse ambiente de maior liquidez pode provocar algumas distorções de preços. É importante que o investidor seja seletivo ao analisar se a qualidade de crédito condiz com o preço mais baixo”.
Neste cenário de prêmios magros e Selic alta pressionando o caixa das empresas, a seletividade é a regra. A preferência dos especialistas está em empresas posicionadas em setores defensivos, como energia e saneamento básico. “Temos visto boas oportunidades em debêntures incentivadas e fundos de infraestrutura, que permitem alocação em ativos que remuneram em juro real ao mesmo tempo em que mitigam os riscos de crédito, caso haja uma seleção criteriosa”, diz Pegorini.
Para quem procura retornos maiores, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) surgem como opção. “Apesar de ser uma classe mais high yield, o aumento dos juros também elevou a taxa de desconto dos recebíveis, resultando numa equação positiva“, avalia o CEO da Valora.
Setores dependentes de crédito barato e consumo, como varejo e construção, inspiram cautela. Soares, da One, sugere evitar papéis de empresas muito alavancadas que dependem de rolar dívida num ambiente de juros que teimam em não cair.
Por fim, uma tendência clara apontada pelos especialistas é a migração de indexadores dentro do crédito privado. Embora o CDI ainda pague bem no curto prazo, a visão de médio prazo favorece a migração para papéis de inflação. “Já é o momento para considerar uma exposição em IPCA+, ficando ali mais para o meio da curva, até que de fato comecem os cortes e esse juro real venha beneficiar”, conclui Soares.
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