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Câmbio tranquilo pode ter data marcada
Equilíbrio cambial foi sustentado por fatores conjunturais que podem perder força nos próximos meses
Nos últimos anos, o câmbio brasileiro exibiu uma estabilidade que, à primeira vista, pareceu contradizer o ambiente econômico mundial. Enquanto o mundo enfrentava choques geopolíticos, mudanças abruptas na política monetária e forte volatilidade nos preços das commodities, o real permaneceu relativamente comportado. Esse aparente paradoxo foi resultado de uma combinação de fatores que, em conjunto, mantiveram a moeda em um ponto de equilíbrio inesperado.
O primeiro desses fatores é um velho conhecido: os juros. O Brasil sustentou uma das maiores taxas reais do mundo, o que funciona como um poderoso ímã para o capital financeiro. Mesmo em momentos de fluxo negativo de dólares no mercado à vista, o apetite por operações de carry trade persistiu. É como se o investidor estrangeiro reconhecesse os problemas do País, mas considerasse o retorno alto demais para ignorá-los.
Em paralelo, o dólar atravessou um período de enfraquecimento no cenário internacional. A economia norte-americana deu sinais de desaceleração, e o mercado passou a precificar a possibilidade de que o Federal Reserve (FED) teria de aliviar a política monetária. Quando o dólar perde força globalmente, moedas de países emergentes ganham algum fôlego. Assim, apesar dos ruídos domésticos, o ambiente externo contribuiu para a relativa calma do câmbio.
Outro elemento relevante foi a percepção, ainda que provisória, de que o Brasil não caminharia para uma ruptura fiscal iminente. Houve barulho político, discussões sobre metas e debates em torno do gasto público, mas nada que indicasse um descontrole imediato. Essa sensação difusa de que “não vai piorar tanto assim” bastou para evitar movimentos mais bruscos. E quando o mercado ameaçava perder o chão, o Banco Central (BC) surgia com intervenções pontuais e discretas, suficientes para sinalizar presença sem provocar sobressaltos.
Olhando adiante, porém, o quadro tende a mudar. A trajetória de queda da Selic reduz o diferencial de juros que sustentou o real por tanto tempo. Com menor prêmio, o investidor estrangeiro se torna mais seletivo. Some-se a isso um ambiente internacional mais incerto e a possibilidade de um governo estadunidense com viés mais protecionista, e o câmbio passa a ficar naturalmente mais sensível. Tarifas, disputas comerciais e mudanças na política industrial dos Estados Unidos podem afetar as exportações brasileiras e, por consequência, o fluxo cambial.
No front doméstico, a política fiscal segue como fonte de dúvidas. O arcabouço aprovado é frágil e, mesmo diante de recordes de arrecadação, o Brasil não consegue gerar superávit primário — muito menos nominal. Essa limitação reduz a margem de confiança do mercado e aumenta a vulnerabilidade do real a choques de expectativas.
A política monetária dos Estados Unidos também ocupa papel central nessa equação. Se o FED mantiver os juros elevados por mais tempo, o dólar tenderá a se fortalecer e a pressionar as moedas emergentes. Caso os cortes venham antes do esperado, o real poderá ganhar algum fôlego adicional. Trata-se de um momento em que o Brasil pouco controla o tabuleiro, resta reagir aos movimentos das peças.
Em síntese, a estabilidade recente do câmbio foi fruto de uma combinação improvável: juros elevados, dólar enfraquecido, expectativas fiscais relativamente contidas e intervenções cirúrgicas do BC. Nada disso assegura que o real continuará comportado. O quadro mais provável é de mais oscilação à frente, refletindo o humor internacional e as decisões de política econômica, tanto aqui quanto no exterior. O que, hoje, parece tranquilo pode rapidamente deixar de ser, se os fundamentos não acompanharem.
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