A partir de 1º de junho o Ministério do Trabalho e Emprego já receberá as declarações
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Selic travada, mas atenção total ao discurso: o que o Copom pode sinalizar ao mercado
Com a taxa básica de juros estacionada e o Ibovespa nas alturas, investidores voltam as atenções ao comunicado do Banco Central, que pode redefinir o humor da Bolsa e do câmbio
Com o Ibovespa na casa dos 150 mil pontos, o mercado financeiro aguarda o anúncio da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que será divulgada nesta quarta-feira (5) a partir das 18h30 (horário de Brasília). A expectativa de economistas é que a taxa básica de juros, a Selic, seja mantida em 15% ao ano. Mas se a porcentagem parece previsível aos olhos dos analistas, o que realmente importa desta vez é o tom do comunicado que acompanhará a decisão e pode mexer com os ponteiros do mercado. Isso porque, na visão dos especialistas, o texto ajuda a calibrar as expectativas sobre o “timing” de eventuais cortes.
Segundo o boletim Focus, divulgado na segunda-feira (3), os analistas consultados pelo Banco Central projetam que a Selic continuará em 15% também na reunião de dezembro, a última do ano. Para os próximos anos, as previsões indicam queda gradual: 12,25% em 2026, 10,5% em 2027 e 10% em 2028.
A inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), segue em leve desaceleração, com projeção de 4,55% para o fechamento deste ano. É a sexta queda consecutiva, embora ainda acima do teto da meta de 4,5%. O Banco Central persegue o objetivo de encerrar o ano com o IPCA em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Ao InfoMoney, especialistas dizem que o comunicado do Copom deve manter um tom cauteloso, condizente com uma economia em desaceleração gradual e inflação ainda resistente. A avaliação é que o Banco Central deve reforçar a estratégia de juros elevados por um período prolongado, priorizando a consolidação da estabilidade de preços antes de discutir cortes.
Se o texto reconhecer a melhora nas expectativas inflacionárias, mas apontar que a ancoragem ainda não é suficiente para justificar reduções, Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, afirma que o mercado deve entender a mensagem como ortodoxa e dentro do esperado. Nesse caso, a reação tende a ser de estabilidade, sem grandes oscilações.
Por outro lado, se o comunicado trouxer ajustes sutis na linguagem, como uma menção à melhora do balanço de riscos ou à possibilidade de flexibilização em um horizonte mais próximo, investidores podem interpretar como sinal de que o ciclo de queda dos juros se aproxima. Mesmo sem alteração na taxa, essa leitura pode aquecer ainda mais o Ibovespa, especialmente em setores mais sensíveis aos juros, como varejo, construção civil e consumo.
Já um comunicado mais firme, reforçando o compromisso com a prudência monetária e sem qualquer brecha para cortes antecipados, tende a provocar uma realização de lucros, conforme Simioni. Após o rali das últimas semanas e a aproximação do índice de referência da bolsa às máximas históricas, parte dos investidores pode aproveitar o momento para embolsar ganhos.
“A depender do tom do comunicado, a manutenção da Selic em 15% pode reduzir o ímpeto do Ibovespa, caso o mercado interprete a mensagem como excessivamente conservadora. Além disso, a taxa elevada mantém o crédito caro, desestimulando o consumo e o investimento produtivo, o que limita as perspectivas de crescimento econômico e o desempenho de ações ligadas à atividade doméstica”, diz.
Sinalizações do Fed
Com a divulgação de estatísticas econômicas suspensa pela paralisação parcial do governo dos Estados Unidos, os holofotes do mercado se voltaram no fim do mês passado completamente para o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell em 29 de outubro. E o tom foi considerado duro pelos mercados.
Powell afirmou que a decisão sobre a próxima reunião do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês) ainda está em aberto, mas sinalizou que há uma tendência entre os dirigentes para interromper o ciclo de cortes de juros. “Cortamos em 25 pontos-base nas últimas duas reuniões e há forte sentimento de que é hora de pausar”, disse.
O presidente do Fed também disse que há divergências entre os integrantes do comitê, o que reforça a leitura de que não existe uma decisão fechada sobre a política monetária de dezembro.
O mestre em finanças e especialista em economia e política internacional, Paulo Godoi Filho, afirma que o discurso de Powell influencia diretamente a estratégia de investidores em países emergentes, como o Brasil. Isso porque o comportamento do Fed costuma ditar o rumo das taxas de juros e do apetite por risco no mundo todo.
Quando o banco central americano adota uma postura mais dovish, termo usado para indicar uma política mais branda e propensa à redução de juros , há uma tendência de queda nas taxas globais, o que favorece os ativos de risco, incluindo os brasileiros. Já quando a sinalização é mais hawkish, ou seja, inclinada a juros mais altos, o efeito é o oposto: o dinheiro tende a migrar para os Estados Unidos em busca de rendimentos maiores e segurança, pressionando moedas e bolsas de países emergentes.
“Mais do que o tom duro, o que o mercado percebeu no discurso de Powell foi um alerta: o Fed ainda não está convencido de que a inflação está sob controle. Isso muda a dinâmica global de risco, porque cada frase dele redefine o fluxo de capitais, e, em países emergentes como o Brasil, isso pode significar depreciação cambial e reprecificação imediata dos ativos”, afirma.
Juros de 15% mantêm seletividade no mercado e
A manutenção da Selic em 15% ao ano pode até soar como uma decisão de prudência do Banco Central, mas no mercado o recado é claro: dinheiro novo, especialmente o estrangeiro, deve continuar esperando para entrar, explica Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos.
“Os investidores estrangeiros seguem um tipo de playbook, uma espécie de manual que orienta onde e quando investir. Eles observam país por país e, quando percebem que uma economia começa a cortar os juros, direcionam recursos para os setores voltados ao mercado interno. Quando essa queda de juros demora a acontecer, o movimento de entrada desses investidores também fica para depois”, observa.
Juros tão altos mantêm o custo do crédito elevado e travam parte da engrenagem da economia, e, como em toda história de mercado, há quem ganhe e quem perca com isso.
Mello diz que, de um lado, brilham as empresas que conseguem gerar muito caixa em pouco tempo e costumam pagar bons dividendos aos acionistas. É o caso dos bancos, do setor elétrico e das companhias de telecomunicação. Todas elas têm uma característica em comum: previsibilidade de receitas e baixo investimento adicional.
No setor elétrico, o fluxo de caixa vem rápido e constante. Em telecom, o investimento (ou capex, no jargão financeiro) é relativamente baixo no Brasil, o que deixa mais sobra de caixa no fim do mês. Já os bancos têm um modelo de negócio naturalmente ajustado a juros altos, vivem do repasse das taxas e da administração do risco.
Do outro lado da mesa, o CEO aponta as empresas que dependem de investimento pesado e demorado para dar retorno, como as de infraestrutura e construção civil. Juros elevados encarecem o financiamento desses projetos e reduzem a margem de lucro. No caso das construtoras de média e alta renda, o problema vai além: com o crédito mais caro, os clientes têm dificuldade para financiar imóveis, o valor das parcelas sobe e o chamado total addressable market (mercado potencial total) encolhe.
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