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Tesouro IPCA+ tem juro real superior a 8%: risco exagerado ou oportunidade?
Taxas dos títulos de inflação não devem sustentar patamar tão alto por muito tempo, segundo especialistas
Os investidores brasileiros já estão acostumados com uma correlação negativa entre juros e Bolsa: enquanto um sobe, o outro desce. No entanto, essa tendência se inverteu nos últimos meses e o cenário atual tem um Ibovespa relativamente próximo do recorde ao mesmo tempo em que os juro real do Tesouro IPCA+ atinge o maior patamar de 2025.
Nesta quinta-feira (16), o Tesouro IPCA+ 2029 oferecia rentabilidade real de 8,03%, levemente abaixo do pico em 2025 de 8,08% alcançado no último dia 7. Os prêmios permanecem altos mesmo enquanto as previsões para a inflação deste ano estão caindo. O último Boletim Focus mostrou que os agentes do mercado esperam IPCA de 4,72%. No início do ano, a estimativa estava em 4,99%.
Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, lembra que, historicamente, “quando os juros reais estão elevados, o investidor é atraído para a renda fixa e ativos considerados de risco – como ações – são deixados de lado”, o que causa a correlação negativa entre renda fixa e ações. No entanto, a própria Bolsa ajuda a explicar a recente quebra dessa tendência. Para ele e outros especialistas, ainda vale a pena investir nos títulos públicos de inflação, mesmo com percepção de risco maior.
Por que Bolsa e juros estão subindo?
O especialista da Suno Research diz que é preciso considerar que o Ibovespa, como qualquer índice, tem fragilidades, e a principal do índice de referência das ações brasileiras está na concentração. “Parte relevante do Ibovespa é composta por empresas ligadas a commodities, como Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4), que têm o desempenho muito mais atrelado aos preços internacionais do que ao juro doméstico”.
Ele argumenta que ações de varejistas, construtoras e empresas de outros setores sensíveis à economia doméstica têm pouco peso no índice de ações, o que ajuda na quebra da correlação inversa entre juros e Bolsa.
Do lado da renda fixa, a recente abertura das taxas tem a mesma justificativa há meses: risco fiscal. “Existe a preocupação com o resultado fiscal a partir do próximo ano”, diz Julio Ortiz, CEO e co-fundador da CX3 Investimentos. Na semana passada, o governo sofreu uma derrota importante com a MP 1303 e agora busca apoio para votação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2026. ]Para a XP, porém, o movimento é “mais técnico do mercado do que uma resposta a alguma notícia”, segundo Camilla Dolle, head de renda fixa do Resarch da XP. Esse movimento técnico abre oportunidade de compra, segundo a especialista.
Vale a pena comprar Tesouro IPCA+ agora?
“Quando há um aumento pontual de juros, como estamos vendo agora, há, sim, uma nova oportunidade de entrar, caso o ativo seja condizente com o perfil do investidor e se ele tem espaço na carteira para títulos atrelados à inflação”, diz Dolle. A XP tem visão positiva para títulos de inflação com duration (prazo médio de recebimento) de até seis anos.
Almeida explica que a abertura dos juros é motivada pelo aumento da percepção de risco por parte do mercado. No entanto, o juro real de 8% no Tesouro IPCA+ “representa uma baita oportunidade de investimento com uma relação entre risco e retorno extremamente favorável para o investidor”.
O especialista pondera que, antes de qualquer decisão pontual, o mais importante é estruturar uma estratégia de acordo com os prazos que o investidor tem em mente. A partir daí as oportunidades podem ser aproveitadas.
Ortiz, da CX3, lembra que “nas outras vezes em que o juro real atingiu o patamar atual, vimos uma forte reversão, beneficiando o investidor”, o que justifica dizer que IPCA + 8% é, sim, uma oportunidade. “O investidor pode aproveitar um retorno historicamente alto na renda fixa, com baixíssimo risco de crédito para fazer um bom investimento”.
Essa oportunidade, no entanto, não deve estar disponível por muito tempo. Para Ortiz, é difícil prever prazos, mas “é possível que, em algum momento nos próximos meses, vejamos uma queda importante do juro real; basta uma sinalização do governo de um fiscal melhor e o Banco Central entender que a inflação atingiu um patamar confortável para a política monetária ser menos restritiva”.
Dolle lembra que um juro real de 8% é “raríssimo” e “não se sustenta por muito tempo”. Logo, a abertura “não deve durar muito”, segundo a especialista.
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