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Fed, o banco central dos EUA, deve cortar juros pela primeira vez no ano; entenda impacto da decisão
Juro americano guia aplicações em todo o mundo, podendo afetar indicadores no Brasil. Movimento acontece diante de fogo aberto por Trump contra instituição
Os olhos do mercado financeiro mundial estarão voltados hoje à decisão da reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). A autoridade monetária da maior economia do mundo deverá decidir por um corte na taxa básica de juros nos Estados Unidos, como esperam investidores e analistas de mercado.
Se o movimento se confirmar, será a primeira redução após seis encontros da cúpula do Fed, e a primeira em 2025.
A instituição, que está sob ataque do presidente Donald Trump, deve ratificar o desejo do republicano, que quer taxas mais baixas, implicando numa desvalorização do dólar e favorecendo a atividade econômica americana em meio à sua guerra tarifária. Mas, apesar da pressão, o caminho a ser tomado pelo Fed é estritamente técnico, apontam analistas. Embora Trump não se conforme com isso, o Fed é autônomo em suas decisões há mais de um século nos EUA.
O possível corte já foi sinalizado por Jerome Powell, presidente do Fed, no fim do mês passado, durante o simpósio de Jackson Hole, que reúne banqueiros centrais de todos os cantos do mundo. No evento, ele expressou sua preocupação com o desaquecimento do mercado de trabalho nos EUA, onde o mandato da autoridade monetária é duplo: emprego e inflação.
Diferente do Brasil, onde o Banco Central também define os juros hoje, mas mira apenas na condução da inflação à meta (hoje em 3%, com uma banda de 1,5 ponto percentual acima ou abaixo deste número como faixa propícia), nos EUA, para além da manutenção de uma inflação em 2%, há também o compromisso de perseguição de um nível de pleno emprego.
— Lá, ao mesmo tempo que ele precisa garantir a inflação na meta, ele tem como prioridade garantir o pleno emprego, com base em uma taxa estrutural de longo prazo, considerada de equilíbrio. Com mandato duplo, ele precisa calcular os dois riscos: uma inflação acima ou abaixo da meta, ou o emprego acima ou abaixo do longo prazo — explica a economista Andressa Durão, da financeira Asa.
O desejo de Trump por taxas mais baixas vem desde sua campanha eleitoral, no ano passado. Com objetivo de estimular uma reindustrialização do país, o republicano tem como desejo um dólar mais desvalorizado e tenta impor sua política tarifária, tentando atrair as fábricas das empresas para o interior de suas fronteiras.
— Um dólar mais fraco, por um lado, ajudaria numa maior competitividade da indústria americana. E as taxas de juro de longo prazo, que precisam melhorar. Mas o ferramental que ele (Trump) usa para execução disso tem sido duvidoso — diz Eduardo Grübler, gestor multimercados da AMW, a gestora da Warren Investimentos.
Aliado e desafeto de Trump votam
A política tarifária de Trump é, na visão do gestor, diametralmente contrária, já que elevaria os custos dos produtos aos americanos, gerando inflação e consequentemente obrigando o Fed a praticar maiores taxas de juros. Isso aumenta a atração de capitais para os EUA em busca de títulos do Tesouro americano, implicando numa valorização do dólar.
A favor de Trump está o fato de que Stephan Miran, indicado pelo presidente para a cúpula do Fed, teve seu nome aprovado no Senado e já poderá votar reunião de hoje. Por outro lado, Lisa Cook, a diretora que Trump tenta afastar, também vai votar, mantida no cargo por uma decisão judicial.
Lupa no comunicado
Dado como certo — 96% dos contratos de juros negociados no mercado apostavam em uma redução de 0,25 ponto percentual —, o mercado financeiro escutará com afinco a entrevista coletiva realizada meia hora depois da decisão, com o pronunciamento de Jerome Powell.
Para a equipe de economistas liderada por Andrew Hollenhorts, do Citi, Powell deve sinalizar uma série de novos cortes, observando os riscos de enfraquecimento do emprego no país.
“Embora o mercado de trabalho pareça estar em equilíbrio, trata-se de um equilíbrio curioso, resultado da desaceleração acentuada tanto da oferta quanto da demanda por trabalhadores. Essa situação incomum sugere que os riscos de deterioração do emprego estão aumentando. E, caso se materializem, podem fazê-lo rapidamente, na forma de demissões em massa e elevação do desemprego”, avaliou a equipe em relatório, acrescentando que a pressão da métrica do emprego pode “justificar um ajuste na postura de política monetária”.
Em junho, na penúltima reunião, o Fed já apontava que poderia reduzir por duas vezes a taxa básica nas quatro reuniões que ainda restavam para o ano. Mas, com a deterioração dos dados do emprego, o BC americano pode correr para evitar uma desaceleração brusca.
Na semana passada, o Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS) revisou o crescimento do mercado de trabalho americano anual até março deste ano de 1,8 milhão para 911 mil. Na divulgação da semana retrasada, dados mais fracos das folha de pagamento e revisão dos meses anteriores mostraram uma redução firme do mercado de trabalho.
Intervencionismo
A decisão acontece num momento em que Trump demonstra irritação não só com Powell, a quem sempre chama de “atrasado” em seus posts na Truth Social. O republicano também abriu uma declarada disputa com a diretora Lisa Cook, tentando até mesmo uma demissão de sua cadeira.
Em agosto, Trump apresentou uma carta em que pede a saída de Lisa do Fed a acusando de fraude hipotecária por uma compra de residência antes de se tornar diretora do banco central. O Departamento de Justiça abriu investigação contra a diretora, que possui um voto no comitê de política monetária.
Ontem, a Justiça americana voltou a bloquear a tentativa de demissão de Lisa por Trump, garantindo seu voto na reunião desta quarta.
Já a diretora Adriana Kugler pediu demissão da sua cadeira no início de agosto, abrindo espaço para mais um indicado de Trump. Ele é Stephen Miran, que cumprirá um mandato tampão até janeiro, quando venceria o mandato de Adriana. A nomeação foi aprovada pelo Senado americano também na segunda, e ele já iniciou seu mandato com uma polêmica que alarmou o mercado financeiro.
Para o banco americano Citi, Michelle Bowman, diretora indicada por Trump em seu primeiro mandato, e Miran, devem votar por um corte maior, de meio ponto percentual, ensejando um desejo do republicano.
Apesar do desejo de intervenção, Alessandra Durão vê a maioria do o comitê adotando o discurso da independência da instituição, principalmente por Powell:
— Ele tem há muito tempo, e continua, com discurso de que manterá Fed independente de decisões políticas. Ele possui imparcialidade política há bastante tempo e manterá isso ao longo de todo mandato — diz a economista do ASA.
Juro americano baliza mercado global
O juro dos EUA calibra o valor do dólar, o que impacta moedas e investimentos em todo mundo. Quando a taxa está alta, parte volumosa dos investidores decide optar por aplicações nos Estados Unidos, já que o país é considerado um dos mais seguros do mundo para “deixar o dinheiro guardado”. Com menos dólares no mundo, seu preço aumenta.
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Ao menor indício de queda do juro por lá, como o que vem acontecendo ao longo dos últimos meses, o capital global começa a buscar aplicações que possam render mais. Isto, além de favorecer ativos com maior risco, como em Bolsa — o Ibovespa, por exemplo, vem renovando seus recordes continuamente motivado por este fator —, a desvalorização favorece uma operação conhecida como carry trade, ou carrego.
Como a taxa de juro no Brasil está no maior patamar em duas décadas, em 15% ao ano, parte desses investidores globais decidem tomar empréstimos em economias com taxas de juros baixas, trazendo a quantia em dólares ao Brasil.
Através deste movimento, os investidores conseguem rendimentos maiores e, consequentemente, há redução no valor do câmbio por aqui. Este foi um dos fatores para derrubar a cotação, flertando com os R$ 5,30 ontem.
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