Mecanismo de compensação não encontra respaldo na legislação vigente
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A vacina está quase aí. Desafio será distribuição ágil e segura
Governo de SP anunciou que já mobiliza 77 mil profissionais para que a Coronavac chegue à população no próximo dia 25 de janeiro. Mas transporte e armazenamento são pontos de atenção
O Ministério da Saúde acaba de assinar contrato com o Instituto Butantan, que permite adquirir 100 milhões de doses da Coronavac para serem distribuídas de forma equitativa e proporcional pelos estados brasileiros.
Na última segunda-feira (11/01), mesmo com algumas pendências no pedido do instituto para uso emergencial da vacina a serem apresentadas à Anvisa, o governo de São Paulo anunciou o plano logístico estadual de vacinação do SUS contra a covid-19, que deve começar no próximo dia 25 de janeiro.
A campanha paulista, que deve ser iniciada mesmo se o governo federal não começar na mesma data, vai mobilizar 77 mil profissionais da saúde e segurança em todo o estado, que atuarão desde as etapas de armazenamento, envio de doses e insumos às regiões e municípios até a aplicação nos postos.
Mas, ainda que a Coronavac e a vacina de Oxford/Astra-Zeneca, pela Fiocruz, sejam autorizadas rapidamente pela Anvisa, sinalizando perspectivas mais próximas de saída da pandemia por aqui, um dos principais desafios será transportá-las e armazená-las em condições ideais para não perder a qualidade até chegar à população.
Um estudo global sobre o fornecimento de logística estável para vacinas e produtos hospitalares durante a pandemia, da DHL Supply Chain em parceria com a McKinsey & Company, dá uma ideia disso.
Com mais de 250 vacinas sendo desenvolvidas e testadas em sete plataformas tecnológicas pelo mundo, a projeção da DHL para cobertura global de vacinas contra a covid-19 é de até 200 mil embarques de paletes, 15 milhões de entregas em caixas de refrigeração e 15 mil voos para manter a temperatura adequada.
Uma vez que essas vacinas pularam fases de desenvolvimento devido à necessidade emergencial de uso, requisitos mais rígidos de temperatura (até -80°C) poderão ser impostos para algumas delas.
Esses requisitos, segundo o estudo, geram novos desafios de logística para a atual cadeia de suprimentos hospitalares, que normalmente distribui vacinas a temperaturas médias de 2°C a 8°C. No Brasil, especificamente, um desafio ainda maior para produção e distribuição são suas dimensões continentais.
Outra questão importante: como o fornecedor da vacina provavelmente não é o mesmo fornecedor das seringas e das agulhas, pela gigantesca quantidade envolvida isso deve criar uma variável a mais no processo.
"No cenário onde é preciso distribuir de uma vez as doses de uma vacina ultracongelada, só planejamento e definição de grupos prioritários eliminam eventuais gargalos dessa cadeia", diz Marcos Cerqueira, vice-presidente de Saúde da DHL, que há 10 anos é a responsável pela distribuição nacional da vacina da gripe.
PPP
Ainda que o país tenha expertise em manuseio de embalagens isotérmicas, além de ser referência em vacinação tanto do ponto de vista público como do privado, um dos gargalos seria o transporte entre aeroportos, fábricas e a posterior transferência aos armazéns e centros de distribuição, diz Cerqueira.
"A depender da quantidade disponibilizada para distribuições intermediárias nos pontos de aplicação, pode haver uma maior possibilidade que esses gargalos aconteçam", afirma o vice-presidente da DHL.
Para evitar perdas, o setor logístico está até investindo em soluções de IoT que garantam o monitoramento da temperatura das vacinas em tempo real ao longo da cadeia de distribuição e armazenamento, destaca.
Porém, nesse momento emergencial, todos os envolvidos devem ficar atentos para não existirem variações fora dos limites especificados que levem à perda de imunizantes manuseados nesse processo complexo.
aMesmo que o Brasil tenha tradição em campanhas de vacinação, segundo Cerqueira, o processo é muito mais complexo do que na Europa. Só em São Paulo, a Secretaria da Saúde deve enviar o imunizante para suas 15 macrorregiões, que serão distribuídas pelos 645 municípios.
"Apesar de o país fazer isso há muito tempo, esse processo de ultracongelamento exige maior capacitação, para melhor controle de estabilidade nas caixas isotérmicas e por um maior número de dias, até serem disponibilizadas para aplicação", explica.
No caso da DHL, especializada em logística de vacinas, sua estrutura para armazenagem e movimentação desse tipo de carga, com nove centros de distribuição e 350 veículos para atender ao mercado de cadeia fria, é certificada pela Anvisa. Mas, para Cerqueira, o sucesso da operação depende de um trabalho 'colaborativo'.
Ou seja, só com uma estreita parceria público-privada, ou PPP, é possível distribuir uma quantidade expressiva de doses da vacina quase simultaneamente ao país inteiro, afirma. A própria DHL tem um projeto de cooperação de empresas de logística com órgãos públicos, políticos, ONGs e indústrias de life sciences.
A estrutura, segundo a multinacional alemã, ajuda a estabelecer medidas que garantam maior estabilidade e segurança possíveis nas cadeias de suprimentos, além de plano de resposta a emergências habilitado para TI.
"Sozinho, ninguém consegue fazer essa logística acontecer", reforça o vice-presidente da DHL.
No plano logístico de São Paulo, as doses da Coronavac sairão do Butantan e serão acondicionadas no Centro de Distribuição e Logística (CDL) do Estado. A partir dele, grades semanais serão distribuídas pela rede de saúde, com entregas diretas a 200 municípios mais populosos a serem retiradas em 25 CDLs.
Já as prefeituras deverão garantir abastecimento nos postos de vacinação, segundo o governo. Esse plano prevê saídas semanais de grades com 2 milhões de doses, em caminhões refrigerados com monitoramento de temperatura, rastreabilidade, equipe de apoio e auditoria independente sobre a carga.
Em média, 70 rotas deverão ser percorridas semanalmente, segundo o governo. Além das 5,2 mil câmaras de refrigeração dos postos fixos do SUS em São Paulo, foram adquiridos 75 milhões de seringas e agulhas.
COMÉRCIO DEVE CONTINUAR A FAZER SUA PARTE
A despeito das aglomerações de consumidores nos principais polos no fim do ano, o comércio não conseguiu recuperar as perdas causadas pela pandemia ao longo de 2020. Muitos lojistas, por sua vez, vêm depositando suas esperanças na chegada da vacina para melhorar a situação. Pelo menos no médio prazo.
Às vésperas da entrega da primeira leva do imunizante à população, outra expectativa, a princípio, é pela eficiência (ou não) desse processo logístico complexo, e seus possíveis impactos sobre o setor.
Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que tanto a disponibilidade das vacinas como a eficiência logística são fatores importantes para criar um ambiente de maior segurança, seja para as atividades econômicas como para a locomoção da população.
Para o comércio, assim como para muitos serviços, quanto mais rápida e abrangente for a vacinação, melhor será para a retomada das atividades, destaca.
Porém, em sua avaliação, cabe aos comerciantes torcerem pelo seu sucesso, além de incentivarem e orientarem a população a participar e colaborar o quanto possível para o êxito da campanha.
"Quanto mais demorada a vacinação, e menor sua abrangência, menos condições terá o comércio para retornar à normalidade e recuperar suas perdas", alerta o economista.
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