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Inadimplência: caminhamos para um achatamento da curva
Postergação de dívidas e medidas de auxílio mudam a tendência esperada da curva
As medidas restritivas e de isolamento social impostas ao redor do mundo tiveram como objetivo reduzir a velocidade de propagação e contágio do novo coronavírus, evitando, assim, um colapso nos sistemas de saúde.
Ficou amplamente disseminada neste período a tese do “achatamento da curva” de contaminação como forma de evitar que muitos pacientes utilizassem as UTIs simultaneamente aos atendimentos corriqueiros, algo que sobrecarregaria os hospitais, que normalmente já convivem com a escassez de leitos, equipamentos médicos e remédios.
Sem as medidas de restrição, o número de novos casos poderia ter sido bem mais elevado e, consequentemente, a curva de contaminação seria mais íngreme. Contudo, seria esperada, também, uma subsequente queda mais acentuada, embora isso não possa ser afirmado com toda a certeza.
Fato é que isso, a contenção do número de casos de coronavírus, teve um preço muito alto, a indústria e o comércio despencaram nos meses de março e abril, a confiança dos agentes ruiu e, por fim, o desemprego disparou e atingiu os maiores níveis da série histórica.
Ainda que estes números tenham retornado aos patamares pré-pandemia, conforme publicações mais recentes, o cenário de recuperação para 2021 ainda é desafiador.
Analogamente, é possível traçar um cenário similar para inadimplência no mercado de crédito. Os credores, na tentativa de conter um aumento significativo da inadimplência num curto espaço de tempo, propuseram novos acordos para dar sobrevida a seus clientes. Contudo, assim como o achatamento da curva de contaminação por coronavírus, o achatamento da taxa de inadimplência deverá cobrar o seu preço, e este costuma ter forte ligação com o fator desencadeador do processo.
Nas últimas grandes crises provocadas por fatores externos, em 2001 com a bolha da internet e em 2008 com a crise do subprime, os movimentos da inadimplência seguiram um padrão de comportamento. Rapidamente cresceram mais de 20% em cerca de 8 a 10 meses, como era esperado, mas regressaram ao mesmo patamar num curto espaço de tempo.
No entanto, as crises mais recentes de inadimplência estiveram relacionadas a fatores internos, como a explosão do crédito no início da década de 2010 e a forte crise dos anos 2015 e 2016. Nesses casos, essa dinâmica, de crescimento e queda subsequente da inadimplência, foi mais prolongada.
Em poucas palavras, a história recente mostra que os ajustes sobre a inadimplência, após rápida elevação, são muito vagarosos quando o fator catalizador da crise é interno. Atualmente, este fator é mundial, de forma que a volta aos patamares pré-crise deveria ser mais lenta.
Em meio à pandemia, os grandes bancos brasileiros optaram por medidas paliativas a fim de evitar uma escalada na inadimplência, por meio da renegociação dos prazos e condições, e isso se traduziu numa queda da taxa de inadimplência divulgada pelo Banco Central do Brasil desde então.
Isso não quer dizer, porém, que o problema da inadimplência tenha sido resolvido, caso contrário, os mesmos bancos não teriam aumentado suas provisões para devedores duvidosos (PDD) como ficou evidente nos balanços divulgados referentes aos resultados do 2º e 3º trimestres de 2020.
A ideia inicial foi postergar a solução do problema para um momento mais favorável e em melhores condições econômicas, de renda e de emprego, uma vez que, o momento atual era de muita incerteza e de forte deterioração das expectativas. Os grandes bancos sabem, também, que cedo ou tarde essa conta vai chegar e estão trabalhando para minimizar os impactos da pandemia sobre o mercado de crédito brasileiro.

No entanto, vale a pena ressaltar que os grandes bancos, apesar de maioria, não são os únicos agentes desse mercado. Outros credores, que não tiveram as mesmas condições de renegociar seus créditos com os clientes, sentiram de imediato os efeitos da pandemia.
Nas empresas de varejo, por exemplo, a inadimplência disparou e, ainda assim, na maioria dos casos houve aumento do nível de provisões para PDD, ou seja, o pior ainda pode estar por vir.
Evidentemente, em números totais e oficiais, o aumento da inadimplência no varejo não foi perceptível dada a relevância dos grandes bancos no mercado de crédito brasileiro, ainda assim, isso pode servir de termômetro aos grandes bancos na tentativa de estimar o tamanho da conta a ser paga no futuro, de modo que a dosagem para prevenção de efeitos colaterais pode ser aumentada daqui em diante.
Os dados mais recentes já apontam para uma desaceleração vertiginosa na concessão de crédito, resultante do impacto da pandemia sobre o nível de atividade e emprego, caso contrário, num momento histórico de baixa taxa de juros, seria muito mais provável um cenário de aceleração da concessão.
Outro movimento que pode vir a ser verificado seria o de restringir o crédito às categorias mais arriscadas, uma alternativa aos credores como forma de mitigar os riscos futuros e reduzir a demanda por provisões.
Em resumo, pode-se dizer que a pandemia aconteceu num momento ruim, uma vez que vários fatores apontavam para uma melhora consistente da economia brasileira como um todo, com os juros relativamente baixos, a inflação controlada e o nível de ociosidade ainda era relativamente alto, ou seja, não haveria necessidade de grandes investimentos para reaquecer a economia, o mercado de crédito estava num ótimo momento mesmo com o aumento do comprometimento de renda das famílias, pois as expectativas eram muito boas, e o mercado de trabalho, ainda que tenha sido tímido no ano de 2019, poderia enfim mostrar alguma melhora. Mas, talvez, pudesse ter vindo num momento muito pior.
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