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Mercado de trabalho: quais setores devem se recuperar primeiro?
Economistas consultados pela reportagem projetam tempos difíceis, mas apontam os setores de energia, tecnologia, comunicações e logística como principais potenciais de retomada mais rápida. Setor de serviços é incógnita
Ainda não há previsão para o fim da crise do novo coronavírus no País e no Estado ou como a economia irá reagir a partir dos impactos gerados pela pandemia, mas o mercado de trabalho deverá apresentar uma queda considerável na renda média da população. A análise dos economistas consultados pela reportagem ainda aponta que é praticamente impossível prever como alguns setores da economia irão reagir ou sair da crise, mas alguns deles, como o comércio de bens semiduráveis, transportes, energia e de produtos de limpeza individual ou sanitária poderão ter uma recuperação mais acelerada.
A previsão já parte da expectativa de que a capital cearense avance para segunda fase para o plano de retomada responsável da economia montado pelo Governo do Estado. Contudo, é preciso ter bastante cautela para fazer uma análise mais precisa, uma vez que os dados ainda estão sendo levantados por pesquisas, e a recuperação ainda está nas fases iniciais, sem a confirmação, ainda, da evolução do plano.
Apesar do cenário nebuloso, os especialistas concordaram que os mercados de trabalho cearense e brasileiro deverão registrar uma queda no nível médio de renda dos trabalhadores, o que poderá mudar o perfil econômico de alguns segmentos e as relações de consumo em várias regiões.
Para o professor do curso de economia ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Aécio Alves, além disso, é muito pouco provável que a economia supere o patamar anterior à crise. Mesmo depois de um certo período, ele projeta que a atividade econômica e o número de empregos seja menor ou igual ao que era registrado antes da crise.
Mas ele aponta que alguns setores poderão ter uma recuperação um pouco mais rápida justamente pelo caráter das mudanças impostas pela pandemia. Entre eles, estão o setor de transportes e combustíveis, que poderá registrar alta a partir do retorno das pessoas aos postos de trabalho; e o setor de produção de itens de higiene individual ou sanitária das empresas. Com as pessoas voltando ao trabalho, a compra de combustíveis e uso de transporte público deverá aumentar, enquanto a compra de itens de limpeza será essencial para os protocolos de reabertura.
A retomada também deverá impulsionar os setores de infraestrutura, como energia, e de logística, com o transporte de cargas para reposição de estoque de empresas, por exemplo. Mas ele destacou que é pouco provável que estes segmentos superem os níveis anteriores à pandemia.
"Na melhor das hipóteses, teremos o mesmo nível de atividades de antes. Há um temor das pessoas em sair às compras por conta de uma segunda onda de contágio, então o setor público terá de ser severo com os cuidados sanitários, o que pode aumentar o potencial do setor limpeza ou de produção de álcool em gel", disse o professor.
Em baixa
Já o economista Alex Araújo apontou que é preciso aguardar um pouco mais para que se possa fazer uma análise precisa da retomada. Ele, contudo, disse que já é possível registrar uma alta no nível de busca por itens semiduráveis no comércio cearense, destacando a compra de peças de vestuário ou eletroeletrônicos. Essa poderá ser a tendência das próximas fases da retomada, mas ainda há incertezas.
Na contramão, Araújo ponderou que há um receio considerável relacionado a outros segmentos dos setores de comércio e serviços. Ele destacou que o caráter de gerar potenciais aglomerações deverá ser um dos freios segmentos como a hotelaria e toda a cadeia do trade turístico.
"Nesse primeiro momento, tivemos uma certa procura por itens de vestuário e os outros segmentos irão evoluir com o tempo. O setor de serviços, no entanto, ainda é uma incógnita, porque depende muito da aglomeração", disse. "Mas isso tudo vai depender muito do consumidor, que está saindo da pandemia com um endividamento maior do que entrou na crise e com uma capacidade reduzida de consumo pela redução da renda", completou.
Araújo se referiu ao número de postos de trabalho encerrados durante a pandemia. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia, o Ceará perdeu 25,6 mil empregos formais entre janeiro e abril deste ano. O dado pode ser visto como impacto direto da redução da atividade econômica.
Mercado de trabalho
Outro fator importante é que muitos cearenses perderam renda, seja por encolhimento de negócios ou pela redução de jornada de trabalho e salário pela MP 936, do Governo Federal. Ela permite redução de 25%, 50% e 70% do salário do funcionário.
E sobre essa perspectiva, o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Reginaldo Aguiar, projeta ainda que o País poderá sair com uma taxa de desemprego próxima aos 20%, afastando milhões de brasileiros do mercado de trabalho.
"O mercado vai reagir devagar e vamos sair menores. Ninguém sabe dizer ao certo como vai ficar a taxa de desemprego, mas ela já era muito alta. Ela deve aumentar significativamente, com previsões de chegar até 20%, com trabalhadores precarizados e com relações de trabalho enfraquecidas", apontou Aguiar.
Ele ainda destacou que há previsões de que os setores de tecnologia e comunicações poderão registrar uma recuperação mais rápida durante a retomada.


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