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2020: o ano da retomada econômica?
Time de analistas diz que caminho será longo e que a recuperação gradual da economia não vai gerar uma sensação de bem-estar na população a ponto de ser decisiva para uma reeleição do presidente Jair Bolsonaro em 2022
O Brasil engrenou uma retomada cíclica que deve garantir um crescimento econômico de 2% a 2,5% (ou levemente maior após 2020) até a eleição de 2022. Isso só não deve ocorrer se houver no caminho uma piora do cenário externo ou alguma crise política mais séria do governo Jair Bolsonaro. Esses foram pontos quase de consenso entre os participantes do seminário de perspectivas Ibre-Estadão do quarto trimestre, realizado na última quinta-feira (12/12), na FGV de São Paulo.
O economista Fernando Veloso, da Fundação Getulio Vargas (FGV), acredita que a recuperação gradual da economia não vai gerar uma sensação de bem-estar na população a ponto de ser decisiva para uma reeleição do presidente Jair Bolsonaro em 2022, até porque o próprio presidente, com sua estratégia de polarização, retarda a retomada.
"O desemprego vai continuar bastante alto e não vejo sinais no curto prazo de (que vá) diminuir", afirmou o economista. "Ainda mais com essa estratégia de polarização, que vai impedir uma recuperação mais forte, pois o empresário vai pensar muito antes de investir. O que funciona politicamente para Bolsonaro é disfuncional do ponto de vista da economia".
Para o economista Samuel Pessoa, também da FGV, é importante analisar a geração de vagas, pois o desemprego seguirá alto por causa do aumento de pessoas que entram no mercado em momentos de recuperação econômica.
"Então, uma retomada medíocre pode nos levar a repetir a eleição de 2018, com Bolsonaro e o PT no segundo turno", afirmou.
A coordenadora do Ibre/FGV, Silvia Matos, disse que acredita ser necessário esperar os dados do primeiro trimestre de 2020 para ter mais clareza, no segundo trimestre, sobre uma nova redução de juros por parte do Banco Central.
"Talvez o BC ainda não tenha dimensão de quanto vai ser o repasse dos choques na inflação. É preciso esperar os dados do primeiro trimestre para avaliar os efeitos defasados da política estimulativa, o quanto da aceleração de curto prazo vai ter de conter de aceleração do consumo das famílias", disse.
"Uma análise qualitativa do comunicado de ontem (quarta-feira) mostra cautela nas projeções. No segundo trimestre teríamos mais certeza sobre reduzir mais ou não a Selic", acrescentou.
Para Silvia, os núcleos da inflação continuam preservados. A economista chegou a fazer uma crítica ao comunicado do BC ao dizer que o texto foi "muito benigno" em relação ao cenário externo.
"A gente não tem certeza", disse Silvia. Na quarta-feira o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a Selic de 5% para 4,5% ao ano, a mais baixa taxa da história.
FALTA DE TRANSPARÊNCIA
O economista Bráulio Borges, do FGV/Ibre, voltou a criticar o que ele chama de falta de transparência do BC em relação a suas premissas para conduzir a política monetária, como a estimativa de ociosidade do produto, e disse que isso dificulta o entendimento de por que as projeções apontadas no comunicado de quinta-feira foram alteradas.
"Se o BC fosse mais transparente em relação à estimativa de ociosidade, de premissas para a alta de preços de alimentação, não estaríamos tendo todas essas dúvidas para entender porque as projeções mudaram na direção contrária do que muitos esperavam", afirmou o economista. Borges chegou a comparar o momento atual ao que se viveu em 2011 e 2012.
"A falta de transparência em relação às premissas poderia ter evitado o que aconteceu em 2011 e em 2012, quando houve exagero, e também para entender o que acontece agora", disse.
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