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Ajustes na estrutura levam finanças de empresas ao patamar pré-crise
Porém, sinais de melhora em indicadores como geração de caixa e pagamento de dívidas são reflexo do enxugamento de despesas fixas por conta da recessão - como a folha de pagamento, diz Cemec-Fipe
Depois de três anos de resultados negativos, o desempenho das empresas começa a dar sinais de melhora. A boa notícia aparece em alguns indicadores financeiros, como geração de caixa e capacidade de pagamento da dívida, que voltaram ao nível de 2014, antes do início da crise econômica, segundo levantamento do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe).
Os dados, no entanto, são mais reflexo do ajuste feito pelas companhias em suas estruturas do que da retomada do País, explicam economistas. Com a forte e prolongada recessão, as empresas tiveram de reduzir a folha de pagamento - ou seja, demitir funcionários - e enxugar outras despesas fixas para se adequar ao novo cenário econômico, de receitas mais baixas.
Altamente endividadas, elas também foram obrigadas a se desfazer de ativos para fazer caixa e reduzir o nível da dívida. Com uma estrutura mais enxuta, a ligeira retomada econômica acabou tendo reflexo positivo no balanço das companhias. Num grupo de 1.342 empresas (1.088 fechadas e 254 abertas), a geração de caixa teve o melhor desempenho em oito anos.
Segundo o diretor do Cemec-Fipe, Carlos Antonio Rocca, responsável pelo estudo, a melhora nos indicadores foi puxada especialmente pelas empresas de capital fechado. "Os números revelam uma situação financeira melhor entre as empresas de capital fechado do que as de capital aberto."
O índice de alavancagem - que mede o grau de endividamento da empresa - também apresentou melhora. No caso das empresas de capital fechado, o indicador já é menor que o registrado no período pré-crise e, nas companhias abertas, está bem próximo de chegar a esse nível. Rocca afirma que a redução da taxa básica de juros ajudou na evolução dos números.
De agosto de 2016 para cá, a Selic caiu de 14,25% para 6% ao ano. "O corte na taxa básica impacta diretamente no pagamento dos juros, nas despesas financeiras e na captação de recursos pelas empresas, que fica mais barata", diz Rocca.
Exemplo disso é que, na média, o porcentual de empresas que não conseguem gerar caixa nem para pagar os juros da dívida diminuiu e está menor do que o nível pré-crise. No auge, em 2016, 38% das empresas com atuação no Brasil estavam nessa situação. Hoje está em 27,5% - abaixo dos 27,8% de 2014. Nas companhias fechadas, esse porcentual caiu para 23,6%.
CORTES
Entre as empresas que conseguiram sair desse grupo está a construtora Serveng. A geração de caixa cresceu substancialmente, segundo o levantamento do Cemec. Mas, comprovando a tese dos economistas, o desempenho é resultado de um forte enxugamento nas despesas fixas e na maior seletividade dos contratos conquistados - o que reduziu o tamanho da construtora.
Em termos de faturamento e carteira de projetos, a empresa foi reduzida para 40% do que era antes da crise. "Hoje as empresas vivem outra realidade com um cenário muito diferente daquele do pré-crise", afirma a professora do Insper, Juliana Inhasz. Para ela, a recessão fez com que muitas empresas repensassem suas estruturas e seus tamanhos. Mas, por ora, a professora não considera que a situação esteja confortável.
"Ainda há muita dificuldade de se recolocar no mercado. O cenário está melhor porque a base era ruim."
De qualquer forma, os economistas veem os números como uma sinalização positiva. A professora de finanças da Fundação Dom Cabral, Virginia Izabel de Oliveira, diz que a melhora dos indicadores pode provocar uma onda de otimismo e confiança que acabam fazendo a roda girar. "É um movimento lento, mas para cima. Isso faz com que os mercados se animem."
DÍVIDA EXTERNA
O economista José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) e pesquisador do Ibre/FGV, destaca que a melhora na geração de caixa das empresas é resultado de uma maior produtividade, mas também de um profundo corte nos investimentos. Além disso, ele destaca que o forte ajuste feito pelas empresas desde o início da crise foi baseado muito em troca de dívidas.
As companhias substituíram empréstimos caros com bancos nacionais por captações no exterior ou emissões de títulos no mercado de capitais. Para o professor Istvan Kasznar, da FGV/Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas), o resultado das empresas é só um alento diante do desempenho negativo dos últimos anos.
"Os indicadores mostraram que elas estão menos piores, mas o problema da falta de demanda continua."
Como todas as empresas do setor imobiliário, a Brasil Brokers teve de se reinventar com a crise. O presidente da empresa, Claudio Hermolin, diz que a saída foi rever os processos, a estrutura e a estratégia de atuação. No auge da crise, entre 2016 e 2017, decidiu criar um novo plano para deixar a empresa menos sensível a ciclos do mercado imobiliário, com a diversificação das receitas do grupo. Com a estrutura mais enxuta, tem conseguido reverter resultados negativos.
"No momento, estamos no break even (equilíbrio) operacional. Ou seja, geramos caixa para pagar a operação, mas ainda não temos lucro."
Para ele, a grande lição que as crises trazem para as empresas é a possibilidade de repensar os modelos e a forma de atuação.
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