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Notícia
Será que vale a pena sempre dar desconto em vendas a dinheiro?
Depende. Em primeiro lugar, o comerciante deve conhecer e calcular todos os custos envolvidos nas vendas realizadas em cada meio de pagamento
Foi sancionada nesta semana a lei que permite a cobrança de preços diferenciados de acordo com o meio de pagamento, uma antiga demanda do comércio.
Mas será que sempre vale a pena dar descontos para pagamentos em dinheiro? Como sempre, quando se trata de economia e negócios, a resposta é: depende.
Primeiramente, é preciso conhecer e calcular todos os custos envolvidos nas vendas realizadas em cada meio de pagamento.
Nas vendas no cartão de débito, por exemplo, além dos custos fixos com o aluguel da maquininha, o estabelecimento paga para a credenciadora um percentual sobre o valor de cada venda, chamado de taxa de desconto.
De acordo com os últimos dados do Banco Central (BC), no último trimestre de 2015 a taxa média de desconto para transações com cartão de débito era de 1,5%. A taxa, porém, varia de acordo com o perfil do estabelecimento e da credenciadora.
Nas vendas no cartão de crédito, além dos custos fixos com o aluguel da maquininha e da taxa de desconto, que é mais alta do que a do débito (2,5%, em média, de acordo com dados do BC do quarto trimestre de 2015), há o custo decorrente do maior prazo para o recebimento das vendas (30 dias, em média).
A taxa de juros representa o custo do dinheiro no tempo. Os valores que o estabelecimento recebe somente após 30 dias poderiam ser aplicados no mercado financeiro, por exemplo, rendendo juros (0,6% ao mês se considerarmos uma aplicação com retorno de 100% da Selic e imposto de renda de 22,5%).
Caso o estabelecimento opte por receber antecipadamente estes valores, em uma operação conhecida como antecipação de recebíveis, ele pagará uma taxa de juros (de 2,2% ao mês, em média, de acordo com dados de abril do BC).
Além disso, as taxas pagas pelos lojistas nas vendas parceladas sem juros costumam ser mais elevadas (cerca de 3,1% em 2015, segundo estimativas elaboradas a partir de dados do Bacen e da Abecs), bem como o prazo de recebimento.
Já as vendas pagas em dinheiro não têm custo, certo? É aí que muitos se enganam. Ao contrário do que sugere o senso comum, há pelo menos três diferentes custos relacionados às vendas em dinheiro.
O primeiro advém das perdas relacionadas a roubos e fraudes – no caso das vendas no cartão, os valores são garantidos pela administradora e depositados diretamente na conta bancária do estabelecimento.
Além disso, conforme ensina o bordão, tempo é dinheiro. Vendas pagas em dinheiro podem demandar idas ao banco para a realização de depósitos e busca de troco, ou seja, tempo que poderia ser utilizado para alavancar o faturamento do estabelecimento ou mesmo para o lazer do lojista.
Atividades como contagem, recontagem e armazenagem e itens de segurança, como cofres e transporte de valor, também geram custos que precisam ser considerados.
No mais, é preciso estar atento ao fato de que o aluguel da maquininha é um custo fixo.
Caso o estabelecimento opte por aceitar cartões, ele terá esse custo independentemente do volume de vendas realizado nos meios eletrônicos. Assim, o custo do aluguel não deve ser considerado no cálculo dos descontos.
Vale ressaltar, por fim, que, especialmente nas grandes cidades, onde é cada vez maior o volume de pagamento com cartão e o hábito de sacar dinheiro é cada vez menos frequente entre a população, não aceitar cartão pode significar perder vendas.

SIMULAÇÃO
Imaginemos uma microempresa que fature R$ 360 mil por ano (o equivalente a R$ 30 mil por mês ou cerca de R$ 7,5 mil por semana ou, ainda, R$ 1,5 mil por dia útil, considerando um mês de 20 dias úteis).
Digamos que ela pague 2% sobre cada venda no cartão de débito, 5% sobre cada venda no cartão de crédito e antecipe 100% dos recebíveis das vendas no cartão de crédito (apenas vendas em uma única parcela) a uma taxa de juros de 3%.
Além disso, suponhamos que este estabelecimento realize um terço das vendas no cartão de crédito, um terço no cartão de débito e um terço no dinheiro.
Por mês, o custo variável das vendas com cartão seria de R$ 1 mil (ou R$ 12 mil por ano, o que representa 3,3% do faturamento anual do estabelecimento).
De maneira geral, o senso comum sugeriria dar desconto de até 8% nas vendas em dinheiro e 6% nas vendas realizadas no cartão de débito.
Caso o estabelecimento passe a realizar todas as vendas no dinheiro, por exemplo, mas seja assaltado no final de um dia útil, após ter faturado R$ 1,5 mil, a perda para o estabelecimento será superior ao que seria o custo variável das vendas no cartão de um mês inteiro (R$ 1 mil).
Além disso, se tivesse sido mantido o padrão de vendas anterior (um terço em cada meio de pagamento), apenas R$ 500 em dinheiro estariam na loja para serem roubados.
Sabemos que, infelizmente, segurança pública é um dos graves problemas do país. Dependendo da localização e do histórico de assaltos do estabelecimento, alguma probabilidade de perda por roubo deveria ser considerada no cálculo dos descontos para vendas em dinheiro – e não apenas os custos diretamente relacionados às vendas no cartão.
Da mesma forma, custos decorrentes do maior fluxo de dinheiro no estabelecimento, como os associados a armazenagem e transporte de valor, também deveriam ser levados em conta.
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