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O mala do escritório pode até ser eficiente, mas desanima a equipe
Pesquisa aponta que funcionários ranzinzas são mais focados, mas especialistas alertam para o perigo deste perfil
No seu escritório, você é o chato, que está sempre concentrado nas suas tarefas e prefere não se envolver com qualquer outra situação da empresa, ou o super animado, que quer fazer parte de todos os projetos? Para pesquisadores das universidades de Illinois e da Pennsylvania, nos Estados Unidos, o perfil ranzinza é mais eficiente e produtivo para as empresas, por ser focado e dedicado. No entanto, especialistas ouvidos pelo iG apontam que incentivar esse comportamento pode prejudicar, e muito, a sua equipe.
Segundo o estudo, publicado pela revista "Social Psychology", a pessoa que não gosta de quase nada, quando finalmente encontra uma tarefa que lhe agrada, acaba ficando mais focada e dedica mais tempo para executá-la. Já os que gostam de tudo dedicam menos tempo para cada uma das várias tarefas, não conseguindo se especializar em um determinado tema e perdendo o foco mais facilmente.
Baseando-se nesta pesquisa, pode até parecer mais interessante ter um funcionário ranzinza, mas será que incentivar esse comportamento é mesmo a melhor saída? Para Rogério Boeira, especialista em desenvolvimento de pessoas e fundador da Corporativa Cultman, isto só funciona a curto prazo. “O que a gente precisa se perguntar de fato é: o que a gente está querendo com esse tipo de resposta [da pesquisa]? É tornar os funcionários mais insatisfeitos? É retroceder dois séculos? Se de fato [ser ranzinza] é bom, então o ótimo seria o regime escravocrata, em que todo mundo estava insatisfeito”, critica.
Para Boeira, o ideal é sempre buscar a satisfação do funcionário, e ninguém vai atingir isso sendo amargo. Além disso, a responsabilidade também é da empresa de desenvolver o seu funcionário e deixá-lo realizado com sua função. “As pessoas que se sentem bem e são saudáveis vão ser mais produtivas em um longo prazo. Ter funcionários mais engajados e que sintam que são donos da empresa é o melhor caminho”, diz ele.
Quem concorda é o especialista Rodrigo Miwa, sócio da Hound Consultoria, voltada ao setor de recrutamento profissional. De acordo com ele, a capacidade de trabalhar em equipe é uma das características mais procuradas durante um processo seletivo, e o profissional ranzinza pode não ser a melhor opção. “A maioria das pessoas tende a não se identificar com os profissionais mal humorados, que reclamam de tudo e que apenas enxergam o lado negativo das coisas. Esse perfil tende a afastar algumas pessoas com as quais ele deveria trabalhar em equipe”, conta.
Outra observação feita pelos especialistas é que a pesquisa foi feita em um país onde a cultura é diferente da nossa, principalmente em relação ao ambiente corporativo. "O americano é muito mais pragmático que o brasileiro. Em um ambiente de trabalho em que o relacionamento é muito valorizado, como aqui, o 'não' do chato pode ser ouvido como uma falta de interesse e indisposição. O 'não' nos EUA é muito mais aceito", comenta Marco Fabossi, sócio-especialista da Crescimentum.
Consequentemente, aquele seu colega que não gosta de nada pode acabar atrapalhando o clima do escritório, e cada vez mais as pessoas se preocupam com a qualidade do ambiente de trabalho. Ninguém quer passar dez horas em um ambiente em que não há harmonia.
O chato também tem qualidades
Apesar de não ser o perfil ideal de profissional, como todos os outros, os ranzinzas também tem as suas qualidades – e tentar absorver algumas delas pode ser bom para todas as pessoas, inclusive o super animado, que também não é perfeito.
“Os chatos trazem uma coisa que eu chamo de 'insatisfação positiva'. É alguém que sempre acha que algo pode ser melhor. Isso pode ser muito positivo, pois eles são muito exigentes e trazem isso para o ambiente corporativo”, observa Fabossi. Esse olhar crítico e o desejo de aperfeiçoar o seu trabalho, no entanto, não pode ser confundido com grosserias ou um perfeccionismo exagerado. “Tem de ter um equilíbrio”, diz Fabossi.
Outro ponto positivo, como apontado pelos pesquisadores Justin Hepler e Dolores Albarracín, é que os funcionários mais chatos não se deixam sobrecarregar de trabalho. De acordo com o estudo, eles gastam a mesma quantidade de tempo trabalhando que os funcionários “super legais”, a diferença é que eles aceitam menos tarefas. Desta forma, eles dedicam mais tempo para o que estão fazendo e acabam se especializando naquilo, diferentemente dos se animam com tudo, que acumulam tarefas e, como consequência, perdem o foco com mais facilidade e têm menos tempo para se especializar.
Além disso, o ranzinza também tem mais facilidade de se expressar quando não está satisfeito com alguma situação. “O bonzinho, se você entrega um trabalho meia-boca, ele, para não ferir o relacionamento, vai falar que ficou bom, mesmo não ficando. Já o ranzinza expõe isso”, comenta Fabossi.
Para o especialista, o ideal é que, seja ranzinza ou super pró-ativo, o profissional precisa prestar atenção nos feedbacks que os líderes e colegas lhe passam e buscar aperfeiçoar os seus defeitos. “Muita gente é contratada pela sua capacidade técnica e demitida pelo seu comportamento. E todos nós somos capazes de aprender novos comportamentos”, aponta.
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