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Empreendedorismo é marca registrada da Geração Y
Realização pessoal e autonomia estão no foco de pessoas que decidem, no início da vida profissional, ter sua própria empresa
Eles têm segurança para arriscar, lembram vagamente o que é inflação, cresceram em meio às mais importantes inovações tecnológicas e em um mundo já cheio de mudanças sociais e entram no mercado sem a intenção de serem subordinados, mas de criar seus próprios negócios. São os jovens que lideram o ranking de empreendedores iniciais no Brasil, deixando de lado empregos vistos como ideais durante muito tempo — seguros e estáveis, em concursos públicos ou com carteira assinada — para investir em projetos com foco em maior qualidade de vida e realização profissional.
Conforme a pesquisa Global Entrepeneurship Monitor (GEM) 2013, realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com o Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), a faixa etária na qual se observa a maior frequência de empreendedores iniciais é a de 25 a 34 anos (21,9%). Aqueles entre 18 e 24 anos também têm papel importante no ranking e foram responsáveis pela criação de 16,2% das empresas no País no passado.
A faixa etária classificada como juventude é razoavelmente subjetiva. A Organização das Nações Unidas (ONU) entende por jovens aqueles entre 15 e 24 anos. Já o Estatuto da Juventude brasileiro encara como população jovem indivíduos entre 15 e 29 anos. Fato é que a chamada Geração Y – pessoas nascidas a partir de 1978 até o final dos anos 1990 –, vista como individualista e comodista, vem mostrando que tem outros lados.
Preocupados com a felicidade e interessados em colocar à prova os empregos tradicionais, eles desenvolvem projetos inovadores e afirmam que, mais importante do que se preparar para o futuro, é agir, agora. “Os jovens dessa geração realmente são focados em seus valores pessoais e priorizam o que é mais importante para si, mas isso não é algo negativo. Eles privilegiam mais do que a segurança e querem qualidade de vida”, afirma o psicólogo e coordenador do Núcleo de Apoio ao Estudante (NAE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Marco Antônio Teixeira.
Teixeira alerta que é uma tendência os jovens desenvolverem carreiras com grande mobilidade e autonomia. Exigentes, mudam constantemente de trabalho e projetos e são pessoas realmente menos apegadas às organizações do que seus pais e avós, explica o psicólogo. “É difícil generalizar, mas essa geração cresceu em famílias mais tolerantes, logo, é mais crítica à postura organizacional tradicional, não tem medo de questionar e não gosta de desempenhar trabalhos repetitivos e que não lhe realizem”, resume.
A solução encontrada por muitos para se desenvolver de acordo com seus anseios é criar o próprio modelo de negócio, com gestão focada naquilo em que acreditam. Por isso, não se surpreenda ao chegar a uma reunião de negócios e dar de cara com uma jovem recém-formada dona de uma startup de tecnologia ou jantar uma pizza feita por dois cabeludos cheios de talento e atitude.
Negócios estão ligados ao estilo de vida
Amigos de longa data, Guilherme Lacerda e Fábio Pradella largaram empregos estáveis para empreender. Juntos desde a primeira série, os dois têm em comum mais do que o desejo por uma agenda flexível: a busca por disseminar hábitos de vida mais saudável, a começar pela alimentação.
Guilherme conta que estava descontente com o ritmo frenético de trabalho em uma multinacional e que Fábio vivia um conflito ético ao trabalhar em um comércio de carnes enquanto mantinha uma dieta vegetariana. Eis que, despretensiosamente, surge o Pizza Sessions, unindo o gosto de ambos pela culinária, principalmente vegetariana.
Cientes da conexão entre as atitudes individuais no mundo, os jovens buscam aliar aquilo que desenvolvem profissionalmente com o estilo de vida fora do ambiente organizacional. A dupla oferece aos consumidores aquilo que gostaria de comer e preza pela qualidade dos ingredientes, plantando muitos deles e desenvolvendo outros tantos (como o queijo de amêndoas, cream cheese de castanhas de caju e doce de leite de coco, todos sem lactose). A pequena horta orgânica é mantida nos fundos da Casa Liberdade, um espaço de coworking e convivência destinado aos interessados em empreender, de onde devem sair até a metade do ano.
O sucesso do Pizza Sessions fez com que a cozinha do local ficasse pequena tamanha a demanda. Por isso, os meninos planejam migrar para um restaurante próprio ainda neste ano, com cozinha colaborativa aberta a novos cheffs. “Queremos dar espaço para quem está começando e, quem sabe, replicar o modelo da Casa Liberdade focando gastronomia”, diz Guilherme.
No entanto, nem sempre foi assim, por isso Guilherme indica a criação de um “colchão financeiro” capaz de dar certa segurança aos jovens empreendedores enquanto arriscam. “Além disso, sempre guardamos 20% do caixa para qualquer imprevisto ou para reinvestir no negócio. Não dá só para dividir todo o lucro por dois”, indica.
As redes sociais foram cruciais para o desenvolvimento do empreendimento, servindo para a qualificação profissional, divulgação dos eventos, cursos e outras ações e para compartilhar receitas e iniciativas ligadas ao estilo do Pizza Sessions. Com farinha e carinho, eles prometem ir longe.
Projetos inovadores e pioneiros viram oportunidade de renda
Recém-formada em Jornalismo, pode-se dizer que Greta Paz nasceu empreendedora e soube desenvolver esse talento com o passar do tempo, em parte graças à influência da família e muito por causa de sua força de vontade. Criadora de uma das primeiras empresas especializada em vídeoweb do Brasil, a MPQuatro, Greta decidiu investir em um projeto simples, mas inovador. Com menos de um ano, a novidade atrai empresas de todos os tamanhos interessadas em tirar proveito de um meio que cresceu junto com a sua geração: a internet.
Com o perfil exato dos novos empreendedores, a jovem inquieta mantinha um blog antes mesmo de ingressar na Faculdade de Comunicação (Famecos) da Pucrs. Com pressa, outro adjetivo usado para qualificar os “Y”, antes de sair da universidade, já estava com a sua microempresa a todo vapor e com clientes fixos.
Vendo uma oportunidade de negócio em tudo, mesmo o intercâmbio na Austrália com o namorado, cujo foco inicial era imergir em uma cultura diferente e trabalhar para bancar um passeio pela Europa, virou uma oportunidade de mostrar seu trabalho. A ideia da viagem veio acompanhada de um projeto de vídeos gravados pelos dois mostrando seu cotidiano no país, o programete virtual Bem Longe de Casa, comprado na hora por um veículo de comunicação.
A jovem é a prova de que as novas tecnologias trazem consigo grandes oportunidades a quem busca assumir o papel de criar suas experiências. “Sempre quis empreender, mesmo sem saber qual o caminho para isso. Só precisava encontrar um nicho ligado ao que eu gostava”, explica. E foi assim que, ao lado do sócio Miguel Luz, - formado em Cinema -, surgiu a ideia de trabalhar com material audiovisual profissional pensado para a web, principalmente para o YouTube.
Os vídeos produzidos pela MPQuatro têm o objetivo de apresentar as organizações em um curto espaço de tempo e com baixo custo. A microempresa já tem clientes fixo, um portfólio robusto e se mantém com o próprio capital.
Planejamento é palavra de ordem
Após cinco anos de experiência com empregos formais, Luana Fuentefria arriscou ao abrir mão da vida que levava para viajar em busca de novos caminhos profissionais. No exterior, entrou em contato com outros modelos de trabalho dentro da área escolhida, a Comunicação, e voltou ao Brasil a fim de adaptar o modelo visto em outros países ao lugar onde se sente mais segura e livre.
De volta a Porto Alegre, Luana conheceu o local que daria o grande empurrão rumo a uma nova carreira: a Casa Liberdade. Até participar das conversas e oficinas mediadas por profissionais de diferentes formações que vão até lá para dividir o conhecimento, ela acreditava que tinha de se jogar em um negócio para depois avaliar se a ideia seria aceita, ideia que ficou para trás. “Muitos empreendimentos não dão certo porque as pessoas não se permitem dedicar um tempo à preparação, ao estudo”, destaca.
A Sopro Conteúdo surgiu despois de muita preparação e quebrou protocolos desde a concepção. Trabalha com planejamento, criação e acompanhamento do chamado Marketing de Conteúdo Digital, que trata de geração de conteúdo personalizado pela empresa. “É a nova forma de fazer Marketing, porque hoje estamos tratando de um público não mais passivo, mas interessado em ganhar algo e se sentir parte das informações que recebe”, resume Luana.
Dentro de uma tendência atual, o negócio deve funcionar com todos os integrantes dividindo o ônus e o bônus do projeto. “Não queremos ser sócios da empresa, mas desenvolver um novo modelo em que cada um responda pelo seu trabalho.”
Trabalho formal pode dar mais segurança aos novos empresários
Nem sempre é preciso abrir mão de toda estabilidade para empreender. O perfil atual de profissional multitarefas e acostumado a desenvolver mais de um projeto concomitantemente pode tirar proveito desse potencial e desenvolver o negócio com maior segurança.
É o caso de Bruna Martins, que, ao mesmo tempo em que trabalha em uma agência de publicidade e mantém blogs de moda, administra, cria e vende roupas de couro da marca criada com a amiga Juliana Fett, a Love Leather. As duas gaúchas se conheceram em 2008 em Londres, cidade que aflorou o desejo por trabalhar com moda.
No exterior, buscaram emprego em lojas renomadas, como Selfridge’s e GAP, mas Bruna destaca que, assim como muitos brasileiros que vão ao país, também trabalharam em bares de estádios de futebol, por exemplo, sem medo de encarar todos os desafios propostos. Bruna conta que o couro surgiu quase sem querer, ainda enquanto criavam peças para as amigas. “Com o tempo, descobrimos um nicho de mercado para moda em couro carente de produtos de qualidade e com preço acessível”.
Por enquanto, a empresa está em fase de aprimoramento e galgando espaço junto aos clientes que compram no e-commerce ou nas lojas físicas parceiras, por isso não planejam se manter apenas com o negócio. “Não adianta viver só de sonho, e ainda encontramos muitas pedras pelo caminho.” Contudo, Bruna avisa que a marca já cresceu consideravelmente em menos de dois anos, mas o desejo é que ela avance mais.
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