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Dólar em alta e IOF maior afetam o bolso do turista
Duas notícias, em menos de uma semana, assustaram os brasileiros com viagens marcadas para o exterior.
No primeiro pregão do ano, o comportamento do dólar mostrou o que especialistas anunciam há meses: 2014 será um ano de valorização da moeda dos Estados Unidos, o que pressionará ainda mais a inflação no Brasil. Depois de encerrar 2013 com um ganho de 15,3% em relação ao real, a maior alta desde 2008, quando atingiu 31,9% por conta da crise financeira mundial, a divisa subiu 1,43% ontem, e terminou o dia cotada a R$ 2,391, o valor de fechamento mais elevado desde 22 de agosto de 2013.
Além de pressionar o custo de vida dos brasileiros, a elevação da moeda norte-americana vai pesar diretamente no bolso de quem tem viagem programada para o exterior. No fim de 2013, os turistas já haviam sido penalizados com a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado sobre cheques de viagem e cartões de débito usados lá fora. A alíquota do tributo subiu de 0,38% para 6,38%, levando os viajantes a aumentar a compra de dólares em espécie nas casas de câmbio.
Na ValorTur, conforme a operadora Stephanie Rodrigues, a procura por cartões caiu bastante enquanto a demanda por papel moeda aumentou bruscamente. Na AGK, o movimento foi similar. A atendente Ana Maria Lins disse que 60% dos clientes que a procuraram na manhã de ontem preferiram comprar dólares em espécie a adquirir cheques de viagem ou carregar cartões pré-pagos, embora o risco de utilizar dinheiro vivo em viagens seja maior.
Instabilidade
De acordo com especialistas, um dos fatores que deve consolidar a tendência de alta do dólar neste ano é a mudança da política monetária nos Estados Unidos. Com indicadores econômicos mais favoráveis na maior economia do planeta, o Federal Reserve (Fed, banco central do país), que vinha injetando todos os meses US$ 85 bilhões no mercado, vai reduzir, a partir deste mês, o montante de estímulo em US$ 10 bilhões. Se o ritmo de atividade continuar melhorando, a redução do programa pode ser acelerada, o que terá impacto de alta nas taxas de juros norte-americanas.
Diante dessa perspectiva, as centenas de bilhões de dólares que migraram para nações emergentes, depois da crise global, em 2008, já estão tomando o caminho de volta (veja matéria ao lado), e o Brasil tende a ser um dos países mais afetados. "O ambiente está propenso à instabilidade, com menor liquidez no mercado", explicou a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.
Ração
Não à toa, a alta da moeda, ontem, refletiu a divulgação de dois indicadores que mostram o fortalecimento da economia dos EUA. Um índice que mede a atividade manufatureira no país se manteve, em dezembro, perto da máxima em 2 anos e meio. Além disso, o número de norte-americanos que solicitaram auxílio-desemprego diminuiu pela segunda semana consecutiva. "Só a informação de melhora no mercado de trabalho foi suficiente para valorizar o dólar, porque sinalizou que a redução dos estímulos pode ser mais rápida em 2014", disse o gerente de Câmbio da Corretora Treviso, Reginaldo Galhardo.
Outro motivo da pouca liquidez no mercado é a atuação mais moderada do Banco Central (BC) brasileiro no câmbio. Em agosto do ano passado, a autoridade monetária iniciou um programa de leilões de swap cambial (operação equivalente à venda futura de dólares) e de oferta da moeda com compromisso de recompra. Com isso, vinha despejando US$ 500 milhões por dia na praça. Em dezembro, a instituição anunciou a extensão do programa até 30 de junho deste ano, mas reduziu a ração diária para US$ 200 milhões.
Ontem, o BC vendeu quatro mil contratos de swap, com vencimento em 2 de maio de 2014. Galhardo acrescentou que o volume de negociações foi baixo, por conta das festas de fim de ano, o que também contribuiu para a valorização da moeda. "O pessoal aproveitou o baixo volume para testar níveis mais altos para o dólar", avaliou. Segundo BM&F, o giro financeiro ficou em US$ 1,3 bilhão, abaixo da média diária de dezembro, de US$ 1,5 bilhão.
Fragilidade
O avanço do dólar ante o real, contudo, também tem raízes nas fragilidades da economia brasileira. "A deterioração das contas públicas, o crescimento pífio do PIB (Produto Interno Bruto) e o risco de rebaixamento da nota do Brasil pelas agências de classificação de risco também colaboram para esse comportamento do câmbio", disse Zeina Latif, da XP Investimentos. Segundo ela, a ação do BC para frear a desvalorização do real só tem eficácia a curto prazo.
De fato, logo que foi lançado, o programa de rações diárias conseguiu reduzir a cotação do dólar (veja quadro), mas, logo depois, a moeda retomou o curso de alta. "O ano será muito complicado por conta dessa volatilidade. O governo deveria acenar com uma agenda econômica para 2015. Se a presidente Dilma antecipasse o que pretende fazer num eventual segundo mandato, talvez isso tivesse força para evitar a depreciação da moeda brasileira. Do contrário, acho que o dólar poderá ultrapassar R$ 2,45", estimou a economista.
Na avaliação do economista sênior do Espírito Santo Investment Bank (BES), Flavio Serrano, a piora no balanço de pagamentos também tem um peso significativo na desvalorização da moeda nacional. "O deficit em conta-corrente, que foi de 2,5% do PIB em 2012, alcançou quase 4% em 2013. Dobrou desde 2011. Com a ração menor do BC, a redução do programa dos EUA e a deterioração das contas públicas, a tendência é o dólar continuar subindo ao longo de 2014.", analisou.
A consequência, de acordo com Serrano, é maior pressão na inflação. Ele pondera que um dos benefícios que poderia ser atribuído à alta do dólar — o crescimento das exportações — pode demorar a chegar, devido à fraqueza da economia global. "O setor externo não vai ser o salvador da pátria este ano. O comércio mundial está em recuperação, mas é um movimento moderado", observou.
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