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Executivos investem na arte de se comunicar
O que existe, no geral, são cursos de como falar em público, de técnicas de apresentação e de relação com a imprensa, oferecidos por algumas empresas.
As reuniões constantes, as apresentações para grandes públicos e as videoconferências para profissionais de todos os cantos do mundo exigem que os presidentes, vices e diretores afinem as suas habilidades de comunicação para atingir as metas, trazer resultados para a empresa, e, especialmente, reter e engajar os funcionários.
Mas, ao contrário do que acontece com outras habilidades profissionais, a comunicação não envolve um treinamento formal com feedback individual, tampouco é uma disciplina específica nas universidades. O que existe, no geral, são cursos de como falar em público, de técnicas de apresentação e de relação com a imprensa, oferecidos por algumas empresas. Além disso, há algum foco no assunto em sessões de coaching ou mentoring.
Esse cenário, segundo especialistas, está bem longe do ideal. Segundo eles, entender o papel da comunicação, vendo a importância de estudar os públicos e tentando encontrar o melhor caminho entre a persuasão e a empatia, ainda é para poucos. Não por acaso, a falta de comunicação é um tema constante nas pesquisas internas de clima corporativo.
Sem treinar especificamente essa habilidade, o profissional chega aos altos cargos em uma posição delicada. Isso serve para o profissional mais técnico, acostumado com números e que sofre para falar em público ou individualmente. Também é importante para o de áreas próximas de comunicação como vendas ou marketing- que pode carregar nas tintas, ser visto como arrogante e intransigente, que quase não ouve.
"Políticos e advogados, por exemplo, recebem muitas horas de treinamento nas câmaras de vereadores ou nos tribunais de instância menores. Mas, na área empresarial, ainda se fala que a comunicação é um dom, algo que alguns têm e outros não", afirma Richard House, consultor especializado no assunto.
O mundo corporativo mudou, argumenta Paulo Nassar, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial. Isso significa, em sua opinião, que o foco do alto executivo hoje está cada vez mais longe das ordens e mais próximo do engajamento - algo que não é possível se fazer sem comunicação. "Esta não é uma habilidade que surge sozinha. É preciso empenho e treinamento continuado", afirma.
O que profissionais atentos perceberam foi que havia uma lacuna e, então, foram à luta. É o caso de Marcelo Campinho, diretor executivo de negócios e operações da White Martins. Formado em engenharia química, o profissional de 41 anos teve uma graduação técnica, acostumado com as equações e planilhas. Quando chegou à empresa, como estagiário, logo percebeu que precisaria enfrentar um temor antigo: as apresentações para grandes públicos. "Era tímido, sentia dificuldade de interagir e vi que precisava fazer alguma coisa", conta.
Começou, a partir daí, a aproveitar os vários treinamentos internos da empresa sobre o tema. Estudou técnicas de apresentação, de como falar a grandes grupos e de relacionamento interpessoal, além de ter participado de um curso específico na matriz da White Martins nos Estados Unidos em que atores da Broadway interagiam e davam dicas aos executivos. Fora da empresa, foi estudar negociação em Harvard em um programa que dava especial atenção ao relacionamento com os clientes. "A experiência fora do país foi importante também para entender como se comunicar com pessoas com culturas e nacionalidades diferentes", ressalta.
O executivo, que está há 19 anos na White Martins, afirma que os conhecimentos adquiridos o ajudaram a ser promovido e abriram novos caminhos para sua carreira. Hoje, ele também é professor de cursos internos da empresa e atua como coach de novos profissionais. "Quando conto aos meus colegas sobre a minha timidez, eles não acreditam. Trabalhei para fazer da comunicação uma vantagem competitiva para mim."
Mas não são só os profissionais técnicos que investem nisso. O executivo Paulo Simas, de 60 anos, é um exemplo. Ele passou 16 anos na Philips em cargos como CEO da empresa no México e no Chile e nunca teve problemas em se apresentar para grandes públicos. Mesmo assim, após fazer o curso de comunicação e carisma para executivos com Richard House e David Green, viu que a questão é muito mais complexa. "Notei que, pela minha experiência, sou assertivo para plateias maiores, mas não posso simplesmente usar as mesmas técnicas em grupos menores. Corro o risco de passar a impressão de que não abro espaços para a cooperação e posso até ser visto como arrogante", conta.
História parecida tem Marcus Edrisse, vice-presidente de negócios, governo e finanças da integradora de TI Cast. Com 44 anos, ele teve o seu primeiro contato com o tema quando ainda era trainee na IBM. "Não tinha dificuldade para falar em público, mas ficava com frio na barriga", lembra. O treino funcionava com a gravação em vídeo de uma palestra do profissional, de vinte minutos, que era analisada por um especialista.
O executivo conta que aprendeu a enfrentar reações inconscientes que podem nos prejudicar. De acordo com ele, é provável que durante uma apresentação você concentre a sua atenção em duas ou três pessoas que mostram que concordam com o que está sendo dito acenando com a cabeça. "Nada mais natural fazer isso em busca de conforto naquela situação de tensão. O que nem todo mundo percebe é o risco de alienar todo o resto da audiência, prejudicando a mensagem", diz.
O executivo que deseja melhorar suas habilidades de comunicação precisa saber, porém, que nem tudo é possível. Quem é tímido não vai virar, do dia para noite, um apresentador de TV. E isso não significa que o profissional seja um fracasso. "É fácil olhar para os grandes eventos e achar que se comunicar bem é só isso. Mas, em vários aspectos, essa é a parte 'fácil' do trabalho", afirma David Green. Isso porque, nesses casos, existe uma programação definida previamente, os discursos foram escritos por uma equipe e são ensaiados várias vezes antes de subir ao palco.
Na hora, efeitos especiais, músicas e truques melhoram a experiência para a audiência. Green ressalta, no entanto, que são vários os cenários que precisam de treino além do palco. "Eles vão desde reuniões com analistas financeiros e encontros com o conselho até entrevistas com jornalistas", diz.
Por essa razão, cursos como técnicas de apresentação não podem ser vistos como o treinamento completo em comunicação. Alexandre Rangel, sócio da Alliance Coaching, afirma que esse tipo de treinamento ajuda a tirar o temor das palestras, mas precisa estar integrado em um programa mais amplo. "A mudança de comportamento, com abertura para ouvir e mudar o panorama, só acontece junto com o coaching", afirma.
O executivo, desse modo, precisa levar em conta que a comunicação é uma via de mão dupla - falar e ouvir. "Há uma demanda muito grande hoje por cursos de feedback, porque não é raro o líder ter 'desaprendido' a conversar", afirma Vicky Bloch, headhunter e coach de altos executivos. "É importante lembrar que a comunicação é uma troca. É possível evitar o tempo perdido com retrabalho, a falta de engajamento e uma série de problemas que são muito comuns na vida corporativa hoje em dia", diz.
É nesse momento que surge uma preocupação tão grande quanto a capacidade de comunicação: a autenticidade. "O público, corporativo ou não, desconfia da mensagem como nunca fez antes. Além de falar e ouvir, é preciso ter autenticidade. Se tiver show no palco, mas se não cumprir o que fala, ninguém trabalha junto", afirma Marco Túlio Zanini, coordenador do mestrado executivo de gestão empresarial e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
É por isso que nos dias de hoje não é mais possível para um profissional, especialmente um executivo, continuar desconhecendo a dimensão real da comunicação. Em um mercado tão competitivo quanto o corporativo, o alto escalão precisa estar sempre atento para não acabar falando apenas com as paredes.
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