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BC deixa dólar cair abaixo de R$ 1,95 e divide mercado
A deterioração maior que a prevista da inflação fortaleceu a tese de que a taxa Selic deve ser elevada já na próxima reunião de política monetária do BC, em abril
As dúvidas do mercado a respeito da política cambial do Banco Central aumentaram significativamente com a omissão da autarquia na sexta, ao não intervir no câmbio mesmo após o dólar cair abaixo de R$ 1,95 pela primeira vez desde maio passado. Agora, o mercado se divide entre os que dizem acreditar que o BC abrirá espaço para o dólar cair ainda mais, para ajudar no controle da inflação, e os que apostam que os fundamentos econômicos voltarão a forçar uma desvalorização do real.
A queda do dólar na sexta - de 0,71%, para R$ 1,947, menor cotação desde 8 de maio - veio na esteira do resultado pior que o esperado da inflação em fevereiro, medida pelo IPCA. Enquanto o BC esperava avanço equivalente à metade do registrado em janeiro (0,86%), o indicador subiu 0,60% no mês passado.
A deterioração maior que a prevista da inflação fortaleceu a tese de que a taxa Selic deve ser elevada já na próxima reunião de política monetária do BC, em abril. O que levou o mercado a ajustar o dólar à expectativa de juro mais alto.
"A inflação veio alta, aumentou a possibilidade de aumento da Selic em abril e a curva de juros continuou abrindo. À medida que isso foi acontecendo, o câmbio foi apreciando", disse Diego Donadio, estrategista sênior do BNP Paribas.
Desde o fim de janeiro, quando o dólar voltou a ser negociado abaixo de R$ 2, o BC atuou duas vezes para defender o piso de R$ 1,95. O mercado viu essas atuações como um "recado" do BC de que não queria a moeda abaixo desse patamar. Mas, na sexta, quando a autarquia não atuou após o dólar furar esse piso, o consenso em torno dessa sinalização evaporou.
"Acho que o BC realmente pode permitir que o real se aprecie ainda mais", disse Jorge Knauer, gestor de renda fixa e câmbio da Appia Capital. "O BC pode também elevar a Selic, mas não duvido que use o câmbio mais apreciado para reduzir a necessidade de um aperto monetário mais forte."
Carlos Kawall, economista-chefe do J. Safra, até admite a possibilidade de o dólar aprofundar a queda ante o real no curtíssimo prazo, ligada principalmente aos ajustes de apostas no câmbio à expectativa de juro mais alto já em abril - quando ele aposta que começará o ciclo de aperto monetário do BC. Ainda assim, Kawall diz não acreditar que essa situação seja sustentável. Eventualmente, os fundamentos econômicos pesarão mais, pressionando o dólar para cima.
"O fundamento não aponta para a condução de um câmbio mais apreciado, pois a expectativa é de aumento no déficit de transações correntes, de queda no fluxo", disse ele. "Se restringindo estritamente ao fundamento, a tendência é de maior depreciação do real."
Donadio, do BNP, concorda que a tendência de médio prazo para o dólar é de alta. Para ele, num período de um a dois meses, enquanto o ciclo de aperto monetário do BC não ganha força, a autarquia deve atuar para manter o dólar próximo de R$ 1,95. Depois disso, ele prevê que a inflação continuará alta, com o IPCA furando o teto de 6,5%, o que, com um baixo crescimento econômico, fará o real cair.
"Qualquer moeda num mercado com esse tipo de dinâmica, de inflação acima da meta e crescimento fraco, acaba perdendo valor. É o que devemos ver no Brasil."
O economista-chefe do Deutsche Bank do Brasil, José Faria, também vê a possibilidade de um aumento nos juros elevar o dólar. A influência sobre o câmbio, porém, dependerá da intensidade do aperto. "Se a alta do juro for pequena, prevalece a visão de que o dólar pode subir um pouco mais. Mas se a alta for mais forte, o diferencial de juros cresce a ponto de atrair mais capital, o que pode pressionar o dólar para baixo."
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