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Férias para descansar de verdade
Emendar um projeto no outro e não fazer uma pausa, no entanto, pode ter consequências tanto para a saúde do executivo quanto para os negócios.
No mercado de trabalho desde os 11 anos de idade, Acácio Queiroz, hoje com 64, consegue tirar férias regulares há apenas sete anos. Mesmo ocupando o cargo de CEO da Chubb Seguros do Brasil, ele não abre mão de viajar por alguns dias para "sair do furacão" e descansar.
"Comecei muito cedo e percorri uma longa carreira. A gente acaba ficando fanático por trabalhar", conta o executivo, explicando uma das razões pelas quais não aproveitava as férias. Para ele, entre os membros da sua geração, a dos "baby boomers", era comum dedicar praticamente toda a vida ao emprego. "Tive que reaprender a importância de ter mais equilíbrio na vida", diz Queiroz.
Desde que começou a tirar férias, o executivo procura descansar os 30 dias a que tem direito - ainda que divididos, caso seja necessário. "Não vendo férias", afirma. Em sua última viagem de lazer, ele passou cerca de um mês na Europa com a mulher. Para janeiro, está planejando ficar 20 dias em uma praia aqui mesmo no Brasil.
Executivos como Queiroz ainda são maioria, mas o número de profissionais que usufruem efetivamente de um período de descanso vem diminuindo. Uma pesquisa da filial brasileira da International Stress Management Association (Isma-BR) mostra que, em 2005, 28% dos executivos brasileiros não tiravam férias regularmente. O dado mais atualizado já indica uma porcentagem superior: 32%.
Emendar um projeto no outro e não fazer uma pausa, no entanto, pode ter consequências tanto para a saúde do executivo quanto para os negócios. Sem férias, o estresse aumenta e, do lado pessoal, crescem as chances de adoecimento. Nesses casos, os sintomas mais comuns, segundo pesquisas da Isma-BR, são dores musculares, de cabeça e problemas estomacais. Sem contar que a ansiedade também se intensifica e, com ela, surge a frustração, que acaba levando algumas pessoas a fazerem uso mais frequente de medicamentos e álcool.
Segundo Ana Maria Rossi, presidente da Isma-BR, a falta de férias aumenta o desgaste do dia a dia corporativo, diminuiu a criatividade e a produtividade, além de prejudicar a destreza mental para a tomada de decisões. "Com o acúmulo de trabalho, o executivo fica cronicamente estressado. Isso faz com que o corpo produza mais hormônios como cortisol e adrenalina, que limitam a agilidade mental", diz Ana Maria. "Às vezes, chega-se a um ponto de exaustão", afirma.
Queiroz, da Chubb, garante que, desde que começou a tirar férias regularmente, está mais equilibrado emocionalmente. Ele diz ser, hoje, uma pessoa mais compreensiva tanto no trabalho quanto na vida pessoal. "Após tirar férias, tenho condições melhores de controlar meus impulsos. Isso ajuda a sair na frente em qualquer discussão de negócio", afirma Queiroz. Na vida pessoal, ele também sentiu o impacto do descanso físico e mental. "Tenho 40 anos de casado e, agora, um pouco mais de cinco de namoro", brinca. "Quando saio de férias, é um tempo que tenho apenas para mim, minha mulher e a família."
No caso de Queiroz, não foi um marco, um problema grave de saúde, por exemplo, que lhe abriu os olhos para a necessidade de tirar férias regulares. Foi a percepção de que precisava "ser um líder mais moderno" e aprender a delegar. Para conseguir o período de descanso, o executivo teve de aceitar que outras pessoas na empresa podem fazer o seu trabalho, desde que sejam preparadas para isso. "Você vai percebendo que não é o centro do universo. Antes, eu interferia nas tarefas até da minha assistente", diz.
Ao sair de férias, Queiroz desliga o telefone celular, mas nem por isso fica incomunicável. Em sua opinião, um CEO não pode ficar totalmente "fora do ar". Assim, o executivo costuma deixar o telefone do hotel onde estará hospedado - e o de sua esposa - com a assistente. A orientação, porém, é procurá-lo apenas quando isso for realmente necessário. "Nas últimas férias, não fui incomodado", garante.
O método adotado por Queiroz é correto, segundo Ana Maria, da Isma-BR. Para ela, não são necessários 30 dias de férias para que um executivo consiga realmente descansar e "recarregar as baterias", como diz. O mais importante é se desconectar, mesmo que por poucos dias. "Se é difícil para um executivo ficar fora por um mês, ele deve tentar tirar férias curtas, mas regulares", afirma.
Um estudo da professora da PUC de Minas Gerais Betania Tanure, com mais de mil executivos das 500 maiores empresas do país, mostra que essa é mesmo a realidade da maioria dos executivos brasileiros. Entre os cerca de 70% que conseguem tirar férias regularmente, nove em cada dez nunca tiram 30 dias corridos. "Há momentos na empresa em que é mesmo difícil o profissional se afastar", diz.
Mas, segundo ela, a verdade é que muitos se acham insubstituíveis e acabam não formando uma equipe que possa tomar decisões na ausência deles. "Colocar a pressão apenas no mercado pelo fato de não poder tirar férias é terceirizar o problema", afirma Betania.
Ela diz que essa percepção de não poder se ausentar do trabalho sempre existiu, mas foi acentuada nos últimos tempos principalmente por conta da competitividade e do ritmo exacerbado das coisas. Estudos feitos pela Isma-BR e também pela professora Betania tentaram identificar as causas pelas quais os executivos não saem de férias.
Entre as maiores razões foram citados o receio de que decisões importantes sejam tomadas na ausência deles, a possibilidade de haver mudanças na empresa enquanto estão fora, a insegurança de que serão substituídos e o fato de não gostarem de tirar férias - especialmente por não saberem o que fazer com o tempo livre e por não se sentirem confortáveis com a presença mais intensa dos familiares.
"Não chega a surpreender", diz Ana Maria. De acordo com ela, o atual ritmo de trabalho leva muitas pessoas a se distanciarem de seus companheiros e filhos. Portanto, quando surge a oportunidade de passar mais tempo com eles, acabam não sabendo como agir. "Não sair de férias acaba sendo uma fuga dessa situação", analisa.
No comando da Even Construtora e Incorporadora, Carlos Terepins é mais um exemplo de presidente de empresa que consegue se desligar por alguns dias. Ele conta que, ao longo da carreira, sempre preferiu tirar férias mais curtas. Por isso, duas ou três vezes por ano pega dez dias para descansar. "A companhia é tocada perfeitamente na minha ausência", diz.
O segredo para que isso aconteça é programar as férias com antecedência e ter uma equipe de diretores capacitados para cobrir sua ausência. "Mesmo quando estou presente na empresa, os diretores já respondem cada um por sua área. Na minha ausência, seguem deliberando dessa forma e têm autonomia para decidir", afirma.
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