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BC não convence e perde credibilidade
Analistas veem novas baixas na taxa de juros, mas alegam que decisão será política, pois inflação se manterá alta.
O Banco Central se colocou em uma linha de fogo ao reduzir a taxa básica de juros (Selic) de 12,50% ao ano para 12% e não explicar, com consistência, os motivos da decisão. O diagnóstico de especialistas acerca do teor da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na qual se tomou a surpreendente decisão, foi unânime: a instituição se isolou do mercado ao defender uma tese que poucos endossam e terá de contar com a sorte para resgatar a credibilidade perdida.
Para os principais analistas do mercado, a autoridade monetária apostou todas as fichas em um cenário que não consta nem nos seus modelos que tentam prever os destinos da produção e do consumo. Tanto que elevou as projeções de inflação para este ano e para 2012, independentemente da alegada desaceleração — ou mesmo recessão — nas principais economias do mundo (Estados Unidos e Europa). As incoerências na ata foram tantas, que a desconfiança de que o BC está agindo por pressões políticas se transformou em certeza. Mas não é só. Além do agravamento da crise externa, a instituição terá de contar com a boa vontade do Ministério da Fazenda para fazer um ajuste fiscal de verdade.
Na avaliação dos analistas, o BC deixou claro na ata do Copom que os juros continuarão caindo, pois tem a certeza de que a inflação convergirá para o centro da meta (4,5%) até o fim do ano que vem. Segundo o presidente da instituição, Alexandre Tombini, de outubro deste ano até dezembro de 2012, o IPCA, que está em 7,23% no acumulado de 12 meses, cairá entre 1,8 e dois pontos percentuais. Esse recuo será possível porque a economia brasileira crescerá menos e não há, no horizonte, nenhuma previsão de aumento dos preços das commodities (produtos básicos com cotação internacional).
Pelas contas do BC, o impacto da crise atual sobre o Brasil será de um quarto (25%) do registrado em 2008-2009. Os efeitos, no entender da autoridade monetária, serão suficientes para derrubar o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) dos atuais 4% para algo entre 3% e 3,5% neste ano. Nos parágrafo 23 e 26 da ata, por sinal, o BC ressaltou que "o processo de moderação em que se encontra a economia tende a ser potencializado pela fragilidade global". Assim, "o balanço de riscos para a inflação se tonar mais favorável".
Palavras ao vento
Segundo Elson Teles, economista-chefe da Máxima Asset Management, foram palavras ao vento. "A decisão do BC de reduzir a Selic foi precipitada. A inflação continuará a pressionar a economia", afirmou. Por isso, aumenta, a cada dia, o número de especialistas apostando no estouro do teto da meta deste ano, de 6,5%, e na possibilidade de a inflação bater em 6% em 2012. "O BC se colocou na berlinda. A reforçou a sensação de interferência política no Copom", disse Jason Vieira, da Corretora Cruzeiro do Sul.
Uma enxurrada de relatórios, emitidos por várias instituições após a divulgação da ata, evidenciou o mal-estar em relação ao Banco Central. "A decisão de cortar os juros foi equivocada, pelo momento e pela intensidade. A ata confirma que o Copom pressupõe um cenário externo que ainda não se realizou plenamente e sobre o qual o BC não tem nenhum controle", criticou Flávio Combat, economista-chefe da Concórdia Corretora.
Apesar das discordâncias, os analistas apostam que a Selic continuará baixando. Mas não com base em argumentos técnicos e, sim, por decisão política. Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco, prevê mais duas quedas de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões do Copom deste ano e pelo menos mais uma, em igual proporção, no primeiro encontro de 2012. Para Ilan Goldfjan, economista-chefe do Itaú Unibanco, os juros fecharão este ano em 11% e o próximo, em 10%.
Segundo Marcelo Gazzano, economista do Royal Bank of Scotland (RBS), o BC colocou um piso e um teto para o corte da Selic. A seu ver, se o Copom optar por fazer a redução pelo piso, os juros cairão 1,25 ponto, o que significa terminar o ano em 11,25%. No caso optar pelo teto, a queda será mais forte, de 1,75 ponto, com a taxa básica recuando para 10,75%, mesmo patamar de quando Tombini assumiu a presidência do BC, em janeiro deste ano.
FMI DEFENDE CORTE DA SELIC
O Fundo Monetário Internacional reconheceu ontem que a redução da taxa básica de juros (Selic) foi determinada pela deterioração do cenário internacional. "A economia mundial está desacelerando rapidamente e os obstáculos (para o crescimento) aumentam", afirmou o porta-voz da instituição, Gerry Rice, sem deixar claro se a medida foi tem o apoio do fundo. "Segundo entendemos, o Banco Central brasileiro considerou os riscos enfrentados pelas perspectivas brasileiras no momento de tomar essa decisão", completou.
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